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As Práticas das Igrejas Orgânicas – Iniciando Uma Igreja Orgânica (No Brasil) – Parte 3 – Sugestões Práticas

Marcio Rocha
 

Nesta terceira parte do artigo, apresentamos algumas sugestões práticas sobre como iniciar uma igreja neotestamentária. Estas sugestões são dedicadas a irmãos que não encontraram nenhuma igreja autenticamente orgânica em sua cidade/centro urbano para se congregar, e nem podem participar de uma igreja em outra cidade. Neste caso, precisam plantar eles mesmos uma nova igreja.

Oração

Tudo deve começar com oração. Na plantação de uma nova igreja, nenhuma ação deve ser tomada antes de um período de oração.

A igreja é do Senhor; portanto, o plantador de igreja deve ser alguém disposto a depender inteiramente de Deus para esta obra. Por meio da oração, o irmão que se sente chamado a iniciar uma igreja deve se colocar sob a dependência do Senhor para começar uma autêntica expressão orgânica da igreja. Nenhum método funciona se o próprio Senhor não edificar a casa (Slm. 127.1).

Se o irmão plantador possui família (esposa e filhos), ele deve iniciar orando por eles, para que estejam preparados e dispostos para esta grande jornada.

Em seguida, deve pedir ao Senhor direção prática sobre a melhor maneira de atingir a comunidade/área onde está querendo plantar uma igreja.

Observando o padrão de Jesus ao enviar os setenta e dois apóstolos em pares (Lucas 10.1-9), o plantador de igreja deve orar ao Senhor para que ele lhe mostre ou envie um companheiro de plantação. O companheiro plantador será um irmão que já possui a visão sobre a igreja neotestamentária, e ajudará na implementação das ações que Deus orientar; também atrairá pessoas de seu círculo de influência e amizade, aumentando assim, as possibilidades de plantação e crescimento da nova igreja.

Alguns autores recomendam que se faça uma caminhada de oração em redor do bairro onde se está querendo plantar uma igreja. A dupla plantadora caminha aleatoriamente sobre o bairro, orando por pessoas e pelas autoridades locais. Esta caminhada seria uma espécie de “reconhecimento” da área, e, ao mesmo tempo, uma reinvindicação de autoridade sobre os poderes humanos e sobre as potestades espirituais que dominam o lugar. Eu não experimentei esta prática quando iniciamos a igreja que se reúne hoje conosco, porém considero-a sábia e bíblica. Pretendo praticá-la na próxima oportunidade em que me sentir vocacionado pelo Senhor a plantar uma nova igreja.

Quanto ao tempo desse período de oração “pré-plantação”, não há regras definidas, uma vez que a igreja pertence ao Senhor, e Ele fará a sua obra como melhor lhe parecer. Este período de oração pode durar dias, semanas, ou meses. Pelo que tenho visto e lido, ainda não conheço um caso em que o período de oração pré-plantação tenha durado mais de um ano, porém não se pode fechar questão sobre qual é o tempo adequado para orar sobre o início de uma igreja orgânica.

O certo é que o Senhor responderá às orações, mostrando o caminho, abrindo portas e dando convicções aos seus obreiros plantadores.

Então será o momento de agir (sem parar de orar).

Evangelismo

Uma igreja que se reúne num lar é um grupo de irmãos de variadas idades, classes sociais e estilos de vida – salvos por Cristo – que se edificam e adoram coletivamente ao Senhor. Uma igreja não começa até ter um grupo de pessoas salvas e batizadas. Portanto, o plantador de igreja deve evangelizar –comunicar o evangelho de Jesus Cristo a pessoas que não o conhecem. Deve plantar a semente da Palavra de Deus e fazer novos discípulos do Senhor. E só então reunir esses discípulos (novos convertidos) como igreja. Não se deve tentar evangelizar durante as reuniões da igreja. O evangelismo deve ocorrer em outras ocasiões.

O plantador de igreja deve desenvolver habilidades evangelísticas. Evangelizar é comunicar o evangelho tão eficientemente e tão claramente, que o ouvinte não tenha outra atitude a fazer senão tomar uma decisão de aceitar ou rejeitar a Jesus como seu Salvador e Senhor. Às vezes, para desenvolver essas habilidades evangelísticas é necessário treinamento e estudo, o que pode ser feito por meio de livros e websites especializados, e/ou participando de treinamentos específicos[1]. O principal, no entanto, é a disposição, pois o Senhor mesmo prometeu que, ao fazermos discípulos, ele estaria conosco sempre (Mateus 28.18-20). Eu já experimentei ocasiões em que vi nitidamente a minha pequena capacidade de comunicação se agigantar durante um evangelismo, por pura ação de Deus. Ele é o maior interessado em que façamos discípulos e, sem dúvida, agirá sobrenaturalmente durante a comunicação do seu evangelho.

