Monthly Archives: agosto 2010

Nem Todas As Igrejas Nos Lares São Igrejas Orgânicas

Marcio S. da Rocha

Hoje em dia, a expressão “igreja orgânica” virou quase uma “moda eclesial”, e quase um sinônimo de igrejas nos lares. No entanto, existem muitas igrejas funcionando em lares, mas nem todas são, de fato, igrejas orgânicas. Não é pelo simples fato de alguns irmãos se reunirem em seus lares, que isto caracteriza uma igreja orgânica. Neste artigo abordaremos alguns tipos de igrejas e grupos que se reúnem nos lares, mas que não se constituem autênticas igrejas orgânicas, com o objetivo de ajudar àqueles irmãos que têm sido despertados pelo Espírito Santo a buscarem uma forma neotestamentária de igreja, para que não se envolvam com grupos eclesiásticos não-orgânicos que não serão tão abençoadores para suas vidas.

O primeiro tipo de igreja em um lar que não é orgânica, e é bem fácil de perceber, é compreendido pelas igrejas que imitam as igrejas institucionais, tanto na estrutura hierárquica, quanto na forma de culto. Essas igrejas não passam de mini-igrejas institucionais. Possuem pastores (clérigos), e conseqüentemente, os demais irmãos são “leigos”. As reuniões dessas igrejas seguem uma liturgia rígida e essencialmente igual às das igrejas institucionais. O louvor é dirigido por alguém que ocupa a função (ou cargo) de ministro de louvor e nelas são feitos sermões pelo pastor. Algumas até usam aqueles hinários pretos tradicionais. Muitas vezes, embora não se possa generalizar, tais igrejas são formadas por irmãos magoados e decepcionados com certas denominações ou igrejas, porém, que não se conscientizaram que as práticas eclesiais das igrejas institucionalizadas não encontram guarida no Novo Testamento; por isso, continuam imitando seus métodos. Estão nos lares mas não são igrejas orgânicas.

Existem igrejas nos lares (ou organizações que agrupam diversas igrejas nos lares) que são exclusivistas. Este tipo também não é orgânico, e constitui um dos tipos mais danosos de igreja. As igrejas nos lares que são exclusivistas pregam que todos os irmãos das demais igrejas não estão salvos – especialmente os irmãos das igrejas institucionais. Apenas os irmãos que se congregam com eles estão salvos. Uma igreja orgânica jamais pregaria isto. A igreja do Senhor é constituída de pessoas, e por isso, não importa a denominação ou a comunidade à qual uma pessoa freqüenta; se ela recebeu a Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador, ela é salva e é irmã em Cristo. As igrejas orgânicas não concordam com as práticas das igrejas modernas, mas são plenamente conscientes de que Deus também salva e abençoa pessoas por meio das igrejas institucionalizadas. Igreja não salva, não importa se é orgânica ou não. Essas igrejas exclusivistas geralmente se autodenominam como “a igreja”, evidenciando seu caráter exclusivista. Ao buscar uma igreja orgânica, o irmão ou a irmã deve fugir desse tipo de igreja exclusivista.

As igrejas em células e as igrejas de pequenos grupos também se reúnem nos lares, no entanto, não são igrejas orgânicas ou neotestamentárias. Para não ser repetitivo com relação às características desses tipos de igrejas e às suas diferenças significativas em comparação com as igrejas orgânicas, remeto ao meu artigo “Qual A Diferença Entre Os Pequenos Grupos E As Igrejas Nos lares?” postado neste blog (www.igrejaorganica.blogspot.com).

Há outro tipo de igrejas nos lares que também não são autenticamente orgânicas, embora possuam muitas práticas eclesiais neotestamentárias. São aquelas que se congregam prioritariamente com base na amizade entre seus membros. Poderíamos chamá-las de igrejas relacionais. Nessas igrejas, os relacionamentos são colocados acima de tudo. Os congregantes dessas igrejas não fazem questão de saber como o outro pensa, com relação à doutrina cristã. Um participante da igreja pode até adotar uma doutrina herética (não bíblica), e estar normalmente participando da igreja relacional (como se fosse irmão) sem qualquer problema, pois, para os participantes desse tipo de igreja, qualquer doutrina que venha a atrapalhar a amizade entre irmãos, não lhes interessa. Poderíamos classificá-los no campo da teologia como liberais (não ortodoxos). As igrejas relacionais também apresentam outra característica que as difere sutilmente de uma autêntica igreja orgânica. É que, embora elas se reúnam nos lares de seus membros, não consideram que o lar seja o lugar ideal para a reunião da igreja. Assim, defendem que qualquer reunião que conte com a participação de cristãos, em qualquer lugar e para qualquer propósito, é uma igreja.

Por outro lado, as igrejas orgânicas também valorizam os relacionamentos e buscam o aprofundamento da amizade entre os irmãos. Neste contexto, elas são também relacionais. Porém, valorizam acima de tudo as doutrinas centrais do Cristianismo (Bíblia como revelação de Deus; Trindade; Pecaminosidade humana; Justificação/Salvação pela fé em Cristo etc.), e não consideram como irmão alguém que negue ou altere essas doutrinas. As igrejas orgânicas são Cristocêntricas e bíblicas. As igrejas orgânicas se dedicam ao estudo das Escrituras com fervor, assim como faziam as igrejas do primeiro século: “Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações.” (Atos 2.42). Entretanto, apesar de não “negociarem” as doutrinas essenciais, os irmãos das igrejas orgânicas respeitam a posição de cada um quanto às doutrinas periféricas, ou secundárias, e convivem em paz. Valorizar os relacionamentos é orgânico; porém, colocá-los acima da sã-doutrina não é.

Há ainda as igrejas nos lares com ênfase no crescimento numérico, na multiplicação de igrejas. Essas se consideram cumpridoras fiéis da grande comissão, por meio de reuniões nos lares. Elas exaltam o crescimento quantitativo e a descentralização organizacional total daquilo que chamam de “Movimento Igreja Orgânica”. De modo parecido com o tipo descrito anteriormente, as igrejas multiplicadoras também postulam que qualquer reunião que conte com a participação de cristãos, em qualquer lugar e para qualquer propósito (principalmente evangelístico), é uma igreja.

