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A Tradição dos Apóstolos – Parte 1

Marcio S. da Rocha



“Tradição é a viva fé dos que já morreram, e tradicionalismo é a fé morta dos que ainda vivem.” Jaroslav Pelican

Ao longo da história da igreja, alguns ensinamentos e práticas estranhos ao Novo Testamento foram sendo introduzidos no Cristianismo, a título de “tradição dos apóstolos”. Há igrejas que se consideram sucessoras dos apóstolos, atribuindo aos seus líderes uma espécie de transmissão apostólica monárquica, geração após geração. A partir disto, os seus membros passaram a considerar cegamente que todo ensino e toda forma de adoração praticada ou ordenada pelos seus líderes é aprovada por Deus, e representa uma continuação da tradição dos apóstolos. Há aquelas que ensinam que a tradição apostólica é o conjunto dos hábitos e doutrinas que vêm sendo transmitidos somente de forma oral – não escrita. Há também igrejas (em especial as protestantes históricas) que transformaram algumas formas peculiares de cultuar a Deus em tradições, passando a defendê-las como algo tão sagrado quanto a Bíblia. E também há comunidades e denominações cristãs que passaram a ver a palavra “tradição” como um verdadeiro pecado, rejeitando tudo o que possa assim ser rotulado, e adotando comportamentos e formas de adorar mais modernos, que se distanciam do que lemos no Novo Testamento (ironicamente, tais igrejas que se acham livres da influencia da tradição criaram as suas próprias tradições).


O que se percebe, então, nesse quadro, é que tem sido dada muita atenção às tradições eclesiásticas dos homens, enquanto que pouca ou quase nenhuma atenção tem sido dada à tradição divina, transmitida pelos próprios apóstolos do Senhor Jesus, e constante no Novo Testamento.


O que é a tradição dos apóstolos?


É importante primeiramente saber o que não é a tradição dos apóstolos. Nas palavras de Frank Viola, “Tradição apostólica não é um código de regras de comportamento que os apóstolos criaram. Também não é um manual de prática da igreja” [1]. A verdade é que tal código e/ou manual não existem. Mesmo aqueles que tentaram sistematizar a tradição dos apóstolos a partir do Novo Testamento para criar uma “igreja apostólica” terminaram por fundar igrejas tendentes a certas práticas e doutrinas, em detrimento de outras. Existem igrejas, por exemplo, que focalizam na pratica da Ceia do Senhor; outras na pluralidade de presbíteros na liderança de uma igreja local; outras enfatizam línguas, sinais e maravilhas; outras batizar pessoas convertidas; outras enfatizam se reunir nas casas (ao invés de em edifícios eclesiásticos). A lista dos diversos tipos de igrejas caracterizadas pela ênfase em certas práticas neotestamentárias é longa.


Nunca é demais lembrar que a igreja é um organismo vivo, não uma organização – uma “pessoa jurídica”. Portanto, sistematizar e imitar formalmente as práticas do Novo Testamento não transforma um grupo de pessoas numa igreja cristã. As ações devem ser o resultado da fé, sua expressão material natural, e não um sistema de regras para serem seguidas. As práticas de uma igreja expressam o que ela é em sua essência.


Não se está dizendo aqui que o Novo Testamento não deve ser consultado acerca de prática de igreja. Ao contrário. É nele que está registrada a expressão da igreja viva e inspiradora do primeiro século, e hoje é a única fonte escrita confiável que temos, da tradição dos apóstolos. Porém uma coisa é certa: o Espírito Santo nunca nos guiará a uma ortodoxia fria e morta, baseada na imitação de formas externas. Ele produzirá o seu fruto na vida dos crentes (Gal. 5.22), e o Novo Testamento deve servir-nos como um critério para “auditarmos” se certas práticas são ou não aprovadas por Deus. O Novo Testamento é o nosso padrão em termos de fé e de prática. Em outras palavras, se certas pessoas ou grupos que se dizem cristãos praticam certas ações (sejam nas suas reuniões de adoração coletiva ou sejam nos comportamentos individualizados de seus membros) que não possuem respaldo no Novo Testamento, tais práticas não são fruto do Espírito Santo, e sim da natureza humana. São invenções produzidas por férteis mentes humanas, baseadas muitas vezes na imitação da cultura ou do “velho odre” do judaísmo, e não são resultantes da ação do Espírito Santo.


Todas as práticas eclesiais modernas que não são encontradas no Novo Testamento (por exemplo, clérigos assalariados, hierarquias, edifícios eclesiásticos, liturgias fixas, dízimo, programas de qualidade e excelência administrativa, etc.) não estão conforme a tradição dos apóstolos.