O principal grupo de pessoas a serem chamadas para a nova igreja são os não-salvos, principalmente parentes, colegas de trabalho, vizinhos e amigos que já conhecem o seu testemunho e confiam em você.

O evangelismo pode ser feito de várias formas, podendo ser sugeridas:

  • Convidar parentes e amigos para reuniões sociais (cafezinhos, chás, lanches, “sorvetadas”, jantares etc.), em uma casa, para ouvir um convidado palestrar sobre um tema de interesse à luz da Bíblia (liderança, fim do mundo, sabedoria etc.);
  • Convidar parentes e amigos para formar um pequeno grupo para estudo da Bíblia, em casa ou em outro lugar apropriado;
  • Ir a lugares públicos (shoppings, lanchonetes etc.) com folhetos e falar sobre o Senhor para algumas pessoas, e orar por elas.
  • Formar grupos de oração e/ou estudo bíblico no ambiente de trabalho (com permissão das autoridades da organização);
  • Convidar pessoas que gostam de cinema para assistir um filme em uma casa e discutir sobre temas relacionados, à luz da Bíblia;
  • Juntar alguns irmãos com um violão e ir a um café ou lanchonete cantar canções cristãs — e convidar pessoas interessadas a se juntar ao grupo;
  • Aproveitar um diálogo informal em que esteja participando, e introduzir a cosmovisão bíblica sobre o assunto.

Como Neil Cole[2] diz, só há dois tipos de pessoas perdidas no mundo: as mariposas e as baratas… As mariposas serão atraídas pela luz, e as baratas fugirão. Então, acenda a luz, pregando o evangelho, e traga as mariposas para o Reino de Deus!

Ministre Sobre a Igreja Orgânica aos Irmãos-Sem-Igreja

Hoje em dia há muitos irmãos e irmãs que estão ávidos por viver igreja segundo o que leem no Novo Testamento; no entanto, não conseguem enxergar como isto pode ser vivido nos nossos dias. Há muitos irmãos e irmãs que se desiludiram de igreja por causa do sistema eclesial institucional, e já não frequentam mais as igrejas com templos, pastores profissionais, dízimos, departamentos, ministérios programas etc., e estão (perigosamente) isolados. São irmãos sinceros que não se revoltaram com o Senhor nem com sua igreja; apenas se desiludiram com o modelo eclesial de Constantino, implementado pela igreja de Roma e continuado pela igreja protestante, embora com reformas e melhorias aqui e ali.

Este tipo de irmão, que, além dos não-salvos, também deve ser convidado a viver igreja organicamente, faz parte do grupo que poderíamos denominar de salvos-sem-igreja ou de irmãos-sem-igreja.

Essas pessoas, entretanto, precisam ser ministradas, pois não conseguem enxergar sozinhas no Novo Testamento como viver igreja hoje segundo os princípios neotestamentários. Estão viciadas em sua interpretação das passagens do Novo Testamento que falam sobre a igreja do primeiro século, e precisam de uma ajuda para compreender a eclesiologia neotestamentária.

Em minha experiência, conheço alguns irmãos assim, que estavam afastados de igreja, e, ao nos ouvirem falar sobre a igreja orgânica, ou lerem alguns livros de Frank Viola, Wolfgang Simson, Felicity Dale, Neil Cole, ou nossos artigos no blog, disseram-me: “Eu sempre soube disto em meu coração, mas não discernia tão claramente como agora, depois de ler o que esses autores escreveram. Este é o tipo de igreja que eu gostaria de participar. Existe igreja assim?”.

Ressalto que não devemos convidar (para igrejas orgânicas) irmãos que estão participando ativamente de suas igrejas denominações/institucionais. Não devemos chamar irmãos que acreditam que o modelo institucional de igreja é bíblico a deixarem suas congregações e se reunirem conosco. Deixemos que o próprio Senhor mova os corações de alguns irmãos e irmãs para nos procurarem, se assim for de sua soberana vontade.

Por outro lado, não podemos rejeitar nenhum irmão ou irmã que queira livremente sair de uma igreja estilo empresa ou estilo sinagoga e nos procure para se congregar conosco, mesmo que hoje ele (ou ela) esteja participando de uma igreja assim. Se veio livremente, é porque o Senhor o(a) moveu.

