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As Patologias Crônicas das Igrejas Institucionalizadas – Parte 1

As Mega-Igrejas

Marcio S. da Rocha
O que muitos consideram desenvolvimentos da igreja ao longo da história, eu considero que são desvios das práticas originais dos discípulos de Jesus que viveram no primeiro século. Não são poucos os cristãos que concordam comigo, incluindo escritores, líderes de igrejas e professores de seminários teológicos. Tenho visto recentemente um surpreendente número de lançamentos de livros de escritores renomados expressando sua insatisfação com as práticas das igrejas modernas. Tenho ouvido sérios pastores e líderes de igrejas reclamarem da superficialidade da vida cristã nos dias de hoje. Tenho ouvido falar de um crescente número de cristãos “sem igreja”, que amam ao Senhor, mas não conseguem conviver nas igrejas modernas. Recentemente em minha cidade, foi organizado um fórum teológico com o título “Os descaminhos da igreja”. Não é demais relembrar que houve na história da igreja diversos casos de pessoas que tiveram de sair da igreja para viver o Cristianismo. Há, de fato, uma insatisfação. Entretanto, embora muitos concordem com os sintomas das patologias das igrejas modernas, somente uma pequena minoria desses insatisfeitos consegue enxergar que há um sério problema com os modelos de igreja em que eles mesmos adotaram e defendem, com suas práticas e com a forma como vivem igreja, ou seja… com os seus odres. Pouquíssimos estão dispostos a abandonar suas poderosas organizações religiosas para reiniciar do zero; a se voltarem para o Novo Testamento com humildade e com a iluminação do Espírito Santo, e rever tudo o que lhes ensinaram sobre igreja.

Nessa série de artigos, apontaremos os holofotes para alguns dos modelos de igreja existentes atualmente, traçando um perfil de suas principais características e tentando evidenciar que não adianta tentar melhorá-los aplicando as mais novas ferramentas de administração ou de marketing. E ficará também evidenciado que todos os tipos de igrejas institucionalizadas possuem em comum o seu maior veneno: o clericarismo. Tenho um irmão em Cristo (a quem amo e respeito) que não gosta dessa palavra “modelo”. Porém, usá-la-ei aqui com o sentido científico de “uma representação simplicada da realidade”.

Primeiramente, quero dizer que posso falar sobre esses modelos eclesiásticos institucionalizados com propriedade. Converti-me com 14 anos de idade e fui membro por muitos anos de uma igreja presbiteriana de tamanho médio; participei por algum tempo de uma grande igreja pentecostal do tipo “avivada”, depois me congreguei com uma mega-igreja independente (hoje com cerca de quatro mil membros), e participei depois de uma pequena igreja de bairro. Hoje me congrego com uma igreja orgânica (primitivista), nos lares dos irmãos. Em todas essas igrejas sempre fui muito ativo, sempre tive consciência dos meus dons e posso dizer que todas elas contribuíram para a minha formação espiritual. Quero ressaltar que amo as pessoas daquelas igrejas com quem convivi, tanto os líderes quanto os demais irmãos. Portanto, o que escrevo aqui não é e nem deve ser levado para o lado pessoal.

Shopping Church Centers

As mega-igrejas são um dos exemplos de tentativas de vitaminar a igreja do Senhor Jesus com a capacidade puramente humana. Elas são dirigidas por eventos e programas, e por uma mentalidade consumista/comercial. Criaram verdadeiras boutiques e eventos para tudo quanto é de tema sociológico e/ou espiritual. Pais solteiros, 12 passos para isso, 8 passos para aquilo, geração “X”, homens de negócios, artistas, e por aí vai.

Aconselhadas por marketeiros de primeira linha, e contaminadas pelo comportamento industrial do mundo, as mega-igrejas atraem milhares de pessoas todos os domingos para seus auditórios ou anfiteatros. Seus líderes não hesitam em usar as mais novas estratégias de crescimento de igreja, os métodos organizacionais e as técnicas de marketing desenvolvidas e/ou ensinadas nas universidades seculares.

Shows Espetaculares

As mega-igrejas proporcionam espetáculos religiosos de tamanha qualidade que causariam inveja em muitos artistas do mundo. Alguns de seus instrumentistas e cantores são profissionais talentosos, pagos pela igreja. As tecnologias de efeitos visuais e sonoros usadas nos cultos são high-tech. As paredes e espaços para avisos de seus ambientes são repletas de frases motivacionais. E, como atração principal, está o carisma e a habilidade oratória de seus pastores principais.

