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A Mulher Na Igreja – Parte 2

Marcio S. da Rocha
O que significa as mulheres “estarem caladas nas igrejas”, de 1 Coríntios 14.34?

Quando se analisa uma passagem bíblica de modo aprofundado, ou seja, se faz a exegese dessa passagem, inicia-se por estudar suas orígens nos manuscritos mais antigos, bem como verificar qual é sua redação original. Este verso tem gerado polêmicas na igreja há muito tempo, portanto, merece uma análise aprofundada, exegética. Assim, iniciarei por traduzir o verso em pauta de forma mais literal, a partir do próprio texto grego editado pela United Bible Society (Sociedade Bíblica Unida, da qual a Sociedade Bíblica do Brasil é associada). Dessa forma, temos a seguinte tradução:

“Como em todas as congregações dos santos, que as mulheres de vocês façam silêncio nas congregações, pois não lhes é permitido ficar falando, mas que sejam submissas, assim como a Lei diz.” (1 Cor. 14.33b-34. Tradução nossa, diretamente do texto grego editado pela United Bible Society).
Apenas ao traduzir o verso mais literalmente (mais aproximadamente ao original), já se percebe outra nuance contextual. Já se sente que o apóstolo está tentando corrigir algum tipo de falatório desordeiro, inconveniente a qualquer tipo de reunião com várias pessoas. Isto é bem diferente de exigir que as mulheres fiquem caladas o tempo todo nas reuniões da igreja! Aliás, a palavra traduzida como “caladas” em muitas versões brasileiras (Almeida, NTLH, NVI etc.) é a palavra grega sigátosan, cuja raiz (sigao) — segundo o léxico do Strong, além de outros — está mais ligada à “estar quieto”, “estar em silêncio”, ou “estar em paz”. E a palavra grega lalein (estar falando) tem sido traduzida geralmente no infinitivo (“falar”), ao invés do gerúndio, como está no Grego. Apesar de que há uma correlação entre “fazer silêncio” e “ficar calado”, há uma diferença semântica entre as duas expressões. Enquanto a primeira transmite a idéia de quietude, paz, ou, quando muito, de disciplina, a segunda comunica mais fortemente repressão.
Para que o leitor possa avaliar esta minha tradução do verso, em comparação com algumas traduções literais clássicas, observe como a Young’s Literal Translation (Tradução Literal do Young) e a Apostolic Bible (Bíblia Apostólica) o traduzem:
“Your women in the assemblies let them be silent, for it hath not been permitted to them to speak, but to be subject, as also the law saith;” (1 Cor. 14.34.YLT. Grifo nosso).
“Let your women in the assemblies be quiet! For it is not committed to their care to speak, but let them be submitted, as also the Law says.” (1 Cor. 14.34. Apostolic Bible. Grifo nosso).
Verifica-se que a YLT traduz sigátosan como “estejam em silêncio”, e a Apostolic Bible como “estejam quietas”. Já quanto à palavra lalein, as duas a traduzem no infinitivo “falar”. Veja-se então, que o sentido mais próximo do original não é “estejam caladas”, mas sim, “estejam quietas” ou “estejam em silêncio”.
Além disso, há um fato intrigante neste verso, quando se estuda suas orígens textuais. O manuscrito mais antigo existente, que traz este verso é o P46 (Papiro 46, datado de 200 d.C). E este manuscrito, em 1 Cor. 14.34, não traz “porque não é permitido a elas estar falando, mas que sejam submissas” (conforme o Instituto para Pesquisa Textual do Novo Testamento, da Universidade de Muenster, Alemanha — ver http://nttranscripts.uni-muenster.de/). No P46, o texto do verso contém apenas “Como em todas as congregações dos santos, que as mulheres de vocês façam silêncio nas congregações, assim como a Lei diz.”.
Apesar de que a Crítica Textual não é uma ciência exata, ou seja, que não se possa fazer afirmações categóricas sobre se “porque não é permitido a elas estar falando, mas que sejam submissas” foi escrita pelas próprias mãos do apóstolo Paulo ou acrescentada por copistas posteriores, este fato é significativo. Será que o manuscrito mais antigo traz a leitura original e copistas de outras gerações acrescentaram palavras repressoras com relação à mulher? Ou será que somente este manuscrito (P46) contém o “erro” de suprimir aquelas palavras? Em outras palavras, existe uma dúvida quanto à originalidade da frase. Portanto, aqueles irmãos que se posicionam de forma dogmática, insistindo em defender que se deve calar as mulheres nas igrejas, estão se fundamentando em um terreno sem a devida consistência. Portanto, analisando apenas o aspecto textual, no mínimo, a igreja deve tratar a questão como “aberta”, e considerar um “empate técnico” entre as posições que divergem entre proibir as mulheres de falar nas igrejas e permitir que falem. Porém, a exegese da passagem não termina aqui.
Analisando o contexto
O contexto literário imediato que envolve esta passagem trata da necessidade de ordem nas reuniões da igreja, e engloba do verso 14.26 ao 14.40. O contexto mais amplo, no entanto, vem desde o capítulo 12 e vai até o fim do 14. Toda esta unidade textual gira em torno de como usar devidamente os dons espirituais sobrenaturais da profecia e de línguas nas reuniões coletivas de adoração. Não se deve perder esta idéia contextual geral de vista quando se lê o verso 14.34. Lembremos que “um texto fora do contexto é um pretexto”.
