Monthly Archives: janeiro 2009

O Capítulo Esquecido

(Capítulo final do livro “Você quer realmente começar uma igreja em casa?”, de Frank. A. Viola)

O princípio de Deus do obreiro itinerante forasteiro é o capítulo esquecido da história do Novo Testamento. Ninguém está prestando atenção para a planta da igreja do Novo Testamento. É o ministério do Corpo de Cristo que todo o mundo deixa de lado. E, apesar de tudo, existem mais informações bíblicas sobre este projeto do que há sobre reuniões nas casas, múltiplos anciãos, reuniões de participações abertas e qualquer outro tipo de práticas utilizadas por todos aqueles que se encontram fora da igreja organizada e que arduamente defendem com capítulo e versículo.

Se nós vemos uma expressão mais rica do Corpo de Cristo, temos a obrigação de regressar a estes primeiros princípios da obra de Deus. Se não o fizermos, o propósito eterno de Deus sofrerá uma grande perda. Acredito que, sem nenhuma dúvida, continuaremos vivendo pequenos grupos de cristãos abandonando a igreja institucionalizada, reunindo-se nas casas, sentando em cômodos assentos, e conversando alegremente em torno de um café com bolachas. Mas isto está infinitamente longe deste majestoso, profundo e eterno propósito no qual Deus chamou ao Seu povo a trabalhar. Isto é, que façam de Jesus Cristo, em toda Sua plenitude, visível neste planeta.

À vista da inacreditável natureza da intenção divina, o que é necessário hoje em dia são homens que sejam chamados por Deus para erguer a casa do Senhor – homens submissos, humildes e provados, que tenham vivido a vida de ekklesia, que tenham um profundo e vivo conhecimento de Cristo e do mistério de Deus. O que precisamos é de homens que possam transmitir esta revelação aos outros com uma visão penetrante e um poder de permanência.

A necessidade da hora é por tais homens que esperam em Deus até que eles sejam preparados e enviados. E uma vez enviados, plantem a ekklesia da mesma maneira feita pelos trabalhadores do primeiro século – capacitando-a e entregando-a ao Espírito Santo! Da mesma maneira, é necessário que o Corpo de Cristo reconheça a necessidade de tais homens. Que a maior parte dos cristãos modernos, que estão abandonado o cristianismo institucional, possam ver a necessidade do trabalhador itinerante e parem de ignorar desinteressadamente a mordomia dada por Deus.

1 Coríntios 12:18-21,28
Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve. Se todos, porém, fossem um só membro, onde estaria o corpo? O certo é que há muitos membros, mas um só corpo. Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de vós. A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas.

Efésios 4:7-16
E a graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo. Por isso, diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens. Ora, que quer dizer subiu, senão que também havia descido às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas. E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.

Hoje é um dia de restauração e de retomar os valores primitivos. Mas também é um dia de reparação e correção. E não é uma tarefa pequena reparar o testemunho corporativo do povo de Deus. Mesmo que não exista escassez de cristãos nos dias de hoje, existe uma grande ausência da forma do testemunho corporativo. E este é o maior desejo de Deus – assegurar-se de um grupo de pessoas em cada lugar, que em bases firmes, estejam constituídos e juntos edificados para que possam formar uma visível, localizável e geográfica expressão corporativa de Seu Filho.

Colossenses 2:2
Para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo,

Colossenses 2:19
E não retendo a cabeça, da qual todo o corpo, suprido e bem vinculado por suas juntas e ligamentos, cresce o crescimento que procede de Deus.

Efésios 2:21-22
No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.

Efésios 4:16
De quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.

1 Pedro 2:5
Também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo.

Os cristãos que abandonaram a igreja institucional, não importa por quanto tempo tenham sido salvos, terão um tempo muito difícil de estar na comunidade, cara a cara, com outros cristãos, sem ter uma cabeça humana que os dirija (as razões para isso são muito numerosas). Desta maneira, um obreiro que conhece a soberania de Cristo, que experimentou a genuína vida da ekklesia, com todas suas aflições e glórias, e que foi prostrado pela Cruz, é um recurso indispensável para ajudar a outros crentes a descobrir como reunir-se diretamente sob a superioridade e direção de Jesus Cristo.

Quero terminar com uma exortação. Se nós nos mantivermos firmes ao projeto do Novo Testamento na forma em que cada igreja deve se reunir, como podemos rejeitar o projeto do Novo Testamento acerca da maneira de nascer de cada igreja? Se nos encontramos obrigados a abraçar os princípios do Novo Testamento em assuntos da organização na igreja, não estamos da mesma forma obrigados a adotar os princípios do Novo Testamento acerca de plantar igrejas?
Talvez se enfrentarmos com sinceridade a estas perguntas, começaremos a ver os resultados do Novo Testamento. E nos encontraremos mais seguros para desbravar este caminho.
Que o Senhor restabeleça Sua casa e retome Seu eterno propósito!

Como Ter Reuniões Participativas em Igrejas nas Casas (Frank. A. Viola)

(Capítulo 45 do livro ‘Nexus: O Leitor do Movimento Mundial de Igrejas nas Casas’. Rad Zdero, Ed., William Carey Library, 2007, disponibilizado gratuitamente, em Inglês, no site wwwptmin.org.)

