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As Práticas das Igrejas Orgânicas – Iniciando Uma Igreja Orgânica (No Brasil) – Parte 2 – Princípios Neotestamentários de Plantação de Igrejas

Por Marcio S. da Rocha.



Nesta segunda parte, vamos refletir sobre como as igrejas surgiam no primeiro século, e como isto se aplica a nós hoje.

 

 
Princípios de Nascimento de Igrejas Constantes no Novo Testamento
 
As igrejas narradas no nosso Novo Testamento surgiram segundo um padrão metodológico tríplice. Ou foram plantadas por um apóstolo e sua equipe (ou por pessoas treinadas por eles), ou surgiram a partir da divisão de uma igreja existente (por esta ter crescido muito e não caber mais em um lar), ou eram iniciadas em determinado local quando alguns irmãos de uma ou mais igrejas vinham de outra(s) localidade(s) e mudavam residência para lá, e ali estabeleciam uma comunidade-igreja. As três maneiras pelas quais as igrejas do primeiro século nasciam podem ser metaforicamente comparadas ao germinar e ao crescer orgânico de plantas e vegetais: plantação, reprodução por divisão celular, ou transplante.
O autor Frank Viola classifica os modos de nascimento das igrejas narrados no Novo Testamento em quatro modelos: o Modelo de Jerusalém; o Modelo de Antioquia; o Modelo de Éfeso; e o Modelo de Roma[1]. Contudo, pode-se perceber que nesses quatro modelos estão presentes os três métodos orgânicos de nascimento de igrejas aqui citados.
 
Em Jerusalém, bem como em diversas cidades de Israel, os apóstolos plantaram a igreja durante alguns anos, e ela se reproduziu grandemente nas cidades, por divisão celular. Quando surgiu a perseguição por parte dos Judeus, a maioria dos irmãos saiu das cidades israelenses, principalmente de Jerusalém, e foram morar em cidades de outros países, iniciando nelas novas comunidades de discípulos. Ocorreu, assim, em Jerusalém, plantação, e depois, um transplante não intencional.
 
Muitos discípulos que saíram de Jerusalém e de outras cidades israelenses se estabeleceram em Antioquia da Síria, que se tornou então a maior igreja da região. Uma vez estabelecida em Antioquia, a igreja desta cidade enviou obreiros para plantar novas igrejas em cidades na Ásia Menor (hoje Turquia), na Grécia, na Macedônia, e em outras cidades na Europa – o mundo gentílico. Pode-se perceber que em Antioquia, a igreja surgiu por transplante, e depois enviou apóstolos para plantarem novas igrejas.
 
O apóstolo Paulo plantou a igreja em Éfeso e lá alugou uma escola (a escola de Tirano[2]) para ensinar o evangelho e formar novos obreiros apostólicos. Esses obreiros[3], treinados e enviados por Paulo, ou seja, apóstolos delegados pelo apóstolo Paulo, plantaram igrejas em cidades próximas a Éfeso. Desta forma, em Éfeso houve plantação, e as igrejas geradas pela igreja de Éfeso surgiram também por plantação, porém feita de modo delegado.
 
É muito provável que a igreja de Roma, originalmente, tenha nascido quando alguns judeus que moravam em Roma foram a Jerusalém para a Páscoa e Festa dos Pães Asmos, e lá ouviram a pregação de Pedro (Atos 2.14-40); convertendo-se, voltaram para Roma e lá estabeleceram uma comunidade de discípulos. Entretanto, em 49 d.C. o Imperador Romano Claudius emitiu um édito proibindo a prática do Cristianismo na cidade (Atos 18.12). Isto fez com que os judeus-cristãos da cidade migrassem para outras cidades do império. Tudo indica que o casal Áquila e Priscila fossem originalmente de Roma, e estavam entre os irmãos que migraram para Éfeso por causa desta perseguição. Quando este édito foi revogado, em 54 d.C, acredita-se que muitos cristãos que haviam migrado para outras cidades, retornaram para Roma e reestabeleceram a igreja lá. No capítulo 16 da carta de Paulo aos Romanos, escrita em 57 d.C., ele saúda diversos irmãos de Roma que antes integravam igrejas em outras cidades do império, muitos deles de Éfeso, inclusive Áquila e Priscila (observe que Paulo ainda não tinha estado em Roma e já conhecia pessoalmente esses irmãos). Assim, a igreja original de Roma foi (muito provavelmente) plantada por meio da pregação de Pedro, e, em sua segunda formação (ou no seu reinício), ela foi estabelecida por meio de transplante intencional de irmãos vindos de outras cidades.
 