As mulheres cristãs da igreja em Corinto estavam, de fato, sendo problemáticas. Além de se recusarem a usar o véu, como era costume nas demais igrejas, ficavam falando desordeiramente nas reuniões de adoração. O verso 14.35 indica que elas estavam fazendo perguntas em voz alta na hora do ensino bíblico, ou pior, discutindo, debatendo com os mestres, como o faziam os homens naquela época em ocasiões de aprendizado. Como todo o contexto de 1 Cor. 12-14 está relacionado ao dom de profecia e ao dom de línguas, é cabível inferir que as irmãs corintianas estivessem falando línguas, muitas ao mesmo tempo, e também que estivessem julgando as profecias proferidas por homens nas reuniões, usurpando assim uma autoridade exclusiva dos presbíteros (homens). O quadro é de uma reunião verdadeiramente “bagunçada”, caótica! O Apóstolo Paulo, cheio do Espírito Santo, exorta, então, aquela igreja a fazer cessar esses comportamentos maléficos. O normal nas igrejas é que haja ordem, e não desordem. Comportamentos desordeiros na igreja não vêm de Deus.
Concentrando-nos na subunidade textual de 1 Cor. 14.26 a 14.40, verificamos que Paulo orientou aos coríntios que todos os irmãos e irmãs podiam participar livremente e ativamente nas reuniões da igreja exercendo os seus dons; porém, com ordem, ou seja, um após o outro. Especialmente com relação ao dom de profecia e ao de línguas, isto deveria ser observado. É importante destacar a esta altura que as mulheres profetizavam e oravam em todas as igrejas do primeiro século. Elas não eram obrigadas a ficar absolutamente caladas nas igrejas, como alguns entendem. Na profecia de Joel, parcialmente cumprida no Pentecoste, Deus já dizia que “Sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e eles profetizarão” (At. 2.18, grifo nosso). Deus não restringe a profecia apenas aos homens; as suas servas (mulheres) não são apenas permitidas, mas são encorajadas a profetizar. O próprio Paulo, na mesma carta, no capítulo 11, verso 5, quando diz: “Toda mulher que ora ou profetiza…” está claramente admitindo que as mulheres podem profetizar e também orar na igreja (e é impossível fazer essas coisas estando caladas – de boca fechada). É importante destacar que Paulo não era incoerente consigo mesmo. Não podia estar, na mesma carta (nem em outra), ora dizendo que as mulheres podiam profetizar e orar, e outrora obrigando-as a ficarem absolutamente caladas nas igrejas. No mesmo capítulo 14, no verso 30, Paulo diz: “todos podereis profetizar”. “Todos” inclui as mulheres cristãs. Além disso, a prática da igreja do primeiro século nos prova que havia mulheres profetizas. A narrativa de Atos (21.8-9), por exemplo, nos diz que Filipe tinha quatro filhas que profetizavam. Também nos diz que as mulheres oravam nas reuniões das igrejas (At. 1.14, 2.42 e 12.12). Concluindo, elas não estavam “caladas”. Suas belas vozes ecoaram no primeiro século, para a glória de Deus e para o bem da igreja.
No primeiro século existia a moderna diferença entre “reuniões da igreja” e “reuniões de pequenos grupos”, nos lares?
É preciso agora desconstruir uma interpretação errônea que alguns levantam hoje em dia, quando afirmam que a maioria dessas passagens do Novo Testamento que tratam da mulher na igreja se refere às reuniões de pequenos grupos nos lares, e não aos “cultos da igreja”. No primeiro século, simplesmente não existiam esses cultos coletivos em templos como as igrejas modernas fazem. O Dr. Russel Shedd, um dos maiores teólogos brasileiros vivos, afirma em sua Bíblia Shedd, no comentário de Rom. 16.5 (p. 1604) que “A igreja local do primeiro século reuniu-se em casas particulares”. Em seu comentário de 1 Cor. 11.20 (p. 1620) diz que “Não havia templos”, referindo-se às igrejas no primeiro século. Também, no seu comentário de Col. 4.15 (p. 1676), diz: “Só no terceiro século encontramos edifícios separados para o culto cristão.” E ainda no comentário de 2 João 1.10 afirma: “As igrejas se reuniam nas casas”. D. A. Carson, um dos maiores exegetas do Novo Testamento, afirma:
“Distinções entre ‘pequenos grupos nas casas’ e ‘igreja’ possivelmente não eram inteligíveis aos primeiros cristãos, que normalmente se reuniam em lares privados. Quando a igreja de uma cidade era grande demais (como certamente eram as de Jerusalém, Antioquia, Éfeso e provavelmente Corinto) para caberem numa acomodação particular, devia ser muito mais difícil, uma vez que havia perseguição, encontrar um lugar público grande o bastante para acomodar todos os crentes daquela cidade. Assim, os grupos nos lares naquela época constituíam as assembléias das igrejas.” (CARSON, D. A. Silent in the Churches in Recovering Biblical Manhood and Womanhood. Crossway Books: Wheaton, Illinois, 1993)
Não citarei mais outros eruditos do Novo Testamento com relação a este tema para não aumentar muito a extensão deste artigo. Mas isto é o bastante para concluir que TODAS as passagens do Novo Testamento que se referem à mulher na igreja estão falando de igrejas nos lares, pois todas as igrejas do primeiro século eram pequenas congregações nos lares. Não havia reuniões em templos no primeiro século (com exceção da igreja em Jerusalém, até o ano 70); então, não há porque querer criar uma “doutrina da mulher na igreja” e outra “doutrina da mulher nos pequenos grupos”.
E então, como entender a frase “que as mulheres façam silêncio” do verso 34?