Para ministrar aos salvos-sem-igreja, ou para os irmãos que querem deixar a igreja institucionalizada, empreste-lhes ou compre para eles os livros “Reimaginando a Igreja” de Frank Viola (editora Palavra), ou “Casas que transformam o mundo” de Wolfgang Simson (editora Esperança). Assuma o compromisso de ter encontros semanais de leitura com esses irmãos. Outro livro que também pode ser lido em grupo para ministração é o e-book “Reconsiderando o odre” de Frank Viola. Alternativamente, podem ser selecionados e impressos artigos em blogs como o nosso (igrejaorganica.net) ou o “Pão e Vinho”, para leitura com esses irmãos sem-igreja ou vindos de igrejas institucionais.

Um ponto importante é que esses irmãos não devem ser introduzidos na nova igreja antes de serem ministrados e de terem seu entendimento renovado quanto à eclesiologia. Eles estão cheios de vícios de prática eclesial (ou até de doutrina essencial), e, se vierem como estão, só atrapalharão o crescimento espiritual da igreja. Precisam revolucionar seu entendimento bíblico sobre a eklesia do Senhor e mudar seus hábitos religiosos, antes de poderem interagir organicamente em uma congregação neotestamentária e participativa, onde todos são sacerdotes.

Um Filho da Paz

Nos versos 5 a 9 de Lucas 10 encontra-se um princípio de plantação de igreja, que se pode chamar de Um Filho da Paz. O Senhor Jesus ensinou aos discípulos-obreiros que, quando fossem plantar a semente do evangelho, ao encontrarem alguém que os acolhesse em sua casa, que permanecessem nesta casa, e não ficassem mudando de casa em casa. Esse alguém que abriu sua casa é “um filho da paz”, que será uma peça chave para atingir toda uma comunidade. Geralmente o filho da paz é alguém influente em sua localidade ou que possui uma liderança em determinado grupo social.

Os obreiros plantadores de igreja, quando iniciarem uma igreja em um novo bairro ou localidade, devem encontrar um filho da paz que esteja disposto a ceder sua casa para reuniões, e ali permanecer, abençoando os da casa com orações e recebendo tudo que lhes for oferecido.

Enfim, as sugestões aqui oferecidas não são exaustivas. Existem outras maneiras de plantar uma igreja, mas, aqui damos nossa contribuição, baseando-nos em nossa experiência e conhecimento das Escrituras sobre o assunto.

Você, que está lendo este artigo, provavelmente o SENHOR o chamou para plantar uma nova igreja neotestamentária em sua cidade ou bairro. Então ore, associe-se a um companheiro de plantação, evangelize os não-salvos, ministre aos irmãos-sem-igreja, e aos irmãos que estão chegando a você, vindo de igrejas institucionais sobre a igreja orgânica, encontre um filho da paz e então, mãos á obra!

E não esqueça de convidar um irmão experiente e vocacionado a plantar e nutrir igrejas (um apóstolo), para, se possível, ir e ajudar a preparar a nova igreja para funcionar mutuamente como em 1 Coríntios 14.26, nos seus primeiros meses, e também não esqueça de se aliar a outros irmãos de outros bairros ou outras cidades, estando em comunhão com eles e realizando grandes reuniões, eventualmente.

Graça e paz.


[1]Um dos bons treinamentos sobre evangelismo disponíveis é o do Intituto Haggai Brasil. Procure uma associação regional deste instituto no seu estado e participe de um dos LOC’s – módulos de treinamento de igrejas locais. O website do Haggai Brasil é http://haggai.com.br/
[2]Neil Cole. Igreja Orgânica. Editorial Habacuc. P. 220.

Com o Que se Parece Uma Reunião da Igreja Sob a Direção Direta de Cristo Hoje em Dia?

Extraído do capítulo 2 do livro “Reimagining Church” (Reimaginando a Igreja), de Frank A. Viola. Tradução de Marcio S. da Rocha.
 