Neste capítulo, iremos explorar como se ter reuniões participativas de compartilhamento de vidas, em igrejas nas casas. A teologia, o mérito bíblico e os benefícios espirituais do estilo de reuniões abertas da igreja do primeiro século foram discutidos em outro trabalho[1]. A evolução de quando e onde as reuniões abertas da igreja foram extintas na história da igreja, e como o expectador domingueiro, tipo “liturgia fixa”, as substituiu também foram examinadas, em detalhe, em outro trabalho[2]. Aqui, ao invés disso, iremos olhar para o tema de modo muito prático. O que se segue é o que eu tenho descoberto ao longo de dezoito anos de participação em reuniões de igrejas nas casas. Este capítulo é intencionado a ajudar as novas igrejas nas casas a aprender como funcionar como uma comunidade de crentes sem o pastor típico tradicional ou ordem de culto pré-planejada[3]. O intuito é equipar qualquer um a participar, compartilhar, e usar seus dons espirituais nas reuniões.

CULTOS DE IGREJAS TRADICIONAIS x REUNIÕES DE IGREJAS NAS CASAS

Vamos iniciar dizendo algumas palavras sobre a linguagem que temos sido condicionados a usar. Vai demorar um certo tempo para que uma igreja nas casas remova esses conceitos de seu modo de pensar e ajuste o seu vocabulário. Existem duas frases que nós iremos extinguir para sempre do nosso vocabulário. Elas são: ‘culto da igreja’[4] e ‘ir à igreja’. Primeiro, ‘culto’ pertence a instituições. Cultos são ritualísticos, cerimônias baseadas em performances. Os cristãos primitivos nunca tiveram ‘cultos’, onde alguns poucos ativos atuam para uma audiência passiva. Ao invés disso, eles tinham ‘reuniões’ espontâneas, interativas e guiadas pelo Espírito Santo. ‘Reunião’ é a palavra empregada ao longo do Novo Testamento quando os cristãos estavam juntos para demonstrar Cristo[5]. Segundo, nós não estamos mais ‘indo à igreja’. A igreja ou ekklesia é o Corpo de Cristo que se reúne em assembléia. Não é um lugar para ir. Não é um edifício. Estamos indo a uma reunião e somos parte da igreja.

ASPECTOS PRÁTICOS DE INSTALAR UMA IGREJA EM CASA

Vamos agora nos mover para os preparativos básicos para instalar uma igreja em casa. Alguns desses itens serão óbvios, enquanto outros não. Essas sugestões intencionam criar uma atmosfera propícia para se ter uma reunião participativa com um mínimo de distração.

Encontre Uma Casa Hospedeira

Naturalmente, a pessoa que possui a maior sala de visitas desejará receber a igreja em sua casa. Porém, se a pessoa morar a 70 Km de distância dos demais, isto não irá funcionar. É importante encontrar uma casa que seja central com relação a onde a maioria do grupo mora. É importante deixar claro que a pessoa ou casal que hospeda a igreja não é dona da igreja e não necessariamente é (ou são) o líder (ou os líderes) do grupo. Entretanto, os donos da casa têm certas prerrogativas para regulamentar certas coisas, tais como tipo de sapatos a serem usados na casa, estacionamento, quartos que não podem ser usados etc. E é importante que o resto do grupo respeite essas regras. Se existem mais de uma pessoa (ou casal) querendo hospedar a igreja, o grupo pode fazer um rodízio.

Decida sobre o Tempo e a Freqüência das Reuniões

Primeiro, sugere-se que a igreja se reúna pelo menos uma vez por semana. Todos do grupo devem participar da decisão sobre a freqüência e o tempo das reuniões, de modo que todos possam estar disponíveis durante algumas horas. O grupo pode rever essas questões periodicamente devido a fatores tais como o seu aumento ou ao cuidado com as crianças.
Segundo, respeite o tempo de início e fim das reuniões, ou do contrário, as pessoas não irão participar mais das reuniões. As igrejas institucionais podem seguir mesmo com pessoas atrasadas. Com as igrejas nas casas não é assim. Reuniões participativas e abertas requerem que todos sejam pontuais. Se as reuniões sempre começarem no horário, mesmo com poucas pessoas, isso provocará uma mudança de hábito naqueles que costumam chegar atrasado. Mas, se o grupo sempre espera por todo mundo, as pessoas terão a idéia de que chegar atrasado é aceitável na igreja.

Terceiro, anuncie o local e o horário da próxima reunião. Para as igrejas nas casas que fazem rodízio, se o local e o horário não for anunciado, as pessoas não aparecerão. A melhor hora para fazer este anúncio é no final da reunião, com todo mundo presente. As igrejas que não fazem rodízio, obviamente não precisam se preocupar com este fator.

Temperatura, Iluminação e Barulho

Esteja ciente de que quando o grupo chegar, a temperatura vai aumentar devido ao calor humano e alguns arranjos precisarão ser feitos. Também esteja consciente sobre a requerida iluminação adequada para leitura das Escrituras ou assistir a um vídeo. Adicionalmente, os donos da casa devem garantir que nenhum barulho distraia e atrapalhe a reunião. É também uma boa idéia que os participantes desliguem seus celulares ou os coloquem no modo vibratório.

