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A Tradição dos Apóstolos – Parte 2 – Final

Teologia e Prática
Marcio Rocha


 Guardar as tradições dos apóstolos não é simplesmente imitar todas as práticas da igreja do primeiro século. Se fosse assim, teríamos que nos reunir nos andares superiores das casas com velas e candeeiros (Atos 20.8), lançar sortes para apontar líderes (Atos 1.26), subir nas lajes de cobertura ou telhados das casas para orar (Atos 10.9), e ainda teríamos que falar aramaico antigo, e nos vestirmos como as pessoas do primeiro século, com togas e sandálias de couro de amarrar na perna (se bem que sandálias de couro semelhantes as do primeiro século são usadas hoje em dia por homens e mulheres!)

Porém, ao invés disso, guardar as tradições apostólicas significa ser fiel ao que era teologica e espiritualmente significante na experiência da igreja no primeiro século. É praticar as ações da igreja do primeiro século que não são culturalmente condicionadas. Em outras palavras, é necessário fazer uma separação entre as práticas da igreja derivadas da cultura secular do primeiro século, e as práticas da igreja do primeiro século inspiradas pelo Espírito Santo. Enquanto as primeiras estão relacionadas a aspectos exteriores, temporais e locais, tais como Arquitetura e Engenharia, vestimentas, comida, ferramentas, utensílios e instrumentos da época, as segundas são atemporais; são expressões da presença do Espírito Santo na vida dos crentes. Depois de separá-las, aí sim, é importante praticar, observar, guardar aquelas práticas coletivas e individuais da igreja do primeiro século que expressam a ação do Espírito Santo na vida daqueles irmãos, aquelas não condicionadas à cultura do primeiro século.

As tradições apostólicas encarnam o ensino apostólico[1]. E aqui vão alguns exemplos de tradições apostólicas atemporais, não condicionadas à cultura da época:


  • Reuniões participativas. Esta prática está solidamente baseada na doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes, e no funcionamento de cada um dos membros do Corpo de Cristo. Ela expressa a mutualidade e o altruísmo que existem na própria Trindade Divina. Os cultos onde somente alguns ministram e os demais são passivos ouvintes violam estas doutrinas tão bem estabelecidas no Novo Testamento.
  • A Ceia do Senhor como uma refeição. Esta prática enfatiza a centralidade do Senhor Jesus Cristo e o relacionamento pactual que possuem os crentes em Cristo. A Ceia do Senhor praticada como um frio ritual agride esses princípios.
  • Reuniões nos lares. Esta prática encarna o ensino bíblico de que a igreja é uma comunidade face-a-face, uma família estendida, engajada no compartilhar e na edificação mútua. Embora ocorressem eventualmente celebrações com um maior número de pessoas em locais públicos, era nas reuniões nos lares onde a igreja como família de Deus era praticada.
  • A unidade da igreja local. O Novo Testamento ensina que só existe um corpo. Além disso, a unidade da igreja local expressa a doutrina da unidade na diversidade que o Pai, o Filho, e o Espírito Santo compartilham na Trindade. A tradição dos apóstolos não admitia divisões baseadas em interpretações diferentes de certas doutrinas — como fazem as denominações de hoje. A única identidade específica que uma igreja do primeiro século tinha era a geográfica. As igrejas eram o conjunto dos crentes da cidade — a igreja da cidade, formada pelos diversos grupos que se reuniam nos lares. Fazendo uma contextualização, como os bairros das grandes cidades atuais são do tamanho das cidades do primeiro século (ou até maiores do que elas), pela tradição apostólica, hoje só deveria haver uma igreja em cada bairro — a igreja do bairro.
  • A liderança plural e servidora, por meio de presbíteros. A liderança plural das igrejas expressa a própria Trindade Divina. Não há um só caso de pastor-chefe no Novo Testamento. As pessoas confundem a liderança individual temporária e comissionada de um apóstolo (como Timóteo e Tito) em uma igreja, com a liderança colegiada (presbíteros), permanente e posterior, que existia em cada igreja do primeiro século, quando ela atingia a maturidade. A ausência de um líder superior aos demais (hierarquia) encarna a teologia de que Jesus Cristo é o (único) Cabeça da Igreja, e o único mediador entre Deus e os homens.

Certamente há outras práticas atemporais da igreja do primeiro século não comentadas aqui, tais como o apostolado — o envio e o sustento de alguns irmãos itinerantes para plantar novas igrejas; o testemunho do evangelho; a missão social da igreja; o batismo de novos convertidos; o treinamento de novos plantadores de igreja, são alguns outros exemplos.


Como Paulo, o apóstolo, disse (1 Cor. 14.37), aqueles que são espirituais aderirão à tradição apostólica — às práticas atemporais da igreja do primeiro século.


Lamentavelmente, a tradição dos apóstolos tem sido desprezada hoje em dia. Ela é incrivelmente tida como irrelevante por muitos que se dizem cristãos hoje em dia. Ao contrário, as igrejas contemporâneas valorizam as tradições dos homens.


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[1] VIOLA, Frank. Reimagining Church. Ed. David Cook: Nashville, 2008. P. 248.