Nenhuma dessas igrejas descritas neste artigo é orgânica, embora sejam igrejas nos lares. Apesar da aparência orgânica, essas igrejas são fruto de uma elaboração ou alteração humana, portanto, são igrejas “transgênicas”. Sugiro que o leitor complemente a leitura do presente artigo lendo meu outro artigo “Características das Igrejas Orgânicas”, postado no blog www.igrejaorganica.blogspot.com no mês de fevereiro de 2010.

Encerro citando Frank Viola, no seu parágrafo sobre a vida orgânica da igreja:

“Vida orgânica da Igreja é algo profundamente simples, porém, infinitamente complicado. Satisfaz os anseios mais profundos do espírito humano, mas frustra a alma e traz lances de morte à carne. É, ao mesmo tempo, gratificante e enlouquecedora. É sem dúvida a maior experiência espiritual que um mortal pode conhecer. Por quê? Simplesmente porque Deus escolheu a ekklesia em sua expressão orgânica para revelar as glórias e a riqueza do seu Filho amado, o Senhor Jesus Cristo, e para trazer a esta terra a comunhão que existe dentro da Trindade.”

Respostas Às Objeções Contra A Liderança das Igrejas Nos Lares – Parte 4

Liderança em Atos e Nas Cartas de Paulo – Parte 4 – final

Marcio Rocha

As versões brasileiras da Bíblia muitas vezes a traduzem com tendências institucionais nas passagens relativas à liderança na igreja, levando as pessoas a interpretarem que as igrejas do Novo Testamento praticavam uma liderança hierárquica, titular e posicional – o que está longe da verdade. Nesta quarta parte do estudo sobre a liderança na igreja, vamos analisar mais algumas passagens e argumentos baseados em Atos e nas cartas de Paulo, que têm sido mal utilizados para defender uma liderança hierárquica, titular e posicional na igreja cristã. Como nas demais partes, citaremos as versões mais usadas no Brasil – a Almeida Revista e Atualizada (ARA) e a Nova Versão Internacional (NVI)

Efésios 4.11 não fala de clérigos?

“E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres” (Ef. 4.11. ARA)

“E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres” (Ef. 4.11. NVI)

Não. Efésios 4 fala de pessoas vocacionadas por Deus para servir ao seu povo e edificá-lo pela orientação e ensino. Os versos 12-13, em Grego, dizem:

“Para o aperfeiçoamento dos santos, para servir, para edificar o corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef. 4.12-13. Tradução nossa)

O texto bíblico em momento algum passa a idéia de cristãos especiais, em contraste com cristãos comuns – leigos. Deus simplesmente vocacionou alguns de seus servos para serem apóstolos, profetas, evangelistas e pastores-professores, visando respectivamente a plantação de igrejas e a edificação dos cristãos. O líder cristão é um líder-servo (a exemplo de Jesus Cristo) e não um líder autoritário (a exemplo dos líderes do mundo).

Entretanto, não estamos afirmando aqui que todos os cristãos são apóstolos, profetas, evangelistas e pastores; mas que esses são chamados especiais feitos a algumas pessoas que estão no corpo de Cristo. E esses chamados NÃO tornam especiais as pessoas que os exercem. Efésios 4 não está falando de clérigos, nem de sacerdotes ou “ministros do evangelho”. O que está em vista em Efésios 4 são funções especiais, ao invés de títulos ou posições autoritárias.

A menção de “governos” ou “administração” em 1 Coríntios 12.28 demonstra que a igreja primitiva no primeiro século possuía oficiais de igreja?

“E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro mestres, depois operadores de milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas.” (1 Cor. 12.28. ARA)

“Assim, na igreja, Deus estabeleceu primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois os que realizam milagres, os que têm dons de curar, os que têm dom de prestar ajuda, os que têm dons de administração e os que falam diversas línguas.” (1 Cor. 12.28. NVI)

A palavra do Grego Koiné traduzida como “governo” na ARA e como “administração” na NVI é kubernéssis. Segundo os maiores eruditos nos manuscritos do Novo Testamento – Doutores Kurt Aland, Matthew Black, Carlo Martini, Bruce Metzger e Allen Wikgren — esta palavra significa “habilidade de liderar” [1] . Já vimos que liderar não é governar, mas sim, orientar e influenciar pelo exemplo. Assim, “governo” ou “administração” são traduções pobres para kubernéssis. São, na verdade, imposições do pensamento do homem moderno ao texto bíblico. O único governo que a igreja conhece é o de Cristo (Isa 9.6).

A metáfora de Paulo do Corpo de Cristo não demonstra que a autoridade funciona de modo hierárquico? Isto é, quando a cabeça quer enviar um comando à mão, ela envia antes um comando ao braço. Assim, a mão se submete ao braço para que este se submeta à cabeça.

Nada poderia estar mais longe da verdade do que este pensamento. Quem conhece anatomia do corpo humano sabe que não é assim que ele funciona.

O cérebro envia comandos diretamente àquelas partes que ele quer controlar, por meio do sistema nervoso periférico. Consequentemente, o cérebro controla todas as parte do corpo diretamente e imediatamente, através dos nervos. Ele não envia comandos através de um esquema tipo cadeia-de-comando, invocando outras partes do corpo.

A metáfora de Paulo não poderia ser mais clara. A cabeça do corpo humano é conectada diretamente a cada parte do corpo, por meio do sistema nervoso. Assim também Cristo – O Cabeça da Igreja – está diretamente conectado a cada membro do seu corpo, a cada pessoa lavada com o seu sangue. Assim como a cabeça não envia comandos a uma parte do corpo para que esse comande outra parte, Cristo não envia comandos a algumas “autoridades da igreja” para que essas comandem os “leigos”.

O Corpo de Cristo – a igreja – não precisa de clérigos, intermediários entre ela e Deus. Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e os homens (1 Tim. 2.5). A sujeição mútua, a interdependência, e não a submissão hierárquica é o que coordena propriamente a igreja.

Todo corpo físico possui uma cabeça. Da mesma forma, todo corpo local de crentes necessita de uma cabeça. Se ele não tiver cabeça fica caótico. Os pastores são as cabeças das igrejas locais. Eles são pequenas cabeças abaixo da Liderança de Cristo.

Esta idéia é típica do modo de pensar de humanos caídos. Não existe o menor suporte bíblico para este pensamento. A Bíblia NUNCA se refere a um humano como “cabeça” de uma igreja. Este título é exclusivo de Jesus Cristo. Ele é o ÚNICO cabeça de uma congregação local. Aqueles que se proclamam cabeças de igrejas suplantam o senhorio de Cristo.