Uma vez que já ficou claro que as mulheres podiam profetizar, orar, cantar, falar línguas (além de testemunhar, como fez Maria Madalena ao anunciar a ressurreição de Cristo), este verso e seu contexto não obrigam a mulher a ficar “de boca fechada” na igreja.

Então, o que isto significa? Paulo, em 1 Cor. 14.33b-35, está especificamente: (1) proibindo as mulheres de participarem do julgamento das profecias proferidas nas reuniões da igreja. Profetizar é uma coisa. Julgar (analisar) as profecias é outra. As profecias dadas nas igrejas deveriam ser julgadas segundo as Escrituras: “E falem os profetas, dois ou três, e os outros julguem.” (1 Cor. 14.29). E isto era um trabalho principalmente realizado pelas autoridades da igreja (os presbíteros), não sendo permitido, em nenhuma igreja, que fosse feito por mulheres (por isto Paulo diz “Como em todas as congregações dos santos…”). O julgamento de profecias exige grande sabedoria, maturidade e conhecimento bíblico – atributos típicos dos presbíteros (pastores). Além do mais, se as mulheres participassem dos julgamentos das profecias, elas estariam se colocando em posição de autoridade acima dos profetas, inclusive dos profetas homens, e até dos próprios maridos. E isto contraria um princípio eterno da Torá (o Velho Testamento como um todo), que também é uma dóxis-práxis da igreja neo-testamentária – a submissão amorosa das esposas aos seus maridos, “como ao Senhor”. (2) Paulo também está exortando a igreja de Corinto a não permitir que as irmãs falem desordeiramente nas reuniões da igreja, inclusive interrompendo os mestres expositores das Escrituras para lhes fazer perguntas ou para discutir com eles, neste caso desrespeitando suas autoridades. Ao invés disso, o Apóstolo orienta que elas tirem suas dúvidas com os seus próprios maridos, depois das reuniões, quando chegarem em casa. É uma opinião minha que, no caso das solteiras, elas deveriam tirar suas dúvidas com os seus pais. E as viúvas e divorciadas deveriam tirar suas dúvidas com suas irmãs casadas, também em ocasiões reservadas, não nas reuniões da igreja.