Contextualização dos Princípios Neotestamentários de Plantação de Igrejas Para a Presente Geração
 
A correta interpretação das Escrituras consiste em verificar o significado de sua mensagem para os primeiros ouvintes, dentro do seu contexto histórico-gramatical, extrair daí os seus princípios eternos, e depois aplicar esses princípios de modo contextualizado para cada época ou geração. Os princípios constantes nas Escrituras são oriundos do próprio Deus, e se forem aplicados em nossa geração, produzirão os resultados que Deus espera, que lhe agradam – a sua vontade.
 
Assim, devemos buscar aplicar os princípios orgânicos de plantação de igrejas constantes no Novo Testamento, se quisermos sinceramente plantar igrejas segundo o coração de Deus.
 
Mas, Hoje Existem Apóstolos?
 
Sim e não. No sentido literal da palavra Grega, um “apóstolo” é alguém que foi enviado. Cada vez que uma igreja envia um obreiro para plantar uma nova igreja ou apoiar uma igreja já estabelecida, este é um apóstolo. Neste sentido, sempre existiram e ainda existem os apóstolos na história da igreja. Por outro lado, se considerarmos esta palavra no sentido de “testemunha ocular” de Jesus Cristo, obviamente não existem mais apóstolos. E ainda, se alguém utiliza esta palavra “apóstolo” como um cargo ou um título autoritário-hierárquico, pode-se dizer que este não é um apóstolo segundo a Bíblia.
 
Para ser um obreiro enviado, segundo o Novo Testamento, um irmão precisa ter sido vocacionado por Deus para esta missão, precisa ser enviado por uma igreja, ou ter sido treinado e enviado por outro obreiro, como aqueles que Paulo treinou em Éfeso. Antes precisa possuir boa experiência na caminhada com o Senhor, bom conhecimento da Palavra de Deus, e alguns anos de comunhão numa comunidade local. Assim ele estará apto a plantar a semente que é o Evangelho de Jesus Cristo em um novo local, e a ajudar a reproduzir igrejas ali.
 
No presente mover de Deus em sua igreja rumo à prática das primeiras obras, Deus tem levantado alguns homens para plantar e cooperar com as igrejas nas diversas localidades. Alguns deles, que já vivem igreja de modo neotestamentário, comprometidos com o Reino de Deus, têm literalmente sido enviados a ajudar outros irmãos a reproduzir a vida orgânica da Igreja em outros bairros de suas cidades, ou até em outras cidades, por algum tempo. Alguns desses irmãos têm escrito livros sobre a Igreja e disponibilizado sites e blogs na internet, os quais têm chegado a muitos lugares do mundo. Esse material disponível (grande parte gratuitamente) tem fornecido quase todas as informações para que discípulos de todos os lugares possam ser treinados para iniciar e estabelecer igrejas conforme os princípios eclesiológicos do Novo Testamento. Isto, guardando as devidas proporções, é também estar cumprindo a missão apostólica por meio de treinamento e delegação, conforme Paulo fez em Éfeso, contextualizado para os dias atuais. Além disso, esses irmãos e irmãs que têm escrito e publicado artigos e livros, têm disponibilizado seus e-mails e números de telefones para uma maior interação.
 
O ideal seria se cada irmão ou pequeno grupo de irmãos que queiram viver igreja organicamente em uma cidade onde ainda não exista este tipo de comunidade pudessem contar com o apoio presencial de um obreiro já experimentado neste tipo de comunhão durante algum tempo, até que os irmãos estejam aptos a se reunir nos lares com a livre participação de cada crente da comunidade de modo igualitário, ordeiro e decente, sem ninguém dominando, e cada um contribuindo para a edificação do corpo, além de aprenderem a se relacionar profundamente em amor, e a compartilhar refeições e outros aspectos de suas vidas. Porém, considerando nossa realidade atual no Brasil, isto é muito difícil. Literalmente, “são poucos os trabalhadores” (precisamos orar para que o Senhor levante mais trabalhadores).
 