João 5.30; 14.28, 31; e 1 Coríntios 11.3 não ensinam uma relação hierárquica dentro da Trindade Divina?

“Por mim mesmo, nada posso fazer; eu julgo apenas conforme ouço, e o meu julgamento é justo, pois não procuro agradar a mim mesmo, mas àquele que me enviou.” (João 5.30. NVI)

“Vocês me ouviram dizer: Vou, mas volto para vocês. Se vocês me amassem, ficariam contentes porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu.” (João 14.28.NVI)

“Todavia é preciso que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço o que meu Pai me ordenou. Levantem-se, vamo-nos daqui!” (João 14.31. NVI)

“Quero, porém, que entendam que o cabeça de todo homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de Cristo é Deus.” (1 Cor. 11.3. NVI)

Essas passagens não se referem ao relacionamento eterno do Filho com o Pai na Trindade. Elas se referem ao relacionamento temporal de Cristo com o Pai enquanto ele esteve como humano, na terra. Ele voluntariamente se submeteu à vontade do Pai enquanto esteve aqui. Na Trindade eterna, porém, o Pai e o Filho experimentam uma mútua submissão. Eles são iguais. A Trindade é uma comunhão de pessoas co-iguais. A comunhão do Deus triuno é igualitária e não hierárquica.

Veremos na próxima parte, outras objeções levantadas contra a liderança não hierárquica com base em outras passagens do Novo Testamento fora de Atos e das cartas de Paulo.

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[1] ALAND, et al. The Greek New Testament – with dictionary. 3rd corrected edition. United Bible Societies. Suttgart: 1983.

A nova reforma Protestante – Reportagem de capa da revista Época

Inspirado no cristianismo primitivo e conectado à internet, um grupo crescente de religiosos critica a corrupção neopentecostal e tenta recriar o protestantismo à brasileira.
(Revista Época de 9/agosto/2010.)
Irani Rosique não é apóstolo, bispo, presbítero nem pastor. É apenas um cirurgião geral de 49 anos em Ariquemes, cidade de 80 mil habitantes do interior de Rondônia. No alpendre da casa de uma amiga professora, ele se prepara para falar. Cercado por conhecidos, vizinhos e parentes da anfitriã, por 15 minutos Rosique conversa sobre o salmo primeiro (“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios”). Depois, o grupo de umas 15 pessoas ora pela última vez – como já havia orado e cantado por cerca de meia hora antes – e então parte para o tradicional chá com bolachas, regado a conversa animada e íntima.

Desde que se converteu ao cristianismo evangélico, durante uma aula de inglês em Goiânia em 1969, Rosique pratica sua fé assim, em pequenos grupos de oração, comunhão e estudo da Bíblia. Com o passar do tempo, esses grupos cresceram e se multiplicaram. Hoje, são 262 espalhados por Ariquemes, reunindo cerca de 2.500 pessoas, organizadas por 11 “supervisores”, Rosique entre eles. São professores, médicos, enfermeiros, pecuaristas, nutricionistas, com uma única característica comum: são crentes mais experientes.


Apesar de jamais ter participado de uma igreja nos moldes tradicionais, Rosique é hoje uma referência entre líderes religiosos de todo o Brasil, mesmo os mais tradicionais. Recebe convites para falar sobre sua visão descomplicada de comunidade cristã, vindos de igrejas que há 20 anos não lhe responderiam um telefonema. Ele pode ser visto como um “símbolo” do período de transição que a igreja evangélica brasileira atravessa. Um tempo em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões e hierarquias estão sob profundo processo de revisão, apontando para uma relação com o Divino muito diferente daquela divulgada nos horários pagos da TV.
Estima-se que haja cerca de 46 milhões de evangélicos no Brasil. Seu crescimento foi seis vezes maior do que a população total desde 1960, quando havia menos de 3 milhões de fiéis espalhados principalmente entre as igrejas conhecidas como históricas (batistas, luteranos, presbiterianos e metodistas). Na década de 1960, a hegemonia passou para as mãos dos pentecostais, que davam ênfase em curas e milagres nos cultos de igrejas como Assembleia de Deus, Congregação Cristã no Brasil e O Brasil Para Cristo. A grande explosão numérica evangélica deu-se na década de 1980, com o surgimento das denominações neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer. Elas tiraram do pentecostalismo a rigidez de costumes e a ele adicionaram a “teologia da prosperidade” (leia o quadro na última pág.). Há quem aposte que até 2020 metade dos brasileiros professará à fé evangélica.
Dentro do próprio meio, levantam-se vozes críticas a esse crescimento. Segundo elas, esse modelo de igreja, que prospera em meio a acusações de evasão de divisas, tráfico de armas e formação de quadrilha, tem sido mais influenciado pela sociedade de consumo que pelos ensinamentos da Bíblia. “O movimento evangélico está visceralmente em colapso”, afirma o pastor Ricardo Gondim, da igreja Betesda, autor de livros como Eu creio, mas tenho dúvidas: a graça de Deus e nossas frágeis certezas (Editora Ultimato). “Estamos vivendo um momento de mudança de paradigmas. Ainda não temos as respostas, mas as inquietações estão postas, talvez para ser respondidas somente no futuro.”
Nos Estados Unidos, a reinvenção da igreja evangélica está em curso há tempos. A igreja Willow Creek de Chicago trabalhava sob o mote de ser “uma igreja para quem não gosta de igreja” desde o início dos anos 1970. Em São Paulo, 20 anos depois, o pastor Ed René Kivitz adotou o lema para sua Igreja Batista, no bairro da Água Branca – e a ele adicionou o complemento “e uma igreja para pessoas de quem a igreja não costuma gostar”. Kivitz é atualmente um dos mais discutidos pensadores do movimento protestante no Brasil e um dos principais críticos da“religiosidade institucionalizada”. Durante seu pronunciamento num evento para líderes religiosos no final de 2009, Kivitz afirmou: “Esta igreja que está na mídia está morrendo pela boca, então que morra. Meu compromisso é com a multidão agonizante, e não com esta igreja evangélica brasileira.”
Essa espécie de “nova reforma protestante” não é um movimento coordenado ou orquestrado por alguma liderança central. Ela é resultado de manifestações espontâneas, que mantêm a diversidade entre as várias diferenças teológicas, culturais e denominacionais de seus ideólogos. Mas alguns pontos são comuns. O maior deles é a busca pelo papel reservado à religião cristã no mundo atual. Um desafio não muito diferente do que se impõe a bancos, escolas, sistemas políticos e todas as instituições que vieram da modernidade com a credibilidade arranhada. “As instituições estão todas sub judice”, diz o teólogo Ricardo Quadros Gouveia, professor da Universidade Mackenzie de São Paulo e pastor da Igreja Presbiteriana do Bairro do Limão. “Ninguém tem dúvida de que espiritualidade é uma coisa boa ou que educação é uma coisa boa, mas as instituições que as representam estão sob suspeita.”
Uma das saídas propostas por esses pensadores é despir tanto quanto possível os ensinamentos cristãos de todo aparato institucional. Segundo eles, a igreja protestante (ao menos sua face mais espalhafatosa e conhecida) chegou ao novo milênio tão encharcada de dogmas, tradicionalismos, corrupção e misticismo quanto a Igreja Católica que Martinho Lutero tentou reformar no século XVI. “Acabamos nos perdendo no linguajar ‘evangeliquês’, no moralismo, no formalismo, e deixamos de oferecer respostas para nossa sociedade”, afirma o pastor Miguel Uchôa, da Paróquia Anglicana Espírito Santo, em Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife. “É difícil para qualquer pessoa esclarecida conviver com tanto formalismo e tão pouco conteúdo.”