Disponha as Cadeiras de Modo a Promover o Compartilhar Aberto

Ao invés de arranjar as cadeiras em filas, elas devem ser arranjadas em círculos ou retângulos, pois convidará a comunicação face-a-face e aproximará as pessoas. Aqueles que gostam de se sentar no chão, podem se acomodar no meio das cadeiras, sentando-se em almofadas ou em banquinhos.

Vista-se Informalmente

Vista-se modestamente, mas informalmente para as reuniões de igrejas nas casas. Programas ritualísticos, onde alguém assiste, ouve e é minimamente envolvido não devem caracterizar as reuniões. Estamos saindo da igreja de expectadores. Estamos aprendendo a participar de reuniões interativas e informais do povo de Deus. Vestindo-se como nos vestimos em nossos lares proporcionará a atmosfera autêntica para o grupo.

Todos devem Limpar

Se uma pessoa está hospedando a igreja em sua casa, a limpeza não deve recair exclusivamente sobre suas costas. Ao invés disso, o resto do grupo deve se envolver na limpeza e arrumação dos ambientes e aparelhos utilizados. Todos podem participar juntos, ou pode ser feito um rodízio de equipes a cada reunião. Isto pode incluir guardar as cadeiras, aspirar os tapetes, varrer o chão, limpar a cozinha etc.

Receba Bem os Visitantes

Se a igreja na casa tem visitantes, alguém do grupo deve lhes pedir para dizerem quem são, de onde vêm e o que os trouxe à reunião. É também encorajado que as igrejas nas casas acompanhem os seus visitantes. Alguém deve lhes dar as boas vindas no final da reunião e pegar suas informações de contato. Telefone para eles durante a semana. Pergunte-lhes se gostaram da reunião e convide-os a voltar. É essencial que não somente você faça com que os visitantes se sintam bem recebidos, mas também necessários e queridos. Senão você estará sendo guiado a ser um grupo do tipo ‘nós quatro e ninguém mais’. Igrejas nas casas que sofrem dessa doença perdem mais membros do que o que ganham.

O QUE FAZER EM UMA REUNIÃO PARTICIPATIVA

É sugerido que o conteúdo das reuniões participativas das igrejas nas casas contenha sete elementos chave: cânticos, compartilhar, comer, brincar, orar, manusear as Escrituras e exercer os dons espirituais de cada um. Cada elemento não tem que estar presente em cada reunião. Ao invés disso, o objetivo é que cada elemento encontre seu lugar nas reuniões de modo natural, interativo e participativo, na medida em que a igreja na casa aprenda a permitir que o Espírito Santo dirija as reuniões.

Cantem Juntos

Aprendam a cantar como um grupo corporativo de crentes. Pode ser útil nos primeiros meses de uma igreja nas casas que as pessoas aprendam a cantar como o Corpo de Cristo, sem um líder de louvor, diretor de música, ordem pré-planejada de canções, nem instrumentos musicais. Ao invés disso, aprenda a cantar acapella. Por quê? Porque durante séculos nós cristãos temos sido condicionados a deixar que instrumentos controlem nosso canto. Nós sentamos e esperamos que um instrumento nos diga quando começar e quando parar. Um líder de louvor pode, na verdade, distrair o canto corporativo. Removendo instrumentos e cantando acapella, estamos vencendo e devolvendo o canto para as mãos de todo o povo de Deus! Quando a igreja na casa se apropriar de seu canto sem um líder de louvor, então os instrumentos musicais podem ser reintroduzidos sem inibir o funcionamento do Corpo de Cristo. Os instrumentistas deveriam aprender a seguir o canto, ao invés de liderá-lo. Os musicistas poderiam considerar a possibilidade de que o Senhor deseje que eles deixem seus talentos na sua cruz por uma temporada de modo que seu povo possa despertar para o seu chamado de cantar corporativamente. A meta é que você aprenda a cantar como Corpo de Cristo sem a dependência de um líder de louvor, apesar de que eles possam agir beneficamente mais tarde.

Compartilhem Juntos

Um aspecto importante de se reunir juntos é aprender como compartilhar nossos pensamentos, sentimentos, idéias, preocupações e vitórias prontamente uns com os outros. O que se segue é uma série de exercícios que uma igreja nas casas pode tentar. Os exercícios a seguir podem ser temporariamente usados para, por exemplo, os seis primeiros meses de uma igreja nas casas e não devem nunca se tornar uma liturgia rígida para as reuniões, por longo tempo. O objetivo é usá-los até que a igreja fique acostumada a compartilhar naturalmente e facilmente uns com os outros. Depois disso, eles podem ser dispensados.