Nos seus cultos, acontecem belas apresentações de coreografias e dramatizações. Elas organizam muitos e muitos grupos de interesse (grupos pequenos) para satisfazer as necessidades dos “clientes espirituais”.

Barato, e sem compromisso

Uma das coisas mais atraentes nessas mega-igrejas é que todo o espetáculo e serviço religioso oferecido em massa é “sem compromisso”, e com o mínimo de custo. Como não se cobram ingressos para tais shows religiosos, os freqüentadores dessas igrejas podem perfeitamente entrar e sair dos auditórios sem serem notados. Muitos são “ilustres desconhecidos” dos líderes dessas igrejas. Boa parte é visitante – um público rotativo vindo de outras igrejas ou composto simplesmente de curiosos.

Enfim, o paradigma que move as mega-igrejas é o mesmo das empresas não cristãs. Elas utilizam a cultura do marketing acreditando que com isso estão construindo o reino de Deus.

E quais são os efeitos nocivos das mega-igrejas para o Reino de Deus?

Encantamento

Infelizmente, um dos efeitos negativos que ocorrem com as pessoas que freqüentam esses grandes e organizados shopping-centers do mundo religioso é que não conseguem mais abrir espaço nos seus corações para a simplicidade e a informalidade que permeava a igreja do primeiro século. Elas ficam “encantadas” com o show. Ficam deslumbradas com as luzes, com o som e com as oportunidades de atendimento das suas necessidades e desejos espirituais. Ficam de tal modo condicionadas, que simplesmente não conseguem se sentir em casa numa igreja simples. Para elas, trocar a mega igreja por uma bíblica igreja nos lares, por exemplo, seria como trocar um super shopping por uma mercearia da esquina. Conheço uma irmã que freqüenta uma dessas mega-igrejas que me disse certa vez que seu marido (um não crente que freqüenta passivamente a igreja) afirmou que jamais quer saber de ir à outra igreja. Ela mora a poucas quadras de outra igreja de porte médio, mas vai à mega-igreja que fica muito distante de sua casa, porque assim como seu marido, a considera como a igreja ideal. Existe um tolo bairrismo eclesial nos freqüentadores das mega-igrejas.

Departamentalização

As mega-igrejas enfatizam tanto a departamentalização da igreja, que a união da igreja sofre grande perda. Focando sua atenção primariamente nas necessidades dos não crentes, essas igrejas têm falhado em discipular adequadamente os novos (e os antigos) convertidos rumo a uma vida dedicada radicalmente a Cristo.

Elas falham grandemente em nutrir relacionamentos aprofundados no corpo da igreja – a base para o discipulado efetivo. Os paradigmas comerciais que dirigem essas instituições paquidermes encandeiam a visão das pessoas impedindo-as de enxergar a natureza orgânica da igreja de Jesus Cristo.

Irrelevância Cultural

Por incrível que pareça, as mega-igrejas levantam a bandeira da relevância cultural. Defendem que o cristão deve ser relevante na sociedade, porém, elas mesmas, em seu modelo organizacional, são exatamente uma cópia das estruturas desta era. Por essa razão, elas não exercem impacto profundo ou duradouro na sociedade. É exatamente esta a observação que faz Frank Viola em seu livro Reimaginando a Igreja:

“Falando claramente, as técnicas modernas usadas pelas igrejas supermall são tão mundanas quanto o sistema do qual elas tentam libertar as pessoas. Dessa forma, o evangelho se tornou trivializado, comercializado, e esvaziado do seu poder. Tem sido diluído em simplesmente outro “produto” para nossa cultura obcecadamente consumista”.

Enfim, as mega-igrejas modernas guardam pouquíssima similaridade com as comunidades cristãs simples, dependentes do Espírito Santo, centralizadas em Cristo, dinâmicas, e participativas do primeiro século – as igrejas que verdadeiramente viraram o seu mundo de cabeça para baixo. Não dá para remediá-las. Elas precisam ser desconstruídas, para começar de novo conforme as práticas eclesiais do Novo Testamento.