Uchôa lidera a maior comunidade anglicana da América Latina. Seu trabalho é reconhecido por toda a cúpula da denominação como um dos mais dinâmicos do país. Ele é um dos grandes entusiastas do movimento inglês Fresh Expressions, cujo mote é “uma igreja mutante para um mundo mutante”. Seu trabalho é orientar grupos cristãos que se reúnem em cafés, museus, praias ou pistas de skate. De maneira genérica, esses grupos são chamados de “igreja emergente” desde o final da década de 1990. “O importante não é a forma”, afirma Uchôa. “É buscar a essência da espiritualidade cristã, que acabou diluída ao longo dos anos, porque as formas e hierarquias passaram a ser usadas para manipular pessoas. É contra isso que estamos nos levantando.”

No meio dessa busca pela essência da fé cristã, muitas das práticas e discursos que eram característica dos evangélicos começaram a ser considerados dispensáveis. Às vezes, até condenáveis (leia o quadro na última pág.). Em Campinas, no interior de São Paulo, ocorre uma das experiências mais interessantes de recriação de estruturas entre as denominações históricas. A Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera não tem um templo. Seus frequentadores se reúnem em dois salões anexos a grandes condomínios da cidade e em casas ao longo da semana. Aboliram a entrega de dízimos e as ofertas da liturgia. Os interessados em contribuir devem procurar a secretaria e fazê-lo por depósito bancário – e esperar em casa um relatório de gastos. Os sermões são chamados, apropriadamente, de “palestras” e são ministrados com recursos multimídias por um palestrante sentado em um banquinho atrás de um MacBook. A meditação bíblica dominical é comumente ilustrada por uma crônica de Luis Fernando Verissimo ou uma música de Chico Buarque de Hollanda.