Exercício1 – compartilhe um ensinamento. De acordo com o Novo Testamento, as igrejas eram plantadas com a pregação de Jesus Cristo. Elas tipicamente foram fundadas pela pregação da Palavra de Deus por um plantador de igrejas. A palavra de Cristo possui um incrível poder de formar comunidade que não pode ser explicado racionalmente. No começo, é melhor convidar um plantador de igrejas para que compartilhe as riquezas de Cristo com a nova igreja nas casas. Este era o padrão do Novo Testamento[6]. Se isto não for possível, usem algumas boas ‘Cristocentricas’ gravações, CDs, DVDs, ou livros que o grupo concorde. A cada reunião, ouçam, assistam ou leiam o material. Compartilhem uns com os outros o que você recebeu da mensagem. Procurem não levantar questões teológicas complexas. Ao invés disso, compartilhe o que foi ministrado a você, o que lhe tocou, o que lhe perturbou ou o que você descobriu ou percebeu sobre o Senhor e sua igreja.
Exercício 2 – compartilhe sua história. A cada reunião, alguns podem contar suas histórias. Pode ser a história de sua vida, seu testemunho de como chegou a Cristo, a história de sua vida cristã até o dia de hoje, suas aspirações pessoais, ou o que lhe motivou a se reunir com esse grupo de crentes. Seja criativo se quiser. Inclua canções, poemas, fotografias, slides, vídeo-clipes ou qualquer outra coisa que quiser e que lhe ajude a comunicar sua história. No começo de uma igreja nas casas não é muito sábio contar detalhes desnecessários extremamente pessoais do seu passado. Use o seu discernimento. Façam isso toda semana até que todos tenham contado sua história.
Exercício 3 – compartilhe uma canção. A cada semana, algumas pessoas podem compartilhar uma canção que tem valor especial para elas. A canção pode ser de um artista cristão ou não. Eles vão compartilhar como viram o Senhor por meio da canção. Eles podem tocar a canção ou cantá-la (ou ambos) para o grupo. Eles terão o tempo que for necessário para falar como a letra ou a música tem valor especial para eles. Sendo mais claro, como a música ministrou a Cristo para eles? O compartilhar vai abrir interação e participação para o grupo. Cada um do grupo é então encorajado a comentar sobre a canção escolhida por cada pessoa e dizer o como foram ministrados por ela.
Exercício 4 – compartilhe uma passagem das Escrituras. A cada semana, algumas pessoas podem compartilhar suas passagens preferidas da Bíblia. Eles irão explicar o que entenderam da passagem. Eles irão então encorajar o grupo dizendo o motivo pelo qual aquela passagem tem especial significado para o grupo. O compartilhar será aberto para a participação e interação do grupo. Neste ponto, devemos nos afastar de debates teológicos complexos. O compartilhar deve ser pessoal e ‘do coração’.

Comam Juntos

Este é um pilar sobre o qual a vida do Corpo é construída. Comam uma refeição antes ou depois do tempo de compartilhar. Se comerem antes, algumas pessoas terão dificuldades de manter seus olhos abertos durante o compartilhar. Por outro lado, comer antes do compartilhar permite a socialização logo no início da reunião. A família hospedeira pode preparar a refeição, ou cada um pode trazer algo. Se houver pessoas bastante pobres no grupo que não possam cooperar trazendo comida, peça-lhes que ajude a preparar a refeição para o grupo. Encoraje-os a contribuir de alguma forma ao invés de chegarem sempre de mãos vazias. Comer é uma atividade familiar. Isto ajuda a construir solidariedade entre os membros da família. As pessoas se sentem mais livres e menos inibidas a compartilhar suas vidas e pensamentos durante as refeições. Existe um elemento misterioso que une as pessoas de um modo incomum. Por esta razão, os cristãos primitivos comiam juntos freqüentemente. Eles se viam como a casa ou a família de Deus.

Brinquem juntos

Fazer das brincadeiras uma parte da vida da igreja é um ingrediente importante para o sucesso. Uma coisa importante que podemos aprender é como não ser religiosos ou sérios demais. Estamos aprendendo a ser autênticos uns com os outros e como cultivar um sentimento de segurança uns com os outros. Estamos também aprendendo a mudar anos de uma mentalidade tradicional. Geralmente quando cristãos se reúnem como igreja é extremamente difícil para eles ser outra coisa a não ser sérios e formais. Nós nos escondemos atrás de uma máscara. Nosso vocabulário, nossa maneira de falar e nossas orações todos mudam quando nos reunimos como igreja. A igreja primitiva nasceu numa atmosfera de informalidade. O Corpo de Cristo respira o ar da informalidade. Ele evita o ritualismo, legalismo, profissionalismo e religiosidade. Aprendendo a conhecer um ao outro numa atmosfera informal e não religiosa, estamos provendo um ventre para que uma vida autêntica possa nascer. Religiosidade não é espiritualidade. A primeira traz morte para um grupo de cristãos. Então aprendam a, apropriadamente, se divertirem, contar piadas, estórias, e brincar com as crianças do grupo.

Orem Juntos

No começo de uma igreja nas casas, é recomendável que a oração venha devagar e naturalmente. Muitas pessoas aprenderam pobres hábitos de oração. Conseqüentemente, é vital que descubramos os fundamentos da oração[7]. Não queremos trazer para a experiência da nova igreja nas casas os velhos modelos tradicionais de oração que são contraprodutivos, sem vida, e artificiais. Vamos descobrir a oração nova e fresca.