Respostas Às Objeções Contra A Liderança das Igrejas Nos Lares – Parte 5 – Final

Liderança nos Evangelhos e nas Cartas Gerais do Novo Testamento
Marcio S. da Rocha

Nesta última parte do estudo sobre a liderança na igreja, vamos analisar mais algumas passagens e argumentos baseados nos Evangelhos e nas cartas gerais do Novo Testamento. Muitas delas têm sido mal traduzidas, mal compreendidas, e utilizadas para defender uma liderança hierárquica, titular e posicional na igreja cristã, enquanto que, na realidade, a liderança em todo o Novo Testamento era funcional – uma liderança baseada na maturidade, na integridade e nos dons de cada líder, cuja autoridade era reconhecida espontaneamente pelo grupo, devido ao exemplo de vida e não à imposição institucional de cargos ou títulos. Como nas demais partes, citaremos as versões mais usadas no Brasil – a Almeida Revista e Atualizada (ARA) e a Nova Versão Internacional (NVI)

Hebreus 13.17 não manda que nós obedeçamos e nos submetamos aos nossos líderes, implicando que os líderes cristãos possuem autoridade oficial?

“Obedecei a vossos guias, sendo-lhes submissos; porque velam por vossas almas como quem há de prestar contas delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.” (Heb. 13.17. ARA)

“Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês.” (Heb. 13.17. NVI)

Mais uma vez, uma olhada no Grego bíblico esclarece bastante. A palavra traduzida como “obedecei” no verso 17 de Hebreus 13 é a palavra peitho. Peitho significa “persuadir, convencer, aplicar persuasão[1]” e não “obedecer”. Este significado (persuadir) consta em vários léxicos Grego-Português, porém, nenhum tradutor usou-o para traduzir a palavra em Português com o seu significado real, devido às suas preconceituosas mentalidades institucionais. Como esta palavra aparece no verso na voz passiva, este verso deveria ter sido traduzido como “deixem-se ser persuadidos pelos seus líderes”.

O texto é uma exortação para valorizar as instruções dos supervisores das igrejas locais – os presbíteros – e talvez também dos apóstolos e de seus cooperadores. Não é uma exortação à obediência cega. O verso implica que o líder deve persuadir – convencer – ao invés de coagir com uso de poder institucional. Obediência cega a líderes humanos não se harmoniza com as instruções sobre liderança na igreja do Novo Testamento.

A submissão de que fala o verso é voluntária, baseada no respeito à autoridade interna que os líderes cristãos devem ter, devido aos seus exemplos de vida e conhecimento da Palavra de Deus. Jamais, no Novo Testamento, a submissão aos líderes é forçada pelo poder institucional de um cargo “oficial”.

A Bíblia ensina que aqueles que cuidam das almas das igrejas têm que prestar contas a Deus. Isto não significa que essas pessoas têm autoridade sobre os demais?
Hebreus 13.17 diz que aqueles que supervisionam as igrejas têm que prestar contas a Deus pelo que fazem. Prestar contas a Deus não é o mesmo que ter autoridade sobre os outros. Todos os crentes têm que prestar contas a Deus do que fazem (Mat. 12.36; 18.23; Luc. 16.12; Rom. 3.19; 14.12; Heb. 4.13; 1 Ped. 4.5). Porém, isto não significa que eles têm autoridade sobre outros. Aliás, desejar ter domínio sobre os outros é carnal – não provém do Espírito Santo.

Jesus não endossou a autoridade oficial quando mandou seus discípulos obedecerem aos escribas e aos fariseus porque eles se assentam na cadeira de Moisés?

“Os mestres da lei e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés. Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam.” (Mat. 23.2-3. NVI)

Quando Jesus disse que os fariseus se assentam na cadeira de Moisés, afirmou que eles usurparam a autoridade sobre o povo. Eles mesmos se apontaram como chefes. Os fariseus não tinham autoridade; eram falsos, hipócritas (Mat. 23.5-7; 13-33 Luc. 20.46). Eles ensinavam a Lei de Moisés, mas eles mesmos não seguiam as próprias instruções que davam ao povo.

A “cadeira de Moisés” era uma cadeira especial colocada no canto de uma sinagoga, onde as Escrituras eram lidas. Quando os fariseus sentavam na cadeira de Moisés, eles liam as Escrituras. Como as Escrituras têm autoridade divina, o que os fariseus diziam, neste caso, deveria ser seguido. A autoridade era das Escrituras, e não dos fariseus. A grande lição aqui é: mesmo que um falso líder cristão ensine a Bíblia, se o seu ensino for realmente bíblico, deve ser respeitado e seguido (o ensino, porém não o falso líder).

Portanto, Jesus não estava endossando a autoridade dos fariseus, e sim a da Bíblia.