Os obreiros experientes e disponíveis para passar alguns meses em outra cidade distante, cooperando na plantação de igrejas neotestamentárias, aqui no Brasil são pouquíssimos atualmente (pode-se dizer – praticamente inexistentes). No entanto, dentro da mesma cidade, isto é bem mais fácil. Os irmãos que desejam iniciar uma igreja orgânica em seu lar, e sabem que já há irmãos vivendo igreja assim, devem solicitar seu apoio e ajuda no início. Isto é dito para o bem da própria comunidade que está iniciando, para que ela evite se transformar em uma instituição religiosa dentro de um lar, e não uma autentica comunidade onde o Senhor Jesus é o Rei e a única autoridade. Se não for possível receber o apoio de um obreiro enviado no início, esses irmãos devem se integrar em uma comunidade orgânica e ali viver durante alguns anos, para aprenderem a ser igreja segundo os princípios neotestamentários. Só depois devem sair para reproduzir uma nova comunidade. Só se reproduz o que se é. Se alguém que viveu igreja institucionalmente durante anos tentar iniciar uma comunidade orgânica, sem nenhum treinamento ou sem ter experimentado e vivido a vida orgânica da igreja, só irá reproduzir o velho odre em um lar. Mudará apenas de lugar de reunião.
 
Outro motivo para recomendar que os irmãos que intencionam sair de igrejas institucionalizadas e que desejam passar a viver igreja de modo neotestamentário procurem aqueles que já vivem assim, é para que promovam a unidade da igreja da cidade ou do bairro/localidade. Como bem fala o irmão José Maria Oliveira[4], hoje morando em Brasília, se cada irmão ou irmã que queira viver organicamente com um grupo de irmãos desprezar os demais que já estão vivendo em sua cidade ou bairro, estará fazendo o mesmo que as denominações. Estará criando a sua própria denominação de igreja nos lares, em torno de um líder.
 
Por outro lado, a falta da presença física de um obreiro enviado de outra cidade para o início de uma igreja neotestamentária não deve impedir o povo de Deus de viver igreja assim. Os muitos irmãos que estão sendo despertados pelo Espírito Santo no Brasil para viverem organicamente não precisam necessariamente esperar até que um apóstolo seja enviado à sua cidade para poderem iniciar uma comunidade de fé. Como já se disse, já há disponíveis livros e websites/blogs com ótimas orientações, não somente eclesiológicas, mas agora também práticas. A comunidade da qual faço parte teve que aprender errando e corrigindo nestes cinco anos de vida. Sofremos um bocado até 2010, por não contarmos com orientações práticas de pessoas experientes neste tipo de vida da igreja. Entretanto, buscamos o treinamento apostólico por meio da leitura, e também buscamos a orientação dos irmãos autores através de e-mail. Assim, estamos conseguindo melhorar semana a semana a nossa comunhão tornando-nos a cada dia mais orgânicos.
 
Entretanto, desde 2010, estão disponíveis livros e websites que disponibilizam excelente material para orientar na plantação de igrejas em locais onde ainda não há igrejas orgânicas. Não há necessidade de errar tanto quanto nós. Sugerimos os livros: “Mãos a Obra” de Felicity Dale, e “Vivenciando uma Igreja Orgânica”, de Frank Viola – editora Palavra. Sugerimos também o site “Pão e vinho” do irmão Hugo. Em nosso blog, a presente série objetiva exatamente orientar aqueles irmãos de lugares onde não ainda não há igrejas orgânicas/neotestamentárias. Esperamos conseguir contribuir.
 
Resumindo, as igrejas orgânicas devem ser plantadas por obreiros experientes neste tipo de vida da igreja, ou por pessoas treinadas por eles, seja presencialmente, ou por meio do estudo de seus escritos, vídeos gravados ou vídeo-conferências, além de interação por e-mail ou telefone. Uma vez estabelecidas, as igrejas orgânicas se reproduzirão naturalmente na cidade por divisão celular e, em alguns casos, poderão ser transplantadas para outros bairros ou cidades. No próximo artigo trataremos sobre algumas maneiras práticas de iniciar uma reunião que poderá se tornar uma igreja orgânica.

[1] Frank Viola. Finding Organic Church. Ed. David Cook. Cap. 1. Ps. 25 – 50.
[2]Ver Atos 19.9
[3]São citados no Novo Testamento como tendo sido treinados e enviados por Paulo em Éfeso: Tito, de Antioquia, Timóteo, de Listra, Gaio, de Derbe, Aristarco e Segundo, de Tessalonica, Sopátor, de Berea, Tíquico e Trófimo, de Éfeso,  e Epafras (ou Epafrodito), de Colossos – este último plantou as igrejas em Colossos, em Laodicéia e em Hierápolis (Col. 1:7; 4:12-13).  Ver Atos 19.22, 20.4; 21.29; 1 Cor. 4.17; 16.10, 20 (Paulo escreveu 1 Coríntios estando em Éfeso).
[4] O casal de irmãos José Maria e Rosa podem ser contactados pelo telefone (61) 8321-4984.