Manuseiem as Escrituras Juntos

Outro aspecto da vida de um Corpo saudável é aprender como descobrir e aplicar a mensagem da Bíblia de um modo vivo. A mensagem da Bíblia é Jesus Cristo[8]. Os Crentes podem descobrir como conhecer a Cristo por meio do manuseio coletivo das Escrituras. Infelizmente muitos cristãos têm aprendido a ler a Bíblia de um único modo, de uma perspectiva racionalista. Isto tem causado muita divisão e contenda no Corpo de Cristo. Usar as Escrituras pode produzir tanto morte quanto vida. Isto pode revelar Jesus Cristo ou pode dar informação de morte. O uso das Escrituras deveria ser principalmente devocional. Aprenda a usar isto como um veículo para descobrir o Senhor. Em muitas das igrejas nas casas de hoje, isto acontecerá naturalmente, na medida em que alguém compartilha espontaneamente com o grupo o que tem aprendido nas Escrituras sobre o Senhor. Ocasionalmente pode ser que alguém no grupo tenha o dom do ensino (ou dom de mestre) e irá providenciar alguns insights da Bíblia de modo direto, de tempos em tempos. Em todo caso, a reunião de uma igreja nas casas deve ser bastante flexível para que muita discussão responsiva e interativa possa ocorrer entre os presentes. Mantenha o foco em Jesus Cristo e procure descobri-lo nas Escrituras. Este é o segredo para encontrar vida e crescente união no uso da Bíblia.

Liberem os Dons Espirituais

Alguns lembretes finais podem ser ditos aqui sobre dons espirituais (Gr. Charismata). A igreja primitiva reconhecia que cada crente possui uma habilidade ou capacidade que eles tinham o privilégio e a responsabilidade de trazer para as reuniões da igreja[9]. Somando aos que já foram discutidos anteriormente, eles incluíam algumas coisas mais dramáticas como revelações sobrenaturais, profecias, palavras de sabedoria, palavras de conhecimento, milagres, discernimento de espíritos etc.

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[1] Viola, Frank. Reconsiderando O Odre: A Prática da Igreja do Novo Testamento. Present Testimony Ministry, 2001.
[2] Viola, Frank; Barna, George. Cristianismo Pagão: As Origens das Nossas Modernas Práticas de Igreja. Present Testimony Ministry, 2003.
[3] Viola, Frank. Gathering in Homes: Volume 1, Begining (Reunindo-se nos Lares: Volume 1, Iniciando). Present Testimony Ministry, 2006.expressão é
[4] Nota do tradutor. Em Inglês a expressão é ‘church service’.
[5] Também chamadas de ‘assembléias’ ou ‘estar juntos’ (Atos 4.31; 1 Cor. 14.23; Heb. 10.25)
[6] Viola, Frank. Então Você Quer Começar uma Igreja Nas Casas?: Plantação de Igrejas ao Estilo do Primeiro Século nos Dias de Hoje. Present Testimony Ministry, 2003.
[7] Linker, Rosalind. Learning Conversational Prayer. Liturgical Press, 1992.
[8] Lucas 24.22; João 5.39. A mensagem inteira de Paulo era Cristo. Ele consistentemente usava as Escrituras para revelar o Senhor.
[9] 1 Cor. 12.1-12; 14.26.

Tradução de Marcio Soares da Rocha

Frank Viola é um palestrante internacionalmente conhecido, um plantador de igrejas nas casas e autor de seis livros altamente aclamados sobre restauração radical da igreja, incluindo ‘Reconsiderando o Odre’, ‘Quem é tua Cobertura?’, ‘Cristianismo Pagão’ e ‘A História Não Contada da Igreja do Novo Testamento’. Frank mora em Gainesville, Florida (USA). Você pode visitar o seu site – wwwptmin.org.

A Organização Estrutural da Igreja

Este é um tema bem interessante de tratar. Tenho visto grandes teólogos afirmarem que, no primeiro século, as igrejas eram diferentes em cada cidade onde se instalavam. Isto é verdade, de certo modo, pois, cada cidade possuía sua própria cultura, seu próprio conjunto de costumes que a diferiam das outras, como uma impressão digital própria. Ainda hoje isso ocorre. Assim, cada igreja descrita no Novo Testamento assimilava aspectos sociais e culturais de sua própria cidade e passava a ter certas características peculiares.

Todavia, muitos afirmam que as igrejas nas diversas cidades, no primeiro século eram diferentes em suas organizações estruturais. Isto não é verdade, e essa conclusão parte de uma interpretação falha do texto bíblico, preconceituosa, posterior ao Novo Testamento, contaminada pela realidade institucional pós-Constantino que ainda predomina na maioria das igrejas.


Vou demonstrar aqui que todas as igrejas do Novo Testamento eram semelhantes quanto à organização estrutural, quando analisadas no devido contexto histórico. Não havia, como muitos pensam, variados tipos de estruturas organizacionais nas diversas igrejas do Novo Testamento. Apesar de suas diferenças culturais locais, elas tinham o mesmo “DNA” espiritual e a mesma organização estrutural. Só em Jerusalém, ela foi diferente por algum tempo, e isto porque lá, e apenas lá, havia um templo.


Macro-organização: As pequenas igrejas nas casas e a grande igreja da cidade

Em todas as cidades onde os seguidores de Cristo estabeleciam moradia no primeiro século, havia as pequenas igrejas nas casas de alguns irmãos (Gr. hh kat’ oikon eklesia); e o conjunto total das igrejas nas casas de uma cidade era a igreja cristã da cidade. Não há variação deste padrão no Novo Testamento. Quanto às igrejas se reunirem nas casas (oikos), basta olhar as seguintes referências: Atos 1:13; 2:2; 2:42; 2:46; 5:42; 7:48-50; 8:3; 12:12; 16:40; 20:20; 28:30; Romanos 16:3-5; 1 Coríntios 1:11; 14:26; 16:19; Colossenses 4:15; Filemom 1:1-2). Essas são referências diretas. Há outras indiretas, como 1 Cor. 1.16; 16.15 etc.