O Novo Testamento grego não apóia a idéia de que existem clérigos e leigos na igreja?
“A dicotomia clérigo/leigo é uma falha trágica que percorre a história da cristandade.” (Frank Viola)

Essa dicotomia é defendida por muitos pela via do dogmatismo; não possui suporte bíblico.

A palavra “leigo” é derivada da palavra grega laos. Ela simplesmente significa “povo”, e, no Novo Testamento, inclui todos os cristãos, inclusive os líderes. A palavra aparece três vezes em 1 Pedro 2.9-10, onde Pedro se refere ao povo (laos) de Deus. Nunca essa palavra é usada para significar uma parte do povo de Deus.

Já a palavra clérigo é derivada de kleros. Kleros significa “herança”. A palavra aparece em 1 Pedro 5.3, onde Pedro exorta os presbíteros a não serem senhores (dominadores) sobre a herança de Deus (o seu povo). Kleros nunca significa “líderes” no Novo testamento. Assim como a palavra laos, ela se refere sempre ao povo de Deus – pois o povo de Deus é a sua herança.

De acordo com o Novo Testamento, portanto, todos os cristãos são clérigos e todos também são leigos. Nós somos a herança de Deus e também seu povo.

A dicotomia clérigo/leigo é pós-bíblica e prejudica a igreja. Ela advém da idéia pagã de separar a vida espiritual da vida secular. No Novo Testamento, é ensinado que toda a nossa vida deve trazer glória a Deus, inclusive a vida cotidiana.

Os sete anjos das igrejas no livro de Apocalipse representam a presença de um pastor único em cada igreja local?

A referência a anjos das igrejas em Apocalipse é difícil de entender. O autor não nos dá uma pista sobre a identidade deles. Aliás, o livro de Apocalipse é grandemente figurado, simbólico, portanto, estabelecer doutrina cristã a partir deste livro vai de encontro a um dos princípios que regem a interpretação bíblica saudável, “As doutrinas cristãs devem ser fundamentadas nas passagens claras das Escrituras”.

Além disso, não existe no Novo Testamento a idéia de pastor solo em uma igreja local. A liderança é sempre plural (Atos 20.17; 20.28). Também não se vê no Novo Testamento os conselhos dirigentes das igrejas tendo um “superior” entre eles. Hierarquia é coisa do homem.

A palavra anjo (do Grego angelos) significa mensageiro (de Deus ou do Diabo), porém não é usada na Bíblia inteira significando um homem. Sempre que aparece nas Escrituras, significa um ser celestial ou infernal. A simbolização de anjos como pastores humanos é uma coisa estranha ao contexto da Bíblia como um todo. Considerando o contexto geral da Bíblia, o mais natural é entender que este verso em Apocalipse está se referendo a um ser celestial.

Portanto, deduzir a doutrina do pastor-solo ou do pastor-chefe a partir dessa passagem é uma exegese falha.

Enfim, como se pode ver, não há suporte no Novo Testamento para a liderança hierárquica, posicional, derivada de cargos e títulos “oficiais”. A liderança praticada nas modernas igrejas institucionais é derivada da imitação do governo mundano, imposta à igreja pelo Imperador Romano Constantino, e não seguida a partir das Escrituras neo-testamentárias.

Mas, que mal há nisso? O mesmo mal que existe sempre que o povo de Deus quer imitar o mundo, ao invés de seguir a Deus. Basta lembrar que o Senhor não queria que Israel tivesse um rei humano, e eles teimaram e pediram a Samuel para instituir um, a exemplo das outras nações (pagãs). Embora a misericórdia de Deus seja grande, as conseqüências para Israel foram terríveis. Pouquíssimos foram os reis bons de Israel. O que Deus disse a Samuel quando o viu triste por causa do pedido da nação Israelense para ter um rei humano? “Atenda a tudo o que o povo está lhe pedindo; não foi a você que rejeitaram; foi a mim que rejeitaram como rei.” (1 Sam. 8.7). Há sempre um mal em rejeitar a Deus como rei, e em estabelecer homens em seu lugar. Há um mal em rejeitar a Cristo como “a autoridade” da igreja, e estabelecer homens como autoridades oficiais. E há conseqüências ruins disto, como, aliás, se vê nas igrejas institucionais, manifestas como vaidade e briga pelo poder. Tudo é vaidade.

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[1] Conforme SOUTER, Alexander. A Pocket Lexicon to The Greek New Testament. Oxford. Ed. Clarendon Press, 1917. Também conforme GINGRICH, F. Wilbur e DANKER, Léxico do Novo Testamento. São Paulo. Ed. Vida Nova, 2007.