Monthly Archives: janeiro 2010

A Igreja Como Família (Frank E. Viola)

(Esta é uma transcrição de um trecho do capítulo 5 do livro “Reimaginando a Igreja” de Frank A. Viola. Artigo traduzido por Marcio Rocha)

Eu pertencia a uma das maiores igrejas pentecostais do estado da Flórida. Ela era incrivelmente saudável. Eu era muito amigo de uma família que participava lá. Eles eram muito pobres.

A cena a seguir está gravada em minha mente para sempre. Eu estava sentado na sala de estar da casa desses meus amigos, no escuro, com a esposa dele e seus quatro filhos. Nós ligamos uma lanterna e acendemos algumas velas. Por que eles estavam sentados no escuro? Porque eles não puderam pagar a conta de luz daquele mês, e a energia foi cortada.

A igreja “saudável” à qual nós pertencíamos não deu a esse homem nem à sua família nem um centavo. Na época, achei isto ultrajante. O engraçado é que ainda acho. Aquele incidente foi a gota d’água para mim. Pouco tempo depois eu deixei o Cristianismo institucional para nunca mais voltar. E eu comecei minha jornada rumo à vida na igreja orgânica.

Quando eu relembro as igrejas orgânicas com as quais eu tenho me reunido nas últimas duas décadas, muitas cenas enchem a minha mente. Eu me lembro do quão fielmente os membros daquelas igrejas incorporaram a família de Deus. Eu posso me lembrar de uma época em que uma dessas famílias sustentou financeiramente um casal e seus filhos por vários meses porque o marido sofreu um calote, não tinha seguro, e não pôde trabalhar por um tempo.

Outra cena vem à minha mente. Uma irmã ficou doente e não podia dirigir. Os irmãos solteiros da igreja fizeram um rodízio, dirigindo para ela, levando-a as consultas e exames médicos e a outros lugares para suprir suas necessidades. As irmãs fizeram comida para ela. Isto ocorreu por muitas semanas.

Eu posso me lembrar de outra ocasião, quando uma igreja chorou e lamentou com um irmão que passou por uma tragédia familiar. Todos os crentes ficaram ao lado dele por várias semanas, cuidando de suas necessidades.

Estou lembrado de outra ocasião em uma igreja nos lares, quando uma irmã entrou em depressão, e os outros irmãos cuidaram da casa dela, limpando o chão, entretendo as crianças, colocando as roupas na máquina e passando ferro, cozinhando etc. até ela levantar da depressão. Eu posso pensar em outra, quando uma igreja orgânica se recusou a desistir de um irmão que caiu em pecado, e o amou até trazê-lo de volta ao Senhor. Eu tenho vivas memórias de como os membros dessas igrejas orgânicas se viam muitas vezes no meio da semana – comendo juntos, divertindo-se juntos, rindo juntos, brincando juntos, trabalhando juntos, ajudando-se nas tarefas uns dos outros, e compartilhando suas vidas uns com os outros.

Ainda outras cenas enchem minha mente. Irmãos solteiros cuidando voluntariamente de crianças de jovens casais da igreja, para que os pais pudessem relaxar e sair para jantar romanticamente. As crianças da igreja brincando juntas na praia, em pic-nics, e nos quintais das casas dos irmãos. Refeições compartilhadas onde as crianças sentavam-se juntinho aos seus pais, ouvindo-os falarem entusiasticamente uns aos outros sobre o Senhor – e então, ao retornarem aos seus lares, perguntavam às suas mamães e papais sobre o que ouviram.

O DNA da Igreja e a CMA (de Neil Cole)

Na Church Multiplication Associates – CMA (Associação de Multiplicação de Igrejas), nós temos definido o DNA de nossas igrejas orgânicas da seguinte forma:

1. Divina verdade: A Verdade vem de Deus. É a revelação de Deus para a humanidade. Ela é melhor vista na pessoa de Jesus e nas Escrituras. Em ambos os casos, há uma conexão misteriosa do Divino e do humano. Jesus é Deus e Homem ao mesmo tempo. Deus criou as Escrituras, mas ao mesmo tempo, houve mais de 40 autores humanos também a escrevendo. No entanto, Jesus e as Escrituras são ambos sem mancha. O Espírito de Deus habitando nos crentes é também uma verdade divina. Ele religa a revelação de Deus e a pecaminosidade da humanidade.

2. Nutrição de Relacionamentos: Humanos nunca foram criados para ser sozinhos. Somos criaturas sociais e temos uma necessidade natural e intrínseca de relacionamentos profundos. Nossa orientação relacional é um reflexo da imagem de Deus em nós. Deus em si é relacional e existe uma Comunidade Pai, Filho e Espírito Santo. Deus é Amor, porque Deus é relacional.