Estes dois pontos estão diretamente relacionados à ordem nas reuniões, à autoridade do marido sobre a esposa e à autoridade dos mestres-presbíteros quanto ao ensino bíblico, já que a análise das profecias é uma faceta do ensino escriturístico e implica numa posição de superioridade por parte de quem o realiza, com relação a quem profetiza. A ordem entre pessoas de um grupo visando o bom entendimento é um princípio ético que não está sujeito nem a lugar nem a tempo; portanto, continuará válido para a igreja enquanto existir na terra. A autoridade do marido (cristão) sobre a esposa (cristã) e dos presbíteros quanto ao ensino bíblico coletivo também não é algo condicionado a características culturais regionais, nem a certa época da história (falaremos disso mais aprofundadamente na parte 3 desta série). São princípios bíblicos que também acompanharão as igrejas verdadeiramente cristãs ao longo da história humana.

Concluindo, e aplicando este texto bíblico aqui analisado para os dias de hoje, as restrições à participação verbal das mulheres cristãs durante as reuniões das igrejas são estritamente relacionadas a não falarem desordeiramente, não julgarem profecias e não interromperem nem desafiarem os mestres-presbíteros em sua exposição das Escrituras. Algo bastante sensato. Por outro lado, nossas irmãs possuem toda liberdade (dada por Deus com base nas Escrituras) para orar, profetizar, cantar, tocar um instrumento, ler um salmo, testemunhar, falar línguas (e também traduzí-las) nas reuniões das igrejas. A voz feminina é super bem-vinda e essencial na igreja! Mas, é claro, a livre participação é praticamente impossível em uma reunião com uma multidão, como são os cultos das modernas igrejas institucionais. A mulher cristã de hoje só terá liberdade de participar na igreja conforme o modelo do Novo Testamento nas igrejas orgânicas (nos lares), porque suas reuniões são semelhantes às das igrejas no primeiro século, com poucas pessoas, portanto, permitindo este tipo de participação.