Nos últimos vinte anos, eu fui privilegiado por participar de centenas de reuniões participativas-livres. Algumas delas foram simplesmente gloriosas. Essas reuniões ficaram soldadas no circuito de minha mente. Outras foram horríveis. E ainda outras nem merecem ser mencionadas!
Enquanto os cultos institucionais são essencialmente sem falhas, as reuniões das igrejas orgânicas variarão, dependendo da condição espiritual e da preparação individual de cada membro.
Aqui está uma das tarefas de um obreiro apostólico. É equipar o povo de Deus para funcionar coletivamente numa livre-porém-ordenada reunião que expressa Cristo em sua plenitude.
Em todos os anos nos quais estive me reunindo e plantando igrejas orgânicas, tenho descoberto que não há maneira de explicar acuradamente como é uma reunião sob a direção direta de Cristo para aqueles que nunca viram uma. No entanto, me esforçarei ao máximo para pintar um quadro de uma reunião que lhe transmitirá o gostinho que uma gloriosa reunião pode ter.
Por volta de uma década atrás, uma igreja composta de vinte e cinco cristãos se reuniu num lar, numa noite. Eu tinha acabado de passar um ano e meio ministrando Jesus Cristo para este grupo em “reuniões apostólicas” quinzenais. O propósito daquele ministério era equipar essa nova igreja para que ela funcionasse por si – sem nenhuma liderança humana.
O dia chegou. A igreja iria ter sua primeira reunião por si mesma. Eu não deveria estar presente. Porém, eu entrei na sala sorrateiramente sem que ninguém percebesse e fiquei escondido atrás de um divã. (Eu senti que se eu estivesse visível naquela reunião, isto afetaria o modo como os crentes funcionariam. Isto geralmente ocorre quando a pessoa que planta a igreja está presente durante suas reuniões – especialmente nos primeiros anos de vida de uma igreja.)
Os crentes se reuniram e começaram a reunião com cânticos. Os cânticos foram a capella.  Uma irmã em Cristo começou a reunião cantando uma canção. E todos cantaram com ela. Depois, orações foram feitas espontaneamente, por cada um. Então, um irmão em Cristo começou outra canção. A esta altura, todos estavam unidos. Mais orações foram feitas. Mais canções foram cantadas. Durante as canções, diferentes pessoas ministravam curtas exortações baseadas nas letras das canções. A palavra mover não é suficiente para descrever o que houve. Não havia nenhum líder de louvor presente. Todos estavam participando, oferecendo louvores a Deus livremente e espontaneamente.
Depois que eles cantaram por um tempo, todos se sentaram. E imediatamente uma irmã se levantou e começou a compartilhar. Ela contou sobre como percebeu que Cristo é sua água viva, durante a semana.
Quando a primeira irmã terminou, um irmão ficou em pé e começou a falar. Ele também falou sobre o Senhor como água viva, mas ele falou com base numa passagem de Apocalipse 22. Ele falou por vários minutos, e então uma irmã começou a adicionar algo ao que o irmão tinha compartilhado. Isto continuou por mais ou menos uma hora. Um por um, sem pausas, irmãos e irmãs em Cristo se levantaram e compartilharam suas experiências com o Senhor Jesus. Todos eles revelaram o Senhor como água viva.
Alguns compartilharam poemas, outros canções, outros contaram estórias, outros compartilharam trechos das Escrituras, e outros oraram.
Enquanto eu ouvia tudo por detrás do divã, não pude resistir às lágrimas. Estava tão tocado que comecei a chorar. Aquela reunião foi elétrica. Foi como se um rio tivesse sido posto naquela sala e não pudesse ser contido. Eu pude sentir a presença e a graça do Senhor. O compartilhar foi rico, pleno, vívido e vibrante. Eu desejei ter uma caneta e um papel para anotar as coisas gloriosas que estavam sendo ditas. Muitos deles estavam cheios de insights originais. Mas eu apenas ouvi maravilhado.
A coisa incrível é que ninguém estava liderando aquela reunião. Ninguém estava sendo seu facilitador também. (Nenhum humano, é o que eu quero dizer). E ela foi incrivelmente centrada em Cristo.
A reunião finalmente acabou e alguns se levantaram e começaram uma canção. O restante da igreja se levantou também e se uniu a eles. Enquanto eles cantavam, eu saí da sala. Somente algumas pessoas me viram. Quando eu me encontrei com a igreja na semana seguinte, eu disse a eles que estive presente. A igreja foi preparada para esta reunião. Eles se reuniram em pares e buscaram ao Senhor juntos durante a semana, em preparação para a reunião.
O resultado foi uma coletiva explosão de vida espiritual que demonstrou o Senhor Jesus através de cada membro do corpo.
Por favor, entenda que esse grupo de cristãos não poderia ter tido uma reunião como essa logo que eu comecei a trabalhar com eles. Naquela época, a maioria deles estava habituada a ser passiva e a ficar quieta. Alguns que tinham personalidades fortes, iriam dominar o compartilhar. Mas depois de um ano e meio recebendo ministério prático e espiritual, eles estavam equipados para conhecer o Senhor juntos, funcionar de modo coordenado, abrir suas bocas, e compartilhar o Cristo vivo de um modo ordenado. E Deus foi magnificado como resultado.
Eu poderia apresentar vários outros exemplos deste tipo de reunião e da grande variedade expressa nelas. Eu creio, porém, que você agora tem uma idéia de como pode ser uma reunião da igreja sob a direção viva do Senhor em nossos dias.