Os seminários teológicos formam ministros para um Brasil rural em que os trabalhos são de carteira assinada, as famílias são papai, mamãe, filhinhos e os pastores são pessoas respeitadas”, diz Ricardo Agreste, pastor da Comunidade e autor dos livros Igreja? Tô fora e A jornada (ambos lançados pela Editora Socep). “O risco disso é passar a vida oferecendo respostas a perguntas que ninguém mais nos faz. Há muita gente séria, claro, dizendo verdades bíblicas, mas presas a um formato ultrapassado.”Outro ponto em comum entre esses questionadores é o rompimento declarado com a face mais visível dos protestantes brasileiros: os neopentecostais. “É lisonjeador saber que atraímos gente com formação universitária e que nos consideram ‘pensadores’”, afirma Ricardo Agreste. “O grande problema dos evangélicos brasileiros não é de inteligência, é de ética e honestidade.” Segundo ele, a velha discussão doutrinária foi substituída por outra. “Não é mais uma questão de pensar de formas diferentes a espiritualidade cristã”, diz. “Trata-se de entender que há gente usando vocabulário e elementos de prática cristã para ganhar dinheiro e manipular pessoas.”
Esse rompimento da cordialidade entre os evangélicos históricos e os neopentecostais veio a público na forma de livros e artigos. A jornalista (evangélica) Marília Camargo César publicou no final de 2008 o livro Feridos em nome de Deus (Editora Mundo Cristão), sobre fiéis decepcionados com a religião por causa de abusos de pastores. O teólogo Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, publicou O que estão fazendo com a Igreja: ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro (Mundo Cristão), retrato desolador de uma geração cindida entre o liberalismo teológico, os truques de marketing, o culto à personalidade e o esquerdismo político. Em um recente artigo, o presidente do Centro Apologético Cristão de Pesquisas, João Flavio Martinez, definiu como “macumba para evangélico” as práticas místicas da Igreja Universal do Reino de Deus, como banho de descarrego e sabonete com extrato de arruda.
Tais críticas, até pouco tempo atrás, ficavam restritas aos bastidores teológicos e às discussões internas nas igrejas. Livros mais antigos – como Supercrentes, Evangélicos em crise, Como ser cristão sem ser religioso e O evangelho maltrapilho (todos da editora Mundo Cristão) – eram experiências isoladas, às vezes recebidos pelos fiéis como desagregadores. “Parece que a sociedade se fartou de tanto escândalo e passou a dar ouvidos a quem já levantava essas questões há tempos”, diz Mark Carpenter, diretor-geral da Mundo Cristão.
O pastor Kivitz – que publicou pela Mundo Cristão seus livros Outra espiritualidade e O livro mais mal-humorado da Bíblia – distingue essa crítica interna daquela feita pela mídia tradicional aos neopentecostais “A mídia trata os evangélicos como um fenômeno social e cultural. Para fazer uma crítica assim, basta ter um pouco de bom-senso. Essa crítica o (programa) CQC já faz, porque essa igreja é mesmo um escracho”, diz ele. “Eu faço uma crítica diferente, visceral, passional, porque eu sou evangélico. E não sou isso que está na televisão, nas páginas policiais dos jornais. A gente fica sem dormir, a gente sofre e chora esse fenômeno religioso que pretende ser rotulado de cristianismo.”
A necessidade de se distinguir dos neopentecostais também levou essas igrejas a reconsiderar uma série de práticas e até seu vocabulário. Pastores e “leigos” passam a ocupar o mesmo nível hierárquico, e não há espaço para “ungidos” em especial. Grandes e imponentes catedrais e “cultos shows” dão lugar a reuniões informais, em pequenos grupos, nas casas, onde os líderes podem ser questionados, e as relações são mais próximas. O vocabulário herdado da teologia triunfalista do Antigo Testamento (vitória, vingança, peleja, guerra, maldição) é reconsiderado. Para superar o desgaste dos termos, algumas igrejas preferem ser chamadas de “comunidades”, os cultos são anunciados como “reuniões” ou “celebrações” e até a palavra “evangélico” tem sido preterida em favor de “cristão” – o termo mais radical. Nem todo mundo concorda, evidentemente. “Eles (os neopentecostais) é que não deveriam ser chamados de evangélicos”, afirma o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, da Diocese do Recife. “Eles é que não têm laços históricos, teológicos ou éticos com os evangélicos.”
Um dos maiores estudiosos do fenômeno evangélico no Brasil, o sociólogo Ricardo Mariano (PUC-RS), vê como natural o embate entre neopentecostais e as lideranças de igrejas históricas. Ele lembra que, desde o final da década de 1980, quando o neopentecostalismo ganhou força no Brasil, os líderes das igrejas históricas se levantaram para desqualificar o movimento. “O problema é que não há nenhum órgão que regule ou fale em nome de todos os evangélicos, então ninguém tem autoridade para dizer o que é uma legítima igreja evangélica”, afirma.
Procurado por ÉPOCA, Geraldo Tenuta, o Bispo Gê, presidente nacional da Igreja Renascer em Cristo, preferiu não entrar em discussões. “Jesus nos ensinou a não irmos contra aqueles que pregam o evangelho, a despeito de suas atitudes”, diz ele. “Desde o início, éramos acusados disto ou daquilo, primeiro porque admitíamos rock no altar, depois porque não tínhamos usos e costumes. Isso não nos preocupa. O que não é de Deus vai desaparecer, e não será por obra dos julgamentos.” A Igreja Universal do Reino de Deus – que, na terceira semana de julho, anunciou a construção de uma “réplica do Templo de Salomão” em São Paulo, com “pedras trazidas de Israel” e “maior do que a Catedral da Sé” – também foi procurada por ÉPOCA para comentar os movimentos emergentes e as críticas dirigidas à igreja. Por meio de sua assessoria, o bispo Edir Macedo enviou um e-mail com as palavras: “Sem resposta”.
O sociólogo Ricardo Mariano, autor do livro Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Editora Loyola), oferece uma explicação pragmática para a ruptura proposta pelo novo discurso evangélico. Ateu, ele afirma que o objetivo é a busca por uma certa elite intelectual, um público mais bem informado, universitário, mais culto que os telespectadores que enchem as igrejas populares. “Vivemos uma época em que o paciente pesquisa na internet antes de ir ao consultório e é capaz de discutir com o médico, questionar o professor”, diz. “Num ambiente assim, não tem como o pastor proibir nada. Ele joga para a consciência do fiel.”
A maior parte da movimentação crítica no meio evangélico acontece nas grandes cidades. O próprio pastor Kivitz afirma que “talvez não agisse da mesma forma se estivesse servindo alguma comunidade em um rincão do interior” e que o diálogo livre entre púlpito e auditório passa, necessariamente, por uma identificação cultural. “As pessoas não querem dogmas, elas querem honestidade”, diz ele. “As dúvidas delas são as minhas dúvidas. Minha postura é, juntos, buscarmos respostas satisfatórias a nossas inquietações.”
Por isso mesmo, Ricardo Mariano não vê comparação entre o apelo das novas igrejas protestantes e das neopentecostais. “O destino desses líderes será ‘pescar no aquário’, atraindo insatisfeitos vindos de outras igrejas, ou continuar falando para meia dúzia de pessoas”, diz ele. De acordo com o presbiteriano Ricardo Gouveia, “não há, ou não deveria haver, preocupação mercadológica” entre as igrejas históricas. “Não se trata de um produto a oferecer, que precise ocupar espaço no mercado”, diz ele. “Nossa preocupação é simplesmente anunciar o evangelho, e não tentar ‘melhorá-lo’ ou torná-lo mais interessante ou vendável.”
O advento da internet foi fundamental para pastores, seminaristas, músicos, líderes religiosos e leigos decidirem criar seus próprios sites, portais, comunidades e blogs. Um vídeo transmitido pela Igreja Universal em Portugal divulgando o Contrato da fé – um “documento”, “autenticado” pelos pastores, prometendo ao fiel a possibilidade de se “associar com Deus e ter de Deus os benefícios” – propagou-se pela rede, angariando toda sorte de comentários. Outro vídeo, em que o pregador americano Moris Cerullo, no programa do pastor Silas Malafaia, prometia uma “unção financeira dos últimos dias” em troca de quem “semear” um “compromisso” de R$ 900 também bombou na rede. Uma cópia da sentença do juiz federal Fausto De Sanctis condenando os líderes da Renascer Estevam e Sônia Hernandes por evasão de divisas circulou no final de 2009. De Sanctis afirmava que o casal “não se lastreia na preservação de valores de ética ou correção, apesar de professarem o evangelho”. “Vergonha alheia em doses quase insuportáveis” foi o comentário mais ameno entre os internautas.
Sites como Pavablog , Veshame Gospel , Irmãos.com , Púlpito Cristão , Caiofabio.net ou Cristianismo Criativo fazem circular vídeos, palestras e sermões e debatem doutrinas e notícias com alto nível de ousadia e autocrítica. De um grupo de blogueiros paulistanos, surgiu a ideia da Marcha pela ética, um protesto que ocorre há dois anos dentro da Marcha para Jesus (evento organizado pela Renascer). Vestidos de preto, jovens carregam faixas com textos bíblicos e frases como “O $how tem que parar” e “Jesus não está aqui, ele está nas favelas”.
A maior parte desses blogueiros trafega entre assuntos tão diversos como teologia, política, televisão, cinema e música popular. O trânsito entre o “secular” e o “sagrado” é uma das características mais fortes desses novos evangélicos. “A espiritualidade cristã sempre teve a missão de resgatar a pessoa e fazê-la interagir e transformar a sociedade”, diz Ricardo Agreste. “Rompemos o ostracismo da igreja histórica tradicional, entramos em diálogo com a cultura e com os ícones e pensamento dessa cultura e estamos refletindo sobre tudo isso.”
Em São Paulo, o capelão Valter Ravara criou o Instituto Gênesis 1.28, uma organização que ministra cursos de conscientização ambiental em igrejas, escolas e centros comunitários. “É a proposta de Jesus, materializar o amor ao próximo no dia a dia”, afirma Ravara. “O homem sem Deus joga papel no chão? O cristão não deve jogar.” Ravara publicou em 2008 a Bíblia verde, com laminação biodegradável, papel de reflorestamento e encarte com textos sobre sustentabilidade.
A então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, escreveu o prefácio da Bíblia verde. Sua candidatura à Presidência da República angariou simpatia de blogueiros e tuiteiros, mas não o apoio formal da Assembleia de Deus, denominação a que ela pertence. A separação entre política e religião pregada por Marina é vista como um marco da nova inserção social evangélica. O vereador paulistano e evangélico Carlos Bezerra Jr. afirma que o dever do político cristão é “expressar o Reino de Deus” dentro da política. “É o oposto do que fazem as bancadas evangélicas no Congresso, que existem para conseguir facilidades para sua denominação e sustentar impérios eclesiásticos”, diz ele.
O raciocínio antissectário se espalhou para a música. Nomes como Palavrantiga, Crombie, Tanlan, Eduardo Mano, Helvio Sodré e Lucas Souza se definem apenas como “música feita por cristãos”, não mais como “gospel”. Eles rompem os limites entre os mercados evangélico e pop. O antissectarismo torna os evangélicos mais sensíveis a ações sociais, das parcerias com ONGs até uma comunidade funcionando em plena Cracolândia, no centro de São Paulo. “No fundo, nossa proposta é a mesma dos reformadores”, diz o presbiteriano Ricardo Gouveia. “É perceber o cristianismo como algo feito para viver na vida cotidiana, no nosso trabalho, na nossa cidadania, no nosso comportamento ético, e não dentro das quatro paredes de um templo.”
A teologia chama de “cristocêntrico” o movimento empreendido por esses crentes que tentam tirar o cristianismo das mãos da estrutura da igreja – visão conhecida como “eclesiocêntrica” – e devolvê-lo para a imaterialidade das coisas do espírito. É uma versão brasileiramente mais modesta do que a Igreja Católica viveu nos tempos da Reforma Protestante. Desta vez, porém, dirigida para a própria igreja protestante. Depois de tantos desvios, vozes internas levantaram-se para propor uma nova forma de enxergar o mundo. E, como efeito, de ser enxergadas por ele. Nas palavras do pastor Kivitz: “Marx e Freud nos convenceram de que, se alguém tem fé, só pode ser um estúpido infantil que espera que um Papai do Céu possa lhe suprir as carências. Mas hoje gostaríamos de dizer que o cristianismo tem, sim, espaço para contribuir com a construção de uma alternativa para a civilização que está aí. Uma sociedade que todo mundo espera, não apenas aqueles que buscam uma experiência religiosa”.
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Respostas Às Objeções Contra A Liderança das Igrejas Nos Lares – Parte 3