A Mulher Na Igreja – Parte 1

Marcio S. da Rocha

O que este tema tem a ver com igrejas orgânicas? A resposta é que as igrejas orgânicas (ou neo-testamentárias) estão fortemente imbuídas do propósito de por em prática os princípios do Novo Testamento em suas reuniões e nos demais momentos de sua vida coletiva, além de, é claro, incentivar que sejam praticados na vida individual de cada irmão. As igrejas orgânicas buscam o retorno às práticas eclesiais originais / primitivas da igreja do Senhor Jesus (em especial as igrejas primitivas não-judaicas) tanto na doutrina (dóxis) quanto na prática (práxis). Portanto, é importante compreender bem o que as Escrituras Sagradas ensinam sobre as mulheres que pertencem ao Senhor e fazem parte de sua igreja, para que vivamos, como pessoas, como famílias e como comunidade, vidas que agradam a Deus – que vivem segundo a sua Palavra. Outro motivo pelo qual este tema deve ser bem analisado pelas igrejas orgânicas é que suas reuniões são participativas, o que faz com que necessariamente haja nelas a ativa participação feminina.
Dois extremos a evitar
Na análise sobre o que o Novo Testamento ensina a respeito das mulheres na igreja, é preciso evitar dois extremos hermenêuticos errôneos: (1) desprezar o contexto histórico-cultural da passagem/livro; (2) partir do preconceito de que Paulo era machista.
“Um texto fora do contexto é um pretexto.” (ditado popular)
Todos os livros da Bíblia possuem um contexto histórico-cultural próprio. Desprezá-lo implica necessariamente em entender (interpretar) a Bíblia de forma errada. Há muitos casos em que o erro de interpretação se torna um pretexto para atribuir ao escritor bíblico uma mensagem que ele nunca intencionou transmitir. Considerar o contexto não é o mesmo que relativizar a Palavra de Deus. Ao contrário, considerar o contexto histórico-cultural se constitui na base para a compreensão adequada dos textos bíblicos.
A inspiração divina da Bíblia consiste essencialmente em seus princípios. Assim, a interpretação da Bíblia deve visar ultimamente perceber, entender e praticar os princípios eternos e divinos que nela estão transmitidos. Os princípios são eternos; certos preceitos podem não ser. Os princípios estão embutidos nos preceitos. Os princípios bíblicos não podem ser relativizados historicamente/culturalmente; certos preceitos (leis/mandamentos e recomendações/instruções apostólicas) podem. Por exemplo, as leis cerimoniais do Antigo Testamento não fazem o menor sentido hoje nem para os judeus, quanto mais para cristãos gentios (não-judeus). Especificamente, algumas instruções apostólicas foram endereçadas a certas comunidades cristãs do primeiro século que praticavam, como qualquer outra, um conjunto de costumes locais, não praticados por outras. Algumas instruções visavam, portanto, orientar o bom uso desses costumes locais de modo que aquela comunidade glorificasse a Deus em seus procedimentos, dando um bom testemunho para a cidade onde se encontrava. Os princípios que regem essas instruções apostólicas é o que se deve observar hoje e sempre. É por isso que as leis são renovadas, revogadas, substituídas por outras, enquanto que os princípios que as geraram se mantém firmes e inabaláveis ao longo do tempo, sendo perpetuados nas novas leis. Desprezar o contexto é um extremo errôneo a ser evitado por quem busca sinceramente compreender a vontade de Deus revelada nas Escrituras.
Paulo era machista?
É verdade que o machismo era predominante na cultura não cristã do primeiro século – época em que foram escritos todos os livros do Novo Testamento. E isto era absolutamente verdadeiro também com relação à cultura judaica. No entanto, concluir, a partir disto, que Paulo era machista é passar dos limites!
Quem era Paulo? Lembremos que nosso irmão Paulo (depois de convertido) era um homem cheio do Espírito Santo! Paulo era profeta (At. 13.1). O Espírito Santo o escolheu, juntamente com Barnabé, na igreja de Antioquia da Síria, para ser apóstolo – para levar o Evangelho mundo afora (At. 13.2). Paulo, maravilhosamente, não foi evangelizado por homem nenhum, nem por nenhum dos doze discípulos de Jesus, mas pelo próprio Senhor Jesus, por revelação divina! (Gal. 1.12). Certa ocasião, ele foi levado misteriosamente ao “terceiro céu” – a morada do próprio Deus (2 Co. 12.2). Passou por torturas horríveis em sua vida cristã por causa do Evangelho e também por situações difíceis, como um naufrágio no Mar Mediterrâneo (2 Cor. 11.25). No fim da vida, sentia que havia cumprido plenamente a sua carreira apostólica, sem se desviar da fé (2 Tim. 4.7). Pedro, um dos principais líderes do Cristianismo do primeiro século, reconhecia que os escritos de Paulo – suas cartas – eram Escritura, tinham tanta autoridade quanto os livros do Antigo Testamento (2 Pe. 3.16).