Quando Paulo escrevia a uma igreja (por exemplo aos Coríntios), ele estava escrevendo aos cristãos da cidade, portanto, a todos os santos que moravam em Corinto, e que compunham a igreja da cidade. Assim era com todas as cidades onde havia cristãos, sem exceção. Igrejas nas casas e a igreja da cidade. Esse era o padrão macro-organizacional no primeiro século.


Não havia divisões (denominações) cristãs em nenhuma cidade. Aliás, qualquer iniciativa neste sentido era tida como pecaminosa e era rigorosamente combatida pelos apóstolos. Divisões são originadas pelo pecado da vaidade: “Eu sou de Paulo, eu de Apolo…(1 Cor. 1.12). Cada cidade deveria ter apenas uma igreja: a igreja cristã da cidade, composta pelas pequenas igrejas nos lares daquela cidade.

Marcio da Rocha

Características Marcantes da Igreja Primitiva


A igreja primitiva possuía quatro características marcantes, que dificilmente são encontradas nas igrejas modernas, a não ser em algumas igrejas nos lares. A igreja do Senhor Jesus Cristo, como organismo espiritual, tinha as seguintes características principais:
  • Sempre manifestava em seu estilo de vida, a autoridade e a liderança de Jesus Cristo, opondo-se à liderança humana. Jesus Cristo é o centro e a autoridade única na igreja;
  • Ela sempre permitia e encorajava a participação de cada membro nas reuniões. Cada pessoa era um membro do Corpo, participava ativamente nas reuniões da igreja; cada crente era um sacerdote real. Cada crente edificava a igreja, contribuindo com seus dons naturais e espirituais (veja I Coríntios 14.26-27);
  • A igreja no primeiro século vivia, na prática, a teologia expressa no Novo Testamento;
  • Ela refletia o amor e relacionamento que existem na Trindade Divina.

A Hierarquia é uma coisa estranha na igreja. Uma aberração. Foi copiada dos romanos e introduzida na igreja definitivamente no quarto século, embora sua influência já se via nos escritos patrícios desde o segundo século. A igreja só possui uma cabeça – Cristo. Os outros (todos) são membros. Um membro não emite ordens a outro. Somente a cabeça (mente) o faz. O sistema nervoso transmite as ordens do cérebro diretamente da mente para todas as partes do corpo, a todos os membros. Cristo (o cabeça) também está ligado a cada cristão e lhes transmite suas ordens por meio de seu “sistema nervoso” – o Espírito Santo, que habita em cada crente.

Observando outra metáfora que o Novo Testamento usa para conceituar a igreja – uma família – podemos aprender por ela que os filhos são iguais entre si em importância. Nenhum filho manda no outro. Os irmãos mais velhos podem ser mais experientes e liderar os mais novos, mas não possuem autoridade para mandar neles. Tanto as igrejas católicas (romana e ortodoxa) quanto as igrejas protestantes nunca perceberam este erro grosseiro de aplicar na igreja a hierarquia militar/empresarial. Na igreja, só há Jesus Cristo e os membros de seu corpo; Jesus Cristo e seus filhos, todos no mesmo nível. Tanto o papado e o sistema hierárquico católico quanto os sistemas hierárquicos organizacionais das igrejas protestantes ferem a natureza da igreja cristã.

Um membro do corpo só cresce se funcionar. Este é um princípio comum a todos os organismos vivos. Cada membro precisa funcionar. Numa reunião de pequenos grupos, nos aconchegantes ambientes dos lares, isto é possível. Por outro lado, nos auditórios, nos templos, apenas poucos ministram a uma maioria que apenas… assiste. A maioria (“leigos”) lê o que a minoria (“clero”) manda ler. A maioria repete o que a minoria manda repetir. A maioria canta o que a minoria manda cantar. Ao invés do Sacerdócio Universal de Todos os Crentes (uma das doutrinas marcantes que a Reforma Religiosa redescobriu no Novo Testamento), as missas e os cultos protestantes praticam o “sacerdócio de alguns crentes”, um modelo típico do Velho Testamento, da Antiga Aliança, que passou. Acabou.

O Novo Testamento é o guia para a igreja em todos os tempos. A igreja de hoje não pode descartar as práticas e a vida da igreja neo-testamentária, como se fossem coisas do passado.

Na Trindade Divina há um relacionamento que se refletia na igreja primitiva e deve se refletir na igreja hoje e sempre. As três pessoas de Deus se amam e são iguais entre si em autoridade (não há hierarquia entre eles). Os irmãos também devem rejeitar a hierarquia entre si (abolir “cargos e/ou títulos eclesiásticos”), e amar uns aos outros, expressando isto em ações e palavras.

Se hoje, uma comunidade quer ser uma igreja (de verdade), precisa ter essas características.

Marcio da Rocha

A Natureza ou Essência da Igreja

Quanto à natureza, as igrejas de hoje ou são institucionais ou não-institucionais (que chamaremos aqui de orgânicas).