3. Apostolado (Missão Apostólica): Apóstolo significa ser enviado como um representante, com uma mensagem. Estamos aqui para uma finalidade. Recebemos uma ordem privilegiada para obedecer — fazer discípulos de todas as Nações. Esta parte de nós também vem de quem é o nosso Deus. Jesus é um apóstolo. Ele é a base principal da Fundação Apostólica. Antes de ele sair deste planeta, ele falou com seus discípulos e disse, “Como o pai me enviou, então eu envio vocês.” (João 20:21).

O DNA no núcleo de cada discípulo, a Igreja, a rede e o movimento global é a “cola” importante que nos vincula todos juntos e nos conecta a Jesus, o chefe, diretamente (D) um ao outro como membros da família (N) e para o mundo, no qual estamos todos na missão (A).

No CMA a equipe inicial dos dirigentes (começando com um movimento global em mente) tomou decisões conscientes durante todo o nosso caminho de não centralizar ou criar uma cola artificial para nos manter juntos como uma organização. Decidimos que se a verdade Divina de Jesus e sua Palavra (D), as relações nutritivas de estar na sua família (N), e a missão Apostólica que ele deu a cada um de nós (A) não são suficientes para nos unir, então não estaremos juntos.

Escolhemos propositadamente não recorrer àquilo que consideramos ser formas inferiores de “cola organizacional”, tais como um nome, uma marca, estatutos organizacionais ou pactos, ou algumas metodologias dogmatizadas. Determinamos que Cristo como Chefe, e a consequência resultante de sermos uma família, juntos na sua missão, era suficiente, e substituir por algo menor, finalmente iria matar o movimento.

Com esta decisão, perdemos todo o senso de controle, acompanhamento e centralização da estrutura de suporte. Muitas vezes explicamos às pessoas que não podemos contar todas as igrejas no CMA, o que é verdade. Mas de fato, preferimos que seja desta forma. Com este movimento seremos capazes de ver se Jesus realmente é suficiente, e isto é o que importa para nós. Estamos ainda no meio desta grande experiência, e até agora não estamos desapontados em Jesus.

Há uma real — embora mística — “cola” que conecta nós todos no corpo de Cristo. “Há um só corpo e um só espírito, assim como também vocês foram chamados na esperança de uma só chamada; um Senhor, uma fé, um batismo, um Deus e pai de todos; aquele que é sobre todos, através de todos, e em todos.” (Ef. 4:4-6) Todos estamos conectados. Parte do nosso problema em nossas igrejas é que acreditamos menos na realidade mística, do que nas nossas próprias organizações, as quais podemos ver, tocar e manipular.

Nós do CMA optamos por deixar a presença de Deus entre nós ser a única “cola” que nos une como um movimento. Embora nós a passamos em sistemas reprodutíveis simples que tendem a catalisar a formação de discípulos, dirigentes, igrejas e movimentos, o coração de cada sistema é este mesmo DNA, e exige nada menos de cada discípulo, igreja ou rede. Nenhum dos nossos sistemas são obrigatórios; eles são apresentados como uma maneira de fazer a obra, uma forma muito simples e produtiva, mas uma opção. Compreendemos que métodos obrigatórios não são compatíveis com um movimento enraizado em Cristo, descentralizado, que se reproduz continuamente. Aqueles que estão nos campos, simplesmente devem manter um nível de autonomia que lhes permita ouvir a Deus e decidir o que fazer em seu próprio contexto específico.

O Que É Uma Igreja Orgânica?

O primeiro escritor cristão a usar o termo “expressão da vida orgânica” foi T. Austin Sparks, porém o autor da expressão Igreja Orgânica é Frank F. Viola. Sua definição de uma igreja orgânica é a seguinte:

“Por ‘igreja orgânica’ eu quero dizer uma igreja não tradicional que nasceu da vida espiritual, ao invés de ter sido construída por instituições humanas e de ser sustentada por programas religiosos. A Vida Orgânica da Igreja é uma experiência do tipo “raiz de grama”, marcada pela comunidade face-a-face, pelo funcionamento de cada membro, pelas reuniões participativas (opostas aos cultos do tipo pastor-audiência), pela liderança não hierárquica, e pela liderança e centralidade de Jesus Cristo como o líder funcional e Cabeça de cada reunião”.

O termo Igreja Orgânica refere-se a um tipo de vida da igreja que se ajusta ao ensino do Novo Testamento de que a igreja não é uma organização institucional, mas, sim, um organismo espiritual. Tenho ouvido atualmente, pregadores de igrejas institucionais dizerem que a igreja é ambos, ou seja, é, ao mesmo tempo, um organismo e uma organização. Mas isto não é percebido em nenhum lugar no Novo Testamento. A igreja primitiva não era de forma alguma uma organização institucional, embora fosse organizada.