As Práticas das Igrejas Orgânicas – Iniciando Uma Igreja Orgânica (No Brasil) – Parte 1

Por Marcio S. da Rocha.

 

Nos últimos três anos, temos estudado, escrito e compartilhado consideravelmente sobre a doutrina da igreja segundo o Novo Testamento (a Eclesiologia do Novo Testamento), principalmente neste Blog Igreja Orgânica. Muito do que nós temos publicado baseou-se em livros e websites disponibilizados por preciosos irmãos contemporâneos que têm sido iluminados e usados pelo Senhor para edificar o seu corpo na terra, trazendo maior entendimento sobre os eternos princípios do Novo Testamento acerca da igreja. Alguns desses abençoados livros e sites são indicados neste Blog.

 
Continuaremos a escrever sobre isto; porém, faremos um parêntesis neste tema para tratar agora sobre a prática das igrejas orgânicas, baseando-se em nossa experiência, embora ainda consultando o Novo Testamento e  os trabalhos de irmãos que têm escrito sobre o assunto. Isto foi motivado pela vontade de contribuir com alguns irmãos no Brasil, os quais nos têm procurado para ajuda-los na implantação de novas igrejas orgânicas em suas cidades ou bairros,  e que não possuem a experiência para lidar com questões práticas neste “novo mundo” que é uma igreja orgânica.
 
O fato é que a maioria dos irmãos que têm nos procurado para ajuda-los a iniciar uma congregação que vive igreja segundo os princípios do Novo Testamento nas cidades Brasil afora, tendo renovado seu entendimento acerca da eclesiologia, está saindo de uma igreja institucionalizada; portanto, só conhece as práticas dessas igrejas. Eu e alguns dos irmãos que se reúnem comigo também passamos por isso e sabemos o quanto sofremos (e temos sofrido) por não termos sido orientados no início sobre como contextualizar os princípios eclesiológicos neotestamentários e vivenciá-los em nossa geração, em nossa comunidade. Temos aprendido errando e consertando; estamos no caminho.
 
Alguns desses irmãos puderam vir a Fortaleza e estar conosco durante poucos dias. Outros nos têm contatado via e-mail, e por meio de comentários no Blog.
 
É preciso ressaltar que esta nova série de artigos não pretende dogmatizar sobre a ortopraxia das igrejas orgânicas. Embora todas as práticas tratadas na série tenham fundamento na Bíblia (especialmente no Novo Testamento), não se tratam de um “manual oficial”, ou sequer de uma tentativa disto. Que os irmãos as vejam como uma contribuição de um irmão que tem aprendido ao longo de cinco anos de vida em uma igreja organica, e que, por isso, já possui alguma experiência. São sugestões práticas que podem ser implementadas, dependendo da contextualização da cultura local e da identidade pessoal que cada grupo congregação desenvolve, na medida em que cresce qualitativa e quantitativamente na fé, na comunhão do amor e na graça de Deus.
 
Identidade Coletiva – O que somos? O que não somos?
 
Antes de começarmos a tratar sobre como iniciar uma comunidade orgânica (ou neotestamentária), é preciso definir claramente a visão sobre sua identidade. Antes de iniciar algo, temos que saber o que estamos inciando.
 
Primeiramente, é preciso compreender que as igrejas orgânicas não são uma nova denominação evangélica ou católica. Não há nenhuma organização por sobre, ou por trás das igrejas simples que têm se reunido nos lares ou em outros lugares. Não há controle humano sobre elas. Não há sequer ciência sobre o número de comunidades (células) que estão ativas em cada cidade, ou mesmo em cada bairro de uma cidade.

 

Embora esta expressão “igreja orgânica” esteja sendo usada por muitas dessas pequenas congregações não institucionalizadas, ela não significa uma marca registrada, nem a existência de estatutos ou regras escritas extra-Bíblia que regulamentem a doutrina e a prática individual ou em rede, das informais igrejas nos lares.
 