Liderança Em Atos E Nas Cartas De Paulo – Parte 3
Marcio Rocha

Nesta terceira parte do estudo sobre a liderança na igreja, vamos analisar mais alguns argumentos baseados em Atos e nas cartas de Paulo, que têm sido mal utilizados para defender uma liderança hierárquica, titular e posicional na igreja cristã.

Romanos 12.8, não ensina que Deus capacita certas pessoas para presidir a igreja? Lá, Paulo exorta que aquele que preside, deve fazê-lo com zelo.

Mais uma vez a palavra grega proistámenos foi mal traduzida em Português. A versão de João Ferreira de Almeida (ARA ou ARC) traduz essa palavra como “presidem”. Proistámenos (como já foi dito) significa “guiam” ou “lideram”. Presidir conota ter a responsabilidade pessoal de decidir os rumos de uma organização, em caráter final. Presidente é um conceito moderno que significa alguém que tem o poder final de decisão em uma organização ou comunidade, e isto é estranho ao Novo Testamento. Não se encontra um só caso no Novo Testamento em que algum presbítero local decide por toda a sua comunidade. Mesmo os apóstolos não clamavam para si este poder absoluto sobre uma comunidade local de cristãos. Por outro lado, guiar ou liderar é, antes de tudo, orientar e influenciar pelo conhecimento, sabedoria e exemplo. Essa é a autêntica função do pastor cristão. Decidir é prerrogativa de toda a igreja reunida (Atos 15), e jamais deve ser dada a uma só pessoa. Neste verso, concordo com a tradução da NVI: “Se é exercer liderança, que a exerça com zelo;…”

Atos 14.23 e Tito 1.5 ensinam que os presbíteros são eleitos. Isto não implica que eles são oficiais da igreja?

“E, havendo-lhes feito eleger anciãos em cada igreja e orado com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (Atos 14.23, ARA)

“Paulo e Barnabé designaram-lhes presbíteros em cada igreja; tendo orado e jejuado, eles os encomendaram ao Senhor, em quem haviam confiado.” (Atos 14.23, NVI)

Talvez a intenção do tradutor João Ferreira de Almeida quando escreveu “eleger” tenha sido a de que Paulo e Barnabé tenham escolhido homens maduros na fé e na idade (presbíteros) para liderar aquela igreja local em Derbe. Porém a mente moderna entende “eleger” como selecionar democraticamente por voto majoritário – e isto está completamente em desacordo com o que de fato aconteceu. Não houve “votação” feita pela igreja. Ao invés disso, aqueles apóstolos – viajantes itinerantes – apontaram, indicaram quem eram os homens que já estavam nas igrejas em Derbe, aos quais elas deveriam respeitar, honrar, e se deixar ser lideradas. E inclusive, era mais de um presbítero-pastor em cada igreja – o texto deixa isto claro: “presbíteros em cada igreja”. A liderança em uma igreja local deve ser colegiada, nunca individual. Repare que os presbíteros já estavam lá. Já exerciam naturalmente as funções dos presbíteros. Os apóstolos só fizeram apontá-los perante as igrejas, como que reconhecendo-os perante todos.