A igreja institucional, como o próprio nome denota, é uma instituição. Descrevendo-a sinteticamente, podemos dizer que ela é uma pessoa jurídica, registrada nos órgãos estatais, composta por seus fundadores, e por outros associados, e tendo seu início marcado por meio de uma ata de fundação. Porque ela é uma instituição, possui obrigatoriamente um local fixo de reunião, ao qual chamam templo (ou inadequadamente de “igreja”). Possui um estatuto ou documento semelhante, que rege a instituição como sua lei. É bastante semelhante, em sua natureza (mas não no seu propósito), a uma organização não governamental sem fins econômicos. As pessoas entram efetivamente para a igreja institucional quando manifestam sua livre vontade e participam de seus rituais de iniciação, geralmente uma declaração pública de aceitação dos estatutos (doutrinas) da instituição e o batismo nas águas. Como ela é institucional, ela organiza um rol de membros. Além disso, possui funcionários e prestam serviços religiosos. Tem cargos, que são preenchidos por uma elite espiritual (clero), que detém certos privilégios, e o restante dos associados são tidos como cristãos comuns.

Já a igreja orgânica é mais como uma família. Entende-se a si mesma como um organismo vivo, espiritual. Não é fundada por homens, mas, como todo organismo vivo, nasce (de Deus). Não é uma pessoa jurídica. Não é uma organização (embora não seja desorganizada). A igreja orgânica é composta simplesmente de crentes que amam a Deus e resolvem caminhar juntos, compartilhando a vida, edificando-se e servindo-se mutuamente. Elas se reúnem principalmente nos lares dos seus membros. Nas igrejas orgânicas, não há estatuto; as regras são as da própria Bíblia. Não há um ritual de iniciação para que pessoas façam parte dela. Porém, para ser parte dessa família, a pessoa tem que ter nascido de novo (espiritualmente) e ter sido adotada por Deus como filho. Batismos são realizados quando um novo (ou antigo) convertido deseja se batizar. Não há um rol de membros. Nem é necessário, pois todos que são irmãos vivem juntos e se conhecem. Também como ocorre nas famílias saudáveis, as pessoas ajudam-se umas às outras nas igrejas orgânicas e não permitem que nenhum de seus membros passe necessidade.

Neste aspecto, como era a igreja do Novo Testamento (A igreja primitiva)? Era institucional ou orgânica?

Ela era registrada em algum órgão estatal (oficial)? Possuía alguma licença legal para funcionamento?

Não.

Ela era muito mais como uma grande família, sem qualquer licença ou vínculo com o Estado. Na realidade, os apóstolos recomendavam que se respeitassem as autoridades mundanas e as suas leis (Rom. 13.1; Tito 3.1), naquilo que não entrassem em choque coma Palavra de Deus, mas, a igreja primitiva era um movimento não institucionalizado.

Alguém poderia aqui argumentar que naquela época não havia este tipo de registro cartorial, portanto, é inadequado comparar a igreja primitiva com a de hoje, neste aspecto.

Certamente não existiam cartórios para registro de associações ou organizações no primeiro século. Porém, será que não existiam corporações organizadas ou reconhecidas pelo império, com suas próprias regras e estatutos? Existiam sim. Essa é a opinião abalizada dos historiadores e dos eruditos do Novo Testamento. William L. Coleman, em seu livro “Manual dos Tempos e Costumes Bíblicos” (p. 140), nos diz: “Nos dias de Jesus, a sociedade já era constituída de grupos rurais e urbanos.” E ainda:

“Uma sociedade urbana exigia muitos tipos de serviços, e indivíduos com todo tipo de habilidade profissional. Numa sociedade complexa, as necessidades básicas de um trabalhador eram muitas, e isso os levou a organizar corporações. Já no tempo em que Cristo viveu na terra, havia em vários lugares corporações de trabalhadores bem organizadas e bem conceituadas.”

Wayne A. Meeks, da Universidade Yale, também afirma que havia diversos tipos de corporações no primeiro século. Em seu livro “The First Urban Christians” (Os primeiros Cristãos Urbanos), ele descreve um quadro social do primeiro e do segundo séculos onde existiam diversas organizações institucionalizadas, associações formalizadas, não somente profissionais, mas também sociais.

“Bem no início, o Império Romano testemunhou um crescimento luxurioso de clubes, entidades e associações de toda sorte.” (MEEKS, Wayne. The First Urban Christians – Os primeiros Cristãos Urbanos. Londres: Yale Uinversity Press, 1983. P. 77) .

Meeks afirma que nos tempos paulinos havia associações diversas, além das sinagogas judaicas e das escolas retóricas/filosóficas. Interessava ao império controlar todos os movimentos, portanto ele apoiava a formalização dessas organizações. Movimentos não institucionalizados eram muito mal vistos pelo Império Romano. Aliás, os estados modernos herdaram essa mesma atitude.

Essas citações nos mostram que, embora não existissem cartórios, existiam organizações formalizadas nos tempos da igreja primitiva. O escopo deste artigo não nos permite acrescentar outras citações, contudo, uma coisa fica certa: havia instituições no primeiro século. A igreja primitiva, portanto, era orgânica, não por falta de modelos institucionais em sua época. Ao contrário, ela era orgânica por opção, ou melhor, por natureza.

