Monthly Archives: julho 2009

A Idolatria do Sermão

O que aconteceria com a sua igreja se ela decidisse mudar a sua liturgia dominical, retirando dela o sermão do pastor (ou do padre)? Quando pergunto isto às pessoas que frequentam igrejas institucionais, elas respondem: – provavelmente ela se acabaria depois de algum tempo; muitas pessoas deixariam de frequentá-la.

Esta resposta expõe uma anomalia séria da maioria das igrejas modernas. Uma dependência quase completa do sermão para a vida de uma comunidade cristã. Certa vez um pastor de uma igreja em Fortaleza decidiu, juntamente com o seu companheiro de ministério, não realizar sermão no domingo seguinte. Decidiram durante a semana que no culto do domingo seguinte haveria diversos momentos, mas não seria pregado um sermão. Eu estava presente naquele domingo. Houve cânticos, orações, leitura da Bíblia, alguns testemunhos, mas ninguém subiu ao púlpito para pregar um sermão. Deus nos falou por meio das canções, das orações, da leitura da Bíblia, dos testemunhos, mas… quando o culto terminou, várias pessoas foram reclamar ao pastor, dizendo que não houve culto naquele domingo. Aquilo não era culto – disseram alguns – porque não houve a “pregação da Palavra”. Fiquei chocado. Não houve culto? Então o culto é o sermão?

Recentemente foi publicada no boletim eletrônicoChurch Leaders Intelligent Report“, editado pela Christianity Today, uma pesquisa sobre os frequentadores de mega-igrejas. Uma das coisas que mais me chamou a atenção nesta pesquisa foi que a maioria das pessoas que responderam alegou que o pastor (sermão), foi o que os atraiu para a igreja e o que os fez ficar frequentando.

Se não houver sermão, não há igreja? Se não houver sermão, não há Cristianismo? Este pensamento é completamente doentio. A igreja (Gr. eklesia) é o grupo das pessoas que nasceram de novo, pela fé, o corpo de Cristo. Pessoas, não eventos. Pessoas, não prédios. Pessoas, não programações. A igreja existe em função de Cristo, por meio do Espírito Santo; em função das comunidades de pessoas que creem em Cristo, não em função de pastores que pregam sermões!

Quero lembrar que um sermão nada mais é do que uma forma de palestra. E que a oratória é uma arte, e não pode ser confundida com espiritualidade. A oratória não é um dom espiritual. É um talento humano. Como toda arte humana, ela pode ser nata, ou desenvolvida. Um bom orador pode ter nascido com este talento, ou tê-lo desenvolvido com estudo e prática, sem ser “nascido de novo”. Muitos incrédulos nasceram com o talento da oratória, e outros a adquiriram com estudo e prática. E esses exercem e desenvolvem esses talentos, aplicando-os para ganhar dinheiro, quer seja na política, ou sendo palestrantes motivacionais. Por acaso esses incrédulos têm o dom da Palavra? É claro que não. Uma pessoa não é espiritual só porque fala bem. Estudei oratória em livros e percebi que há técnicas que são aplicadas pelos palestrantes para manipular a mente dos ouvintes. Isso é maquiavélico! Foram os gregos que desenvolveram esta arte. Estudei também homilética (a arte da pregação em igrejas) e também vi que esta arte ensina técnicas semelhantes às da oratória secular. Ensina como fazer uma boa introdução de um sermão; como prender a atenção do ouvinte; como mexer com as emoções do público etc. É a mesma técnica humana da oratória; muda a penas a mensagem. Em outras palavras, o sermão nada mais é do que a aplicação da oratória grega para o ensino da Bíblia. Deu para perceber? É o uso de uma técnica humana, uso da cultura mundana dentro da igreja. Pode parecer duro dizer isto, mas o pastor moderno também utiliza a oratória para ganhar dinheiro. Muitos condenam o uso de certos estilos de música na igreja, porque consideram mundanos, porém usam e aprovam incoerentemente o sermão, como se isto fosse uma “coisa espiritual”.

Por outro lado, os irmãos das igrejas orgânicas estão reaprendendo a viver apenas na dependência do Espírito Santo. As reuniões são marcadas pela espontaneidade; pelas canções, pelos testemunhos, pelas orações, pela leitura e meditação na Palavra em forma de estudos bíblicos participativos, e pelas refeições comunitárias. É igreja sem sermão. Sem sensasionalismo. Sem dominação de ministros profissionais. Sem ministros ordenados – sem clero. Sem a idolatria do sermão. As igrejas orgânicas não se acabam, mesmo sem sermões. Ao contrário, elas vivem e crescem sem sermão.