Com um perfil desses, não dá para imaginar que Paulo fosse um chauvinista, um mau caráter que procurava exercer domínio e controle sobre as mulheres para tirar vantagem por causa de seu gênero sexual. Sobretudo, porque um homem cheio do Espírito Santo é alguém cheio de amor, paz, alegria, bondade, benignidade, mansidão, domínio próprio (Gal. 5.22). É assim que devemos imaginar ter sido o irmão Paulo. Isto não combina com machismo. Achar que Paulo era machista é, portanto, um erro grosseiro de hermenêutica bíblica. Além disso, esse breve perfil apresentado acima nos lembra porque as igrejas cristãs primitivas guardaram as cartas de Paulo como Escrituras. Ele tinha autoridade interior, reconhecida por todos os cristãos verdadeiros de sua época.
A questão da cabeça coberta pelas mulheres em Corinto
É muito provável que o uso de uma cobertura na cabeça pelas mulheres[1], no primeiro século, não fosse um costume apenas na igreja em Corinto, mas que fosse praticado em todas as igrejas sob a liderança dos apóstolos. Paulo diz em 1 Cor. 11.16: “Mas se alguém quiser fazer polêmica a esse respeito, nós não temos esse costume, nem as igrejas de Deus.” Isto indica que em todas as igrejas cristãs que estavam sob a liderança dos apóstolos, no primeiro século, as mulheres geralmente usavam algo em suas cabeças, nas reuniões[2], e que não havia debates sobre esse costume entre as igrejas. Na igreja de Corinto, isoladamente, as irmãs estavam se recusando a fazer isto. Por isto Paulo escreveu aos irmãos de lá, exortando-os a não serem diferentes das demais igrejas das outras cidades, quanto às práticas e tradições eclesiais. Aquelas irmãs de Corinto, ao não usarem uma cobertura na cabeça nas igrejas (nos lares), sinalizavam que seus maridos não tinham autoridade sobre elas; elas estavam assim desonrando as suas cabeças (seus maridos), e destoando das demais igrejas no mundo da época.
Este costume da cobertura na cabeça das mulheres com xales e véus provavelmente foi herdado do Judaísmo, embora tenha sido um pouco alterado em seu significado, pela igreja. No Judaísmo veterotestamentário, uma espécie de xale era usado pelas mulheres casadas não só nas assembléias religiosas, mas em todos os lugares fora de casa, e era um sinal de fidelidade ao marido. Em outras palavras, uma mulher andando publicamente com cabelo solto era solteira ou… adúltera. No Mishná está escrito que se uma mulher casada se vestisse e se comportasse inadequadamente em público (como se fosse solteira) e se usasse o cabelo solto (sem cobertura), era considerada transgressora da Lei de Moisés e do costume judeu! (ver Ketubot 7.6, conforme David H. Stern,  em sua obra “Comentário Judaico do Novo Testamento”, p. 513). Eles assim entendiam com base em Números 5.18. Na sua carta aos coríntios, Paulo afirma que o uso de cobertura na cabeça pelas mulheres nas reuniões eclesiais era um sinal de submissão (1 Cor. 11.10). Quando a mulher cristã do primeiro século usava algo sobre sua cabeça nas reuniões da igreja, ela sinalizava para todos os presentes que era submissa ao seu marido, à sua igreja e acima de tudo… à Cristo. Por outro lado, não usar cobertura na cabeça indicava insubmissão.
A fim de demover a igreja de Corinto de se comportar de forma diferente das demais igrejas nesta questão da cobertura na cabeça das mulheres, Paulo usou primeiramente o argumento, em estilo silogístico, da submissão voluntária de Cristo a Deus-Pai, dos homens cristãos a Cristo e das esposas cristãs aos seus maridos (1 Cor. 11.3). Com isto mostra que não é desonra alguém se submeter a outro voluntariamente por amor. Cristo, sendo igual a Deus-Pai em tudo, submeteu-se a Ele, por amor, para glorificá-lo. Da mesma forma, os homens cristãos se submetem voluntariamente a Cristo, como escravos, por amor a Ele. E as esposas deveriam fazer o mesmo com relação aos seus maridos, também por amor, e para respeitar os anjos, sempre presentes invisivelmente (para nós) nas reuniões das igrejas. Além disso, no seu intento, Paulo apela para a primazia da imagem de Deus no homem macho, quando da criação (talvez remetendo a Gen. 1.26), e também apela para a natureza, num sentido especificamente cultural local, de que naquelas regiões mediterrâneas era desonroso (talvez efeminado) para o homem usar cabelo comprido como também era desonroso a mulher usar cabelo curto, como de homem. O voto do nazireado entre os judeus, em que os homens votantes deixavam o cabelo crescer, era talvez uma exceção a esta regra de conduta social de homens terem cabelos mais curtos.
Como se vê, o costume da cobertura na cabeça das mulheres era, portanto, não apenas corintiano-local. É possível e bem provável que em todas as igrejas, até na igreja de Roma (uma igreja ocidental, não grega nem palestina), as irmãs casadas usassem véu nas reuniões das comunidades cristãs da cidade.  Contudo, este costume não pode ser considerado atemporal – e nem é em si um mandamento divino. Este costume da cobertura na cabeça das mulheres para participarem das reuniões da igreja é o que é: um costume das igrejas do primeiro século na Palestina e na Grécia. “Tanto na antiga sociedade semita quanto na sociedade grega tardia, as mulheres castas usavam seu cabelo preso ou debaixo de um véu…” (Stern, 2007. p. 514).