A palavra “orgânica” vem da Biologia e significa algo que nasce e funciona sem ser manipulado geneticamente pelo homem, ou que não recebeu produtos artificiais para se desenvolver ou para combater pragas. E também significa um organismo vivo. Esta simbologia aponta fortemente para a natureza das igrejas orgânicas: são pequenas comunidades (grupos) constituídas por pessoas de variadas idades e personalidades, que receberam a Cristo como Senhor e Salvador pessoal; que creram no seu nome e o expressam na terra, coletiva e individualmente. São congregações fortemente relacionais, que não se utilizam de técnicas da administração de empresas para iniciarem, nem para funcionarem, mas baseiam-se nos princípios do Novo Testamento. Elas não são fundadas. Elas nascem. São organismos vivos, e não organizações (no sentido de instituições). São famílias estendidas, famílias espirituais, que compartilham a vida (no contexto atual), e não somente as crenças da fé.
 
Além disso, não há uniformidade completa entre elas, em termos de prática e de doutrina, embora possuam algumas características, as quais identificam se uma igreja é ou não orgânica[1].
 
É importante que se diga que as igrejas orgânicas são comunidades que adotam a Bíblia como maior autoridade em termos de fé e prática cristã, portanto, são de interpretação doutrinária reformada, evangélica[2]. As igrejas orgânicas não estão a inventar (ou reinventar) as doutrinas centrais do Cristianismo Bíblico. Ao contrário, confirmam e repassam os ensinamentos sistematizados pelos grandes estudiosos da Teologia Bíblica que contribuíram para o entendimento da Palavra de Deus, as grandes conclusões consolidadas pela igreja em sua história de pouco mais de dois mil anos. As igrejas orgânicas diferem das igrejas institucionalizadas evangélicas apenas quanto à doutrina da igreja (eclesiologia) e às práticas eclesiais. Nas doutrinas centrais são ortodoxas; nas doutrinas periféricas são tolerantes e amorosas com as variadas  posições; nas práticas são primitivistas, orgânicas (ou neotestamentárias).
 
As igrejas orgânicas tem surgido no Brasil e no mundo por um mover do Espírito Santo de Deus. O vento de Deus tem soprado livremente, e a quantidade de igrejas não institucionalizadas – nos lares – no Brasil, tem aumentado significativamente, principalmente nos últimos dois anos.
 
Alguns irmãos que tem iniciado e liderado igrejas orgânicas creem que toda a igreja do Senhor (todos os verdadeiros crentes em Cristo) irá um dia retornar às origens neotestamentárias da igreja (na época da grande tribulação); que todas as igrejas e denominações cristãs bíblicas que hoje são institucionalizadas um dia deixarão de existir como instituições, e se tornarão orgânicas, simples, nos lares. Alguns deles baseiam seu entendimento nas sete cartas às igrejas do livro Apocalipse, interpretando que cada igreja ali significa uma das fases da igreja na história, e que a igreja de Filadélfia representa a penúltima etapa da igreja antes de Cristo retornar ao mundo, e que esta corresponde às igrejas nos lares.
 
Pessoalmente, interpreto as sete cartas do Apocalipse como símbolos dos tipos ou modelos de igrejas que existiram e existirão até a volta física do Senhor, porém não necessariamente sucessivamente, ou seja, alguns daqueles tipos de igrejas, ou todos, existirão concomitantemente durante o período compreendido entre a primeira e a segunda vinda do Senhor. Assim, a igreja de Filadélfia parece estar simbolizando as igrejas orgânicas nos lares (observando principalmente o caráter relacional descrito na carta), mas esta não será a única forma de igreja a existir no período escatológico final da história da humanidade, pouco antes do retorno de Jesus. Em outras palavras, entendo que conviveremos com vários tipos de igrejas institucionalizadas ou não, até o Senhor Jesus retornar. Sabemos que na história da igreja, sempre existiram grupos cristãos aos quais podemos identificar com alguma das igrejas descritas nas cartas do Apocalipse, e também sabemos que sempre existiram grupos que se reuniram nos lares, e às vezes até clandestinamente, em locais longe da vista das autoridades eclesiásticas e políticas instituídas.
 
Na parte dois deste artigo, iniciaremos pelos princípios de nascimento de igrejas encontrados no Novo Testamento, e passaremos a tratar sobre como podemos contextualizar esses princípios e aplica-los na prática, em nossa geração.
 
Graça e paz do Rei Jesus.

[1] Ver o artigo “O que é uma igreja orgânica”, postado em janeiro de 2010, e “Características das Igrejas Orgânicas”, postado em fevereiro/2010.
[2] Um dos principais postulados da Reforma Religiosa do Século XVI foi que a Bíblia, e não uma instituição religiosa chamada de igreja, é que é a autoridade máxima, na qual se deve basear a definição de doutrinas e práticas cristãs – A Bíblia é a regra de fé e prática do cristão.