Em Atos 14.23, o verbo grego é cheirotonésantes, que significa “escolher, apontar, indicar, mostrar”. A melhor tradução para o verso é:

“E, apontando presbíteros para eles em cada igreja, com orações e jejuns os confiaram ao Senhor, em quem haviam crido.” (Atos 14.23)

Vejamos agora Tito 1.5.

“Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem o que ainda não o está, e que em cada cidade estabelecesses anciãos, como já te mandei;” (Tito 1.5, ARA)

“A razão de tê-lo deixado em Creta foi para que você pusesse em ordem o que ainda faltava e constituísse presbíteros em cada cidade, como eu o instruí.” (Tito 1.5, NVI)

As palavras grifadas nas citações acima, da ARA e da NVI respectivamente, foram traduzidas a partir da palavra grega katastêsses. Essa palavra está no tempo futuro do verbo katístemi, o qual possui os significados diversos de: designar; constituir; apontar; ordenar; estabelecer. É importante ressaltar que toda palavra que possui um amplo campo semântico, ou seja, que pode denotar ou conotar mais de um significado, deve ser entendida pelo seu contexto. A palavra “manga”, por exemplo, não significa a fruta manga na frase “enganchou a manga na fechadura, quando passou apressado; por isso a rasgou”. Embora o significado de manga como fruta faça parte do campo semântico da palavra “manga”, o lógico nesta frase é compreender que se está falando de manga de camisa. Da mesma forma, considerando o contexto do Novo Testamento, e em harmonia com outras passagens em Atos e nas cartas de Paulo, katístemi não pode significar “designar”, “constituir”, nem “ordenar”, nem “estabelecer”. Os presbíteros, no primeiro século, eram apontados pelos apóstolos (Atos 14.23). Assim, o verso deveria ter sido traduzido para o Português da seguinte forma:

“Por causa disto te deixei em Creta, para que colocasses as coisas restantes em ordem e apontasses presbíteros em cada cidade, como eu te mandei.” (Tito 1.5)

Pelo padrão do Novo Testamento, os presbíteros de uma igreja local não devem ser eleitos pela igreja. Devem ser reconhecidos e indicados pelo obreiro, ou pelos obreiros que a plantaram.

Paulo não utilizava o título de Apóstolo, quando se identificava na introdução de suas cartas?

Não. Se apóstolo fosse um título, Paulo se identificaria como “Apóstolo Paulo”, e não como “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo”, assim como consta em nossos Novos Testamentos. Quando alguém exalta o título de uma pessoa, ele ou ela colocam o título primeiro, antes do nome próprio. Com essa intenção as pessoas chamam “Doutor Fulano” a alguém que é médico, ou concluiu um doutorado. Assim, incorporam o título de uma pessoa ao seu nome próprio. Essa é uma mentalidade bastante institucional e distanciada do Novo Testamento. É muito comum nas modernas igrejas institucionalizadas, os irmãos chamarem os líderes que foram empossados como pastores de “pastor” ou “reverendo”, antes dos seus nomes próprios. Isso é maléfico para a igreja, pois cria uma separação entre crentes comuns – os “leigos” e crentes “especiais” – os clérigos ou ministros.

Por outro lado, quando alguém coloca o nome da pessoa na frente da sua função, ela está dizendo que, embora reconheça a função da pessoa na comunidade, ela é um ser humano como qualquer outro. Paulo se identificava como Paulo – aquele que tinha a função de ser um apóstolo de Jesus Cristo; um plantador de igrejas, um missionário, enviado para pregar o evangelho e fazer discípulos do seu Mestre. Ser apóstolo não era um título para Paulo; era sua missão, sua carreira… e seu bom combate.

Qual A Diferença Entre Os Pequenos Grupos E As Igrejas Nos lares?

Marcio Rocha

Na verdade não há apenas uma diferença, mas várias. E também há semelhanças. Por volta dos anos 90, as igrejas institucionalizadas começaram a incentivar os seus membros a se congregarem em grupos pequenos, fora dos seus templos, e sem ser aos domingos. Este movimento/método começou nos Estados Unidos, onde adquiriu o título de Small Groups. A idéia básica dos pequenos grupos é que, por não serem multidões como são geralmente as reuniões dominicais das igrejas modernas, os cristãos que deles participam podem desenvolver relacionamentos mais aprofundados e serem pastoreados mais pessoalmente por um líder do grupo, credenciado pela “igreja mãe”. Aliás, essas duas características também estão presentes nas igrejas nos lares, sendo, talvez, as únicas semelhanças entre os dois. As igrejas nos lares também são grupos pequenos – de até aproximadamente vinte pessoas. Os membros das igrejas nos lares partilham a vida com muita intensidade – uns ajudam os outros nas necessidades diárias – não se encontram apenas aos domingos. Os pastores das igrejas nos lares apóiam, orientam e encorajam os crentes de modo personalizado. No entanto, as semelhanças param por aí. E as diferenças são significativas.

Formação

Os pequenos grupos são formados por afinidade; são temáticos ou etários. As pessoas se agrupam livremente nos pequenos grupos conforme sua preferência, seja por afinidade com um tema (ex. grupos de homens de negócios, grupos evangelísticos, grupos de praticantes de determinado esporte, de admiradores de cinema, de musicistas etc.) ou por afinidade de idade – faixa etária (ex. grupos de adolescentes, grupos de mulheres casadas, grupos de pais, grupos de casais, grupos de adolescentes, de jovens, de solteiras etc.).


Já as igrejas nos lares são constituídas simplesmente por crentes em Cristo, não importando as preferências profissionais, de lazer, nem a faixa etária de cada pessoa. Nas igrejas nos lares, crianças, jovens, adultos e idosos estão unidos em torno de Jesus Cristo para adorá-lo, e voltados uns aos outros para edificação mútua. Os pequenos grupos segregam a igreja. As igrejas nos lares unem as diferentes pessoas.