Definindo, enfim, a tradição dos apóstolos é o conjunto das práticas da igreja do primeiro século, das estórias e ensinamentos de Jesus Cristo retransmitidos pelos seus apóstolos (encontrados nos evangelhos canônicos), e dos hábitos de vida e ensinamentos dos próprios apóstolos, repassados à todas as igrejas de sua época, hoje disponíveis apenas nas cartas do Novo Testamento.


Qual a importância da tradição dos apóstolos para a igreja de hoje?

Para se ter uma idéia da importância da tradição apostólica na igreja, observe-se como o apóstolo Paulo tão fortemente estimula os irmãos a observarem-na, tal qual transmitida e vivida por ele e por seus companheiros:


“Rogo-vos, portanto, que sejais meus imitadores. Por isso mesmo vos enviei Timóteo, que é meu filho amado, e fiel no Senhor; o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo, como por toda parte eu ensino em cada igreja.” (1 Cor. 4.16-17 ARA)


“Ora, eu vos louvo, porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais os preceitos assim como vo-los entreguei.” (1 Cor. 11.2 ARA)


“Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem tampouco as igrejas de Deus.” (1 Cor. 11.16 ARA)


“Assim, pois, irmãos, estai firmes e conservai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa.” (2 Tess. 2.15 ARA)


“Mandamo-vos, irmãos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebestes. Porque vós mesmos sabeis como deveis imitar-nos, pois que não nos portamos desordenadamente entre vós,” (2 Tess. 3.6-7 ARA)


Além de estimular a guarda da tradição apostólica, Paulo combatia duramente as comunidades cristãs plantadas por ele que dela se afastassem – aquelas que enfatizassem apenas algumas práticas e fizessem disto uma espécie de identidade própria. Dessa forma ele e os demais apóstolos modelaram todas as igrejas do primeiro século, segundo o padrão de suas próprias vidas. A uniformidade nas práticas de todas as igrejas no primeiro século era levada tão a sério que um desvio da tradição apostólica por uma determinada igreja era tratado com bastante dureza, e insistir nisto era motivo de exclusão da comunidade:


“Acaso a palavra de Deus originou-se entre vocês? São vocês o único povo que ela alcançou? Se alguém pensa que é profeta ou espiritual, reconheça que o que lhes estou escrevendo é mandamento do Senhor. Se ignorar isso, ele mesmo será ignorado.” (1 Cor. 14.36-38 NVI)


Observando passagens como esta, podemos inferir que o moderno denominacionalismo seria considerado pelos apóstolos como uma praga dentro do Cristianismo, a ser combatida energicamente. As denominações de hoje são exatamente o que Paulo combatia – grupos separados entre si por aderir a certos líderes e/ou por enfatizar certas doutrinas e práticas.


A tradição dos apóstolos, tal qual se encontra no Novo Testamento é essencial para a igreja hoje, e sempre será. Jamais deve ser vista como narrativa irrelevante, como o comportamento de irmãos que viveram no passado, e que não pode mais ser revivida. As práticas apostólicas podem e estão sendo revividas por diversas comunidades de irmãos hoje, que se cansaram do cristianismo institucionalizado. É preciso ressaltar que não estamos falando de vestir togas, mantos e túnicas, nem de calçar sandálias de couro à moda do primeiro século, ou de se reunir nas lajes de fôrro das casas. Entre as práticas da igreja do primeiro século que podem ser revividas hoje e sempre, podemos citar: reuniões participativas nos lares dos irmãos; compartilhamento de refeições; vida em comunidade; suprimento de necessidades (materiais e emocionais) uns dos outros; canções de adoração; orações; pregação do Evangelho aos incrédulos; sacerdócio universal dos crentes; batismos; Ceia do Senhor; liderança da comunidade local por meio de um conselho de anciãos, e outros (1 Cor. 14.26-27; Atos 2.41-46; At. 9.18; 10.47; 20.7; Gal. 3.27; Rom. 16.5; 1 Cor. 11.23-28; 16.19; Col. 4.15; Fil. 1.2; 1 Cor. 1.21; Rom. 12.15; Rom. 15.30; Cl. 4.12; Tg. 5.16; 1 Tim. 2.1; Ef. 5.19; Col. 3.16; etc.).


Essas são algumas das práticas que, juntamente com os ensinamentos, fazem parte da tradição dos apóstolos. Compõem a expressão do organismo vivo que é a igreja de Jesus Cristo. Caracterizam seu estilo de vida na terra, impelido pelo próprio Espírito Santo. São suficientes, não necessitando ser acrescidas de práticas advindas da cultura humana ou do Judaísmo. Devem ser observadas e vividas pela igreja, pois são essenciais a qualquer tempo e lugar onde existir povo de Deus.


[1] Viola. Frank. F. Reimagining Church. Nashville: David. Cook, 2008. P. 243.