A igreja não começou com uma ata de fundação ou documento semelhante, elaborado por homens. Nasceu com um derramar do Espírito Santo nos fiéis, que estavam em oração, em uma casa (Atos 2.2). Não possuía funcionários. Sustentava os apóstolos (que eram plantadores de igrejas, missionários itinerantes), mas não empregava nenhum funcionário local. Era uma família de irmãos e irmãs, cujo pai era o Senhor Jesus.

“Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. Todos os dias, continuavam a se reunir no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos.” (Atos 2.42-47. NVI)

Não é esta acima a descrição de uma típica família?

Assim, a igreja do Novo Testamento, a igreja bíblica, era orgânica. O modelo bíblico era não-institucional. A igreja institucional não é um modelo bíblico. Ela pode ser uma boa organização, possuir uma boa estrutura, muitas outras qualidades, mas, quanto à sua natureza, este modelo não se encontra na Bíblia. Não é bíblico.

A história nos mostra que a igreja cristã começou a se tornar institucional a partir do Imperador Constantino (313 d.C.), o qual não oficializou o Cristianismo como religião de Roma (quem o fez foi Teodósio, o imperador seguinte, em cerca de 360 d.C.), mas, Constantino cessou a perseguição aos cristãos e os apoiou financeiramente, inclusive construindo os seus primeiros templos de tijolos. Aí começou a grande decadência da igreja. Os interesses de Constantino e Teodósio na igreja cristã não eram nada “cristãos”. Eram políticos, imperiais, movidos pela sede de poder e controle. Constantino só foi batizado em seu leito de morte, pois levava uma vida de luxuria e imoralidade. Os imperadores passaram a controlar os cargos de liderança das igrejas, o que levou na idade média a igreja a até conceder esses cargos mediante pagamento em dinheiro ou em troca de outras riquezas.

O modelo encontrado no Novo Testamento, o modelo bíblico, no tocante à natureza da igreja, é o modelo orgânico das igrejas nos lares.

Marcio da Rocha

Uma Comunidade que Inspira

“Eles perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” (Atos 2:42)

A vida dos primeiros cristãos é o que nos inspira a viver e ser igreja. O livro de Atos dos apóstolos nos diz que aqueles irmãos eram cheios de alegria e sinceridade de coração (v 2:46). Eles se reuniam diariamente no pátio do Templo de Jerusalém e também nas suas casas, onde tomavam a Ceia do Senhor e compartilhavam as refeições.

Nesses versos 42, 46 e 47 do capítulo 2 vemos uma relação das atividades comunitárias da Igreja de Jerusalém, que era também um padrão das igrejas do primeiro século em outros lugares onde a “seita do caminho” chegou, conforme se percebe nas cartas de Paulo e em alguns documentos não canônicos, escritos por cristãos do primeiro e do segundo séculos. O que eles faziam quando se reuniam?

Primeiramente o texto nos diz que eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos. Nossos primeiros irmãos sabiam que a adequada compreensão e a transmissão do Evangelho era vital para a igreja. Sem doutrina, a comunidade dos irmãos deixaria de ser a Igreja do Senhor.


A vida compartilhada, a união fraternal era outra forte marca da igreja primitiva. Eram uma família. Uma família de fé. O contexto cultural e social em que viviam, o fervor da fé, a proximidade histórica da vida humana do Senhor Jesus, bem como a presença dos apóstolos entre eles, faziam com que não conseguissem passar um só dia sem estarem juntos, quer nas casas uns dos outros, quer no templo. Era uma vida de celebração.


Além disso, eles também “partiam o pão”; tomavam a ceia do Senhor nas casas. Cumpriam a ordem do Senhor “Fazei isto em memória de mim” (Lc. 22:19). Mais ainda, eles se dedicavam insistentemente à oração. Eram um povo que orava sem cessar.


E o louvor? A igreja primitiva não louvava? Louvava e tinha a simpatia de todo o povo (v. 47). Embora Atos 2 não mencione música, é bem possível que aqueles irmãos cantassem hinos e cânticos espirituais em suas reuniões, além de ler e recitar salmos. Paulo e Silas cantavam quando as portas da prisão foram abertas (Atos 16). O apóstolo recomendou que nos enchêssemos do Espírito Santo, justamente cantando hinos e cânticos espirituais e falando salmos (Ef. 5:18-19). Fora isso, aquela comunidade também batizava os novos convertidos, “na água e no Espírito”.

Assim era a primeira igreja. Era o que faziam juntos. Aprendiam e ensinavam o Evangelho do Senhor. Viviam unidos. Comiam refeições e tomavam a ceia do Senhor juntos, nas suas casas. Oravam juntos. Juntos também louvavam ao Senhor. E tudo isso acontecia numa comunidade de pessoas alegres e sinceras, sem segundas intenções nem subterfúgios.

Nós, os que cremos em Jesus Cristo, que o recebemos como Senhor e Salvador, somos convidados a continuar hoje este projeto do Senhor – a ser a comunidade dos irmãos e Igreja do Senhor. Precisamos encontrar nos dias atarefados de hoje uma forma de nos dedicar diligentemente ao estudo do Evangelho; de estarmos juntos nas casas e compartilhar nossas vidas e alimentos uns com os outros; de tomar a Ceia do Senhor. Precisamos louvar juntos e batizar os que chegam. Quem sabe assim, cairemos de novo na simpatia do povo e veremos o Senhor acrescentar a cada dia os que serão salvos.

Marcio da Rocha