Hierarquia Organizacional

Os pequenos grupos são subordinados a uma grande igreja, geralmente denominada como “igreja-mãe” ou de “grande congregação”. Os pequenos grupos existem visando fortalecer os ministérios dos pastores profissionais das igrejas mães. Essas igrejas incentivam a participação dos seus membros nos pequenos grupos, porém exigem que estejam todos juntos aos domingos para os cultos, como sinal de submissão/subordinação. Os pequenos grupos se reúnem de segunda a sábado, para que, aos domingos, todos possam estar no templo da igreja-mãe, para ouvir o sermão do pastor oficial.

Enquanto isso, as igrejas nos lares são igrejas em si mesmas. Não estão subordinadas a nenhuma outra igreja ou instituição. Mesmo naquelas que fazem parte de uma rede de igrejas nos lares, não existe uma relação de hierarquia delas para com a rede, nem para com outra igreja. Elas são interdependentes; cada uma em si é independente, mas todas se relacionam entre si como igrejas iguais – igrejas irmãs.

Dias de reuniões

As igrejas nos lares se reúnem nos lares dos seus membros, principalmente aos domingos, pois neste dia da semana há mais tempo para a comunhão e edificação. As reuniões dominicais das igrejas nos lares duram de duas a três horas. As reuniões de pequenos grupos, principalmente aquelas realizadas no meio da semana à noite, geralmente só duram uma hora. Para as igrejas institucionalizadas com pequenos grupos, o mais importante é a igreja mãe, o pastor e seus sermões. Nas igrejas nos lares, o mais importante é os membros estarem conectados como Corpo de Cristo para adoração coletiva, para edificação mútua e comunhão. Raramente há sermão nas igrejas nos lares. Geralmente a Palavra de Deus é estudada de modo participativo, com perguntas e respostas sobre os textos bíblicos.

Liderança

Os grupos pequenos, por fazerem parte de instituições religiosas, possuem liderança titular, posicional e hierárquica. Os líderes são indicados/empossados pelos pastores da igreja-mãe, e intitulados Líderes de Pequenos Grupos, fazendo parte de um intrincado esquema organizacional, estando acima apenas dos membros do seu grupo e abaixo de supervisores, de presbíteros (ou bispos), de diáconos e dos pastores. O líder de pequeno grupo, como os demais cargos nas igrejas institucionais, tem certo poder, dado pela instituição. O sistema organizacional dos grupos pequenos é mais ou menos imitado das redes multi-níveis – aquelas que vendem produtos com distribuidores diretos (como a Herbalife, a Natura etc.). Um líder pode chegar a ser supervisor, e na continuidade, chegar até a ser pastor. Os líderes de pequenos grupos são os verdadeiros pastores dos membros da igreja mãe; porém, lamentavelmente, não são reconhecidos pela instituição como pastores. Os que são intitulados pastores são muito mais administradores de empresas (religiosas), empreendedores, e grandes oradores, do que propriamente pastores. Alguns “pastores” de igrejas modernas erraram a vocação; eles deveriam ter sido palestrantes motivacionais, políticos, executivos, ou empresários.

Nas igrejas nos lares a liderança é natural, funcional e não hierárquica. Os líderes surgem sem ninguém empossar. Eles simplesmente fazem aquilo para o qual foram vocacionados por Deus; e o povo de Deus os reconhece, quando são, de fato, homens de Deus. Também os rejeita naturalmente quando não o são. Os pastores de igrejas nos lares pastoreiam as ovelhas de modo pessoal, e são reconhecidos como pastores, pela igreja, e principalmente por aqueles que são pastoreados por eles. São pais de família, maduros na fé e na sabedoria, de bom testemunho no meio secular – presbíteros, como o Novo Testamento fala. Porém, os pastores das igrejas nos lares não são chamados de “pastor fulano”; eles são chamados pelos próprios nomes, pois são discípulos como os demais. Nas igrejas nos lares evita-se a separação do povo de Deus em duas castas – clérigos e leigos; portanto, não há títulos ou cargos, mas dons e funções. Em igrejas nos lares ligadas a redes, os líderes se reúnem eventualmente para compartilhar experiências e se edificarem mutuamente. Não há cargos a galgar. Todos são iguais. Decorre disso que os batismos e as ceias do Senhor são ministrados pelos líderes das igrejas nos lares, ou até pelos próprios irmãos.

O estudo bíblico e o discipulado

Nos pequenos grupos, os estudos bíblicos, geralmente, são determinadamente sobre o mesmo tema (e passagem bíblica) pregado pelo pastor oficial da igreja-mãe no seu sermão do domingo anterior, e geralmente para concordar com ele. Esses estudos já vêm impressos, prontos para serem distribuídos aos membros dos pequenos grupos. Há alguns desses grupos, entretanto, que se reúnem apenas para terem um tempo juntos, para papear sobre o tema de sua afinidade ou para orarem juntos – o que é muito saudável e bom.

Nas igrejas nos lares, por sua vez, cada igreja decide o seu programa de estudos bíblicos dominicais do mês ou do semestre, sendo que os assuntos são decididos pela igreja toda, conforme a necessidade/interesse da igreja. Isto é parte da mentalidade congregacional/conciliar das igrejas nos lares, baseada no Novo Testamento (Atos 15). Assim como a igreja neotestamentária, as decisões das igrejas nos lares são tomadas com toda a comunidade, geralmente em uníssono. Ninguém decide sozinho, e nem há “democracia representativa” – um conselho de decisores delegados. Nada é decidido de-cima-para-baixo. Não se pode negar que exista a influência dos líderes, mas é todo o povo quem finalmente decide.

Os membros das igrejas nos lares também se reúnem apenas para estarem juntos, para compartilharem refeições, para passearem ou assistirem um bom filme ou show musical em outros dias da semana.

O discipulado, nas igrejas nos lares, é feito pelos presbíteros-pastores, ou por irmãos ou irmãs treinados por eles. É enfatizado o ensino das doutrinas essenciais do Cristianismo aos novos discípulos. É importante ressaltar que, nas igrejas nos lares, o estudo da Palavra de Deus, seja coletivo ou individual, visa à formação de discípulos, para que esses gerem outros discípulos. Os novos discípulos são desde cedo encorajados a serem ativos na igreja, exercendo e desenvolvendo seus dons e seu chamado, e sobretudo, a cumprirem a grande comissão: “fazei discípulos… batizando… e ensinando a guardar tudo que eu vos ordenei…” (Mat. 28.19).

Essas são as principais semelhanças e diferenças entre os pequenos grupos e as igrejas nos lares.