A palavra “orgânica”, na expressão “igreja orgânica” é emprestada da Biologia. Uma fruta ou grão pode ser orgânico ou manipulado –transgênico. A fruta ou grão transgênico não é natural, mas teve seu DNA manipulado em laboratório. Manipulado e alterado pelo homem. Por outro lado, a fruta ou grão será orgânico se tiver sido produzido por uma planta que foi gerada por sementes não manipuladas; sementes que simplesmente foram plantadas no solo e produziram naturalmente seus frutos. Frutos criados diretamente por Deus.

Da mesma forma, as igrejas institucionais surgiram a partir da alteração do DNA da igreja; foram construídas a partir da sabedoria humana, e funcionam com base nas técnicas e métodos da Administração de Empresas. Elas surgiram na história quando Constantino, em 313 d.C., simulou uma conversão e resolveu apoiar o Cristianismo, inclusive instituindo sacerdotes e fornecendo recursos para construção de edifícios-templos. Poucos anos depois o Cristianismo foi declarado como religião oficial do Império Romano e iniciou sua distorção rumo ao modelo adotado hoje pela maioria das igrejas (católicas e evangélicas) — a religião institucionalizada. Os cultos das igrejas institucionais não ocorrem de acordo com o padrão do Novo Testamento. São espetáculos religiosos, com toda uma pré-produção elaborada, e realizada nos cultos e missas por uma equipe que se acha mais espiritual do que os outros irmãos – consideram-se o canal de Deus — o clero (padres, pastores, ministros, obreiros, sacerdotes, diretores de departamentos, superintendentes, professores, etc.).

Sempre que cristãos se reúnem em assembléia na base dos princípios organizacionais que regem as empresas humanas, têm-se igrejas institucionais, não orgânicas — não naturais.

Uma igreja orgânica não é um teatro com um script. Seus membros vivem o Cristianismo como estilo de vida, e suas reuniões dominicais refletem isto. São grupos de mais ou menos vinte pessoas. Nelas não há programas nem liturgias. O que predomina nela é a participação livre de todos os irmãos. Não há mediador, a não ser Cristo (1 Tim. 2.5). Não há clero. Não há dirigentes humanos, nem sequer “facilitadores”. Todos são irmãos, e nada mais. Os presbíteros são apenas irmãos mais velhos e sábios, que zelam pela sã doutrina, sem qualquer exclusividade nem dominação. Nas igrejas orgânicas, o sacerdócio é verdadeiramente universal. Os louvores brotam de corações amantes e gratos ao Senhor. As canções são escolhidas por todos, e os musicistas são apenas servos, que acompanham a igreja, não são “ministros de louvor” — não determinam o que a igreja deve ou não cantar. As meditações são compartilhadas por qualquer membro, a partir de suas próprias experiências com Deus e de sua leitura devocional da Bíblia. Os dons espirituais são livremente praticados, sem nenhuma repressão. A Ceia do Senhor ocorre em todas as reuniões dominicais e é um jantar, onde o pão e o vinho são uma parte dele. Todas as famílias trazem seus alimentos para compartilhar. O jantar é, portanto, comunitário.

Os cristãos das igrejas orgânicas vivem uma jornada espontânea com o Senhor Jesus e com os demais discípulos. O que sobressai nas igrejas orgânicas são os relacionamentos profundos. Amizades profundas. Ajuda mútua, serviço ao necessitado, e… fraternidade. Reflexo da Trindade Divina, que vive em amor. O seu paradigma é fortemente baseado no Novo Testamento e não no Antigo Testamento. É vinho novo em odre novo.

É necessário ressaltar que, embora os principais locais de reuniões das igrejas orgânicas sejam os lares dos irmãos, nem toda igreja que se reúne nas casas (igreja nas casas ou nos lares) é uma igreja orgânica. Existem igrejas nos lares que são essencialmente institucionais. Vivem e agem do mesmo modo que as igrejas institucionais, porém reúnem-se em casas, ao invés de edifícios-templos. Possuem ministros ordenados (clero), ministros leigos, programas, liturgias, dízimos etc. Muitos menos, os grupos pequenos das igrejas institucionais são igrejas orgânicas, embora seja o que mais se parece com uma igreja orgânica nas igrejas institucionais.

As igrejas orgânicas estão sendo levantadas e sustentadas em todo o mundo nesta geração, pelo próprio Deus, por meio do Espírito Santo. O evangelismo ocorre na vida, e não em campanhas ou cruzadas evangelísticas especiais. Cada irmão fala de Jesus Cristo espontaneamente aos seus parentes, amigos e colegas de trabalho ou estudo. É a igreja nascendo de novo. Cristianismo puro e natural.