Este hábito, entretanto, não perdurou ao longo dos séculos nas igrejas cristãs, a não ser com raras exceções. Há um verso no início do texto em pauta que é chave para se perceber que o uso de cobertura na cabeça pelas mulheres era um costume, uma tradição (portanto, temporal): “Eu os elogio por se lembrarem de mim em tudo e por se apegarem às tradições exatamente como eu as transmiti a vocês.” (1 Cor. 11.2. Grifo nosso). Tradições mudam. Princípios e mandamentos divinos não.

Porém, se as mulheres usarem algo na cabeça para orar e profetizar era uma tradição e não um mandamento, onde está o princípio bíblico eterno nesta questão da cobertura na cabeças das irmãs? Está na mulher cristã ser submissa ao seu marido por amor, bem como à sua igreja, a Cristo e a Deus. As irmãs casadas só devem “orar e profetizar” nas reuniões das igrejas sob a autoridade de seus maridos. Do contrário, violam este princípio e aí, sim, desobedecem a Deus. Esta é a essência. E a mulher cristã demonstra submissão ao seu marido hoje em dia, no mundo ocidental, não usando algo na cabeça, mas vestindo-se recatadamente, usando uma aliança num dedo da mão esquerda, comportando-se como mulher casada, adereçando-se modestamente, e praticando boas obras “como convém às mulheres santas”. É este o princípio que está embutido na questão do véu. Não é um mandamento de Deus que as irmãs casadas usem véu hoje em dia nas reuniões das igrejas. No entanto, é princípio eterno que elas sejam submissas aos seus maridos, por amor, primeiramente a Cristo, e depois aos seus maridos e à igreja do Senhor; e as solteiras, submissas aos seus pais e aos líderes da igreja. Enfim, que sejam, como diz Paulo, mulheres santas. Esta é a vontade eterna do Senhor para as irmãs em Cristo.

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Notas:

[1] Na língua original (Grego Koiné), o texto de 1 Coríntios 11.1-16 não contém a palavra “véu”. Esta palavra não aparece nem no verso 5, nem no 6, nem no 10, nem no verso 13, no texto Grego (em nenhum  manuscrito antigo!) do capítulo 11. O João Ferreira de Almeida traduziu as expressões gregas akatakal uptô (sem cobertura); ou katakal uptetai (descoberta) como “sem véu” e a palavra exousian (autoridade) como “véu”. Este vício de tradução induziu a uma ênfase no objeto véu, enquanto percebe-se que o apóstolo enfatiza no texto é a questão da autoridade do marido sobre a esposa e não o objeto em si. A versão NVI traduziu melhor este texto para o Português.

[2] Quanto a especificamente “o que” as mulheres cristãs do primeiro século usavam para cobrir suas cabeças, é impossível saber hoje com exatidão. No entanto, é mais provável que Paulo estivesse se referindo a um xale do que a um véu, pois o xale não encobre o rosto da mulher, enquanto o véu o encobre, total ou parcialmente. William Coleman, em seu livro “Manual dos Tempos e Costumes Bíblicos” (Ed. Betânia, 1991, pp. 98 e 99) afirma que há poucos casos em que mulheres hebraicas usaram véus, e que o véu é pouco mencionado na Bíblia.

As Patologias Crônicas Das Igrejas Institucionalizadas – Parte 4

As Igrejas Emergentes
Marcio S. da Rocha

Nos últimos anos, o movimento chamado Igreja Emergente tem surpreendido o mundo cristão, especialmente nos Estados Unidos. Igreja Emergente é um movimento que se intitula cristão, cujos participantes procuram integrar as atuais pessoas sem igreja, que possuem uma mentalidade pós-moderna. O website ehow.com define este movimento da seguinte maneira:
“A Igreja Emergente é um movimento cristão que procura renovar o Evangelho no mundo, enfatizando aspectos da fé que têm sido perdidos ou corrompidos na igreja moderna. Eles focam na narrativa, ao invés da Teologia proposicional; na vida comunitária ao invés da vida individualista, e nas práticas coletivas, ao invés do ensino doutrinário.”
Suas características principais são:
Abordagens altamente criativas para a adoração e reflexão espiritual. Pode envolver o uso de música contemporânea (secular) e filmes nos cultos, além das tradições litúrgicas antigas;
Teologia flexível. Diferenças de crenças e moralidade são aceitas sem discussão – mesmo aquelas crenças consideradas essenciais;
Concepção mais “holística” sobre o papel da igreja na sociedade. Isto passa por uma grande ênfase na estrutura comunitária do grupo, e na ação social;
Reinterpretação da Bíblia em contraste com o contexto no qual ela foi escrita, procurando perceber e definir onde seus princípios são aplicáveis à sociedade pós-moderna e onde não são.
A Igreja Emergente é uma “bolsa de mulher” – dentro tem muita coisa misturada. Além das características relacionadas acima, existe no movimento muita conversa sobre comunidade, sobre ser missionário, sobre liberar os leigos, sobre a natureza tri-úna de Deus, sobre rejeitar a forma tradicional de ser e fazer igreja, e sobre como abraçar um novo paradigma para o corpo de Cristo. Estas últimas podem ser caracterizadas como o lado positivo deste movimento.
Minha crítica negativa à Igreja Emergente consiste no fato de que, quando se trata da autêntica expressão da igreja do Senhor – a vida dos cristãos no primeiro século – os emergentes têm apenas perifericamente a praticado. O velho odre, inventado há mais ou menos 500 anos atrás, quando da Reforma Protestante, tem sido deixado inalterado, intocado.
O uso de edifícios-templo “sagrados”, os cultos baseados em sermões, o sistema clerical e o ministério pastoral continuam sendo praticados nas igrejas emergentes sem qualquer alteração, mesmo entre aqueles que defendem a desconstrução da face da igreja moderna. Muitos na igreja emergente ainda acreditam que cada igreja precisa de um pastor, assim como cada empresa precisa de um chefe.
Os cultos das igrejas emergentes não diferem em praticamente nada das demais igrejas institucionalizadas. Começam com música da equipe de louvor; anúncios são feitos; é cantada uma música especial; o pastor prega um sermão para uma audiência passiva; são levantadas ofertas para a manutenção dos prédios e do pastor e seu staff. A única coisa diferente neles são as gravuras modernas nas paredes, o aparato tecnológico audio-visual high tech e a linguagem pós-moderna que empregam. Fora isto, o restante é exatamente igual ao que você encontrará numa típica igreja protestante ou evangélica.
Parece que muitos cristãos ainda desejam manter, com unhas e dentes, a “vaca sagrada” do ofício pastoral e do ritual protestante dominical. Independente de quão bíblicas essas tradições religiosas sejam, elas parecem ser intocáveis, mesmo para os pensadores mais radicais.
A “igreja emergente”, enfim, é apenas mais uma igreja institucionalizada, protestante, cujas práticas são enraizadas na Reforma do Século XVI, e não no Novo Testamento.
Neste ponto, levanto a seguinte reflexão: qual a base bíblica neo-testamentária para este ritual protestante que já perdura 500 anos? O que justifica os cristãos de hoje se agarrarem tão fortemente a essas tradições não apostólicas pós Idade Média, ao invés das tradições do primeiro século?
A igreja – o conjunto dos cristãos na terra – precisa aceitar o desafio de buscar funcionar sob a direção direta de Jesus Cristo (o único Cabeça), sem mediação nem controle humano. Se não sabemos como fazer isto, precisamos ser humildes e trazer alguém que nos equipe para viver isto… e ver o que acontece.