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As Práticas das Igrejas Orgânicas – A Identidade Doutrinária Nas Igrejas Orgânicas

Marcio Rocha 

“Irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo suplico a todos vocês que concordem uns com os outros no que falam, para que não haja divisões entre vocês; antes, que todos estejam unidos num só pensamento e num só parecer. (1 Coríntios 1.10. NVI) 

“Nas coisas essenciais, a unidade; nas duvidosas, a liberdade; e em todas, a caridade.”(Agostinho) 

Vinte séculos depois de Cristo ter encarnado e vivido neste nosso mundo, e dos primeiros apóstolos terem escrito sobre ele e sua mensagem e propósito, o Cristianismo se mostra bem diferente dos tempos originais. Neste longo período, alguns fatos marcantes na história da igreja lhe conduziram ao complexo cenário atual da cristandade.
As perseguições, o perigo dos grupos heréticos (principalmente gnósticos) nos primeiros três séculos de nossa era e a consequente concentração de autoridade eclesiástica nos presbíteros/bispos nos Séculos II e III, a institucionalização, estatização e clericalização da igreja com Constantino, no início do século IV, o papado, os desvios doutrinários e a corrupção moral da Igreja Católica Romana durante a Idade Média, os problemas ocorridos na transmissão do texto bíblico manuscrito em suas línguas originais até a invenção da imprensa, o retorno às Escrituras e à busca da pureza moral (embora dissociado do retorno ao estilo de vida dos primeiros cristãos) na Reforma Religiosa do Século XVI, as traduções e edições das Escrituras para diversas línguas, os intérpretes livres das Escrituras que surgiram logo depois dos primeiros reformadores, a influência das novas teorias científicas-filosóficas no conhecimento humano a partir do século XVI, a dissidente doutrina reformada do livre arbítrio de Jacobus Arminius (fim do Século XVI), os movimentos missionários ocidentais do Século XIX, o surgimento do Pentecostalismo no início do Século XX, a visão da igreja como um negócio no final do Século XX e início deste Século XXI, tudo isto contribuiu e tem contribuído para a multiforme diversidade de grupos que se denominam cristãos na atualidade, cada um com o seu nome institucional, seu credo doutrinário particular, suas formas de cultos e seus hábitos e costumes peculiares, constituindo assim um quadro caótico da cristandade, onde a busca pela unidade parece ser utópica, podendo ser considerada por muitos até psicologicamente insana. 

No meio desta plêiade de grupos cristãos distintos, estão os que hoje em dia buscam o retorno aos princípios e práticas do estilo de vida orgânico da igreja do primeiro século, segundo se lê no Novo Testamento (além do retorno ao estudo das Escrituras e da busca da pureza ético-moral já observados nos primeiros grupos reformadores religiosos cristãos). Este retorno às orígens passa necessariamente pela unidade da igreja local (da cidade ou do bairro) em torno de apenas um nome: Jesus Cristo.
Todavia, não é fácil reunir numa comunhão plena, pessoas que trazem entendimentos diversos sobre certos textos e passagens da Bíblia. Nos grupos cristãos orgânicos nos lares há uma boa parte de irmãos e irmãs que vieram de denominações e igrejas onde determinadas interpretações de certas partes do texto bíblico se tornaram doutrinas, que por sua vez se cristalizaram na mente desses irmãos como dogmas, e, para esses, reconsiderar esses dogmas é muito difícil. Além disto, dentre os irmãos que vieram de denominações e igrejas institucionalizadas para as igrejas orgânicas, há os que saíram de igrejas pentecostais e estão acostumados ao uso da Bíblia como oráculo, citando ou lendo versículos isolados de seu contexto para um irmão ou irmã (ou para si) como se fossem mensagens personalizadas e momentâneas de Deus – quase como se a Bíblia fosse um horóscopo. 

Ocorre, assim, que, principalmente no momento em que se compartilham trechos das Escrituras de forma participativa nos lares, às vezes surgem desagradáveis debates entre irmãos que adotam preconceituosamente dogmas opostos. 

Embora os principais escritores atuais sobre o Cristianismo orgânico afirmem que não deve haver divisão de irmãos e grupos em função de doutrina, na prática, doutrinas têm causado inimizades e divisões. Doutrinas e crenças são importantes, pois estão na base do comportamento de uma pessoa. Não é apenas uma questão de “teoria”; não fica apenas no campo das ideias, dissociada da pratica. As crenças se refletem no modus vivendi, no conjunto de atividades, hábitos e costumes que caracterizam o estilo de vida de uma pessoa. Se você compreender as crenças de uma pessoa, entenderá seu comportamento. 

Mas, o que fazer diante desta complexa problemática contemporânea? 

Nestes tempos em que vivemos, a máxima de Agostinho – que viveu no Século IV d.C. – parece ser profética: “Nas coisas essenciais, a unidade; nas duvidosas, a liberdade; e em todas, a caridade [ou amor]”. 

Parece não ser mais possível termos unidade como cristãos, no entendimento de todos os aspectos da doutrina bíblica. No entanto, temos a opção e a obrigação de buscarmos a unidade nas “coisas essenciais”. É necessário que nos esforçemos “para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.” (Efésios 4.3). 

A essência da doutrina cristã não pode ser alterada ou negociada. Os ensinamentos que constituem o conjunto das doutrinas centrais ou cardinais do Cristianismo – o seu cerne ou núcleo – precisam ser compreendidos, adotados e seguidos, sem divergência, pelos que querem ser de fato cristãos. Porém, as doutrinas secundárias e periféricas não devem ser debatidas, pelo bem da unidade da igreja local. Os irmãos que adotam um posicionamento em conformidade com certa corrente teológica no tocante a ensinamentos periféricos do Cristianismo devem ser respeitados, sem discussão. Não se atingirá unidade nesses assuntos periféricos até que Cristo volte e nos diga o real significado de certas passagens bíblicas que se tornaram difíceis de entender com o passar dos séculos. 

Certa vez presenciei uma discussão acirrada entre um irmão e uma irmã sobre o que significa o “espinho na carne” do apóstolo Paulo (2 Cor. 12.7). A irmã defendia que o espinho na carne significa um “pecado de estimação” do apóstolo que ele não conseguia deixar; o outro defendia que o espinho na carne significa as sequelas e dores resultantes das torturas físicas sofridas por Paulo por proclamar o Cristianismo em sua geração. Aquela discussão já estava se tornando prejudicial à amizade dos irmãos quando cheguei, e logo intervi, dizendo que aquele verso das Escrituras se tornou obscuro quanto ao seu entendimento, porque se trata de uma expressão idiomática do Grego Koiné da época, e só os primeiros leitores de Paulo sabiam o seu significado preciso. Não adianta defender posição alguma, em casos como este; deve-se respeitar cada um o entendimento do outro. 

Já os entendimentos de todos os que fazem parte de uma igreja local quanto às doutrinas essenciais do Cristianismo devem ser únicos, uniformes. Não pode haver desentendimento quanto à doutrina da Revelação de Deus (na natureza, na Bíblia e em Cristo), da Trindade Divina, da Divindade de Cristo e de sua Ressurreição, da Pecaminosidade Inata do Homem (Pecado Original), da Obra Expiatória de Jesus Cristo, da Salvação pela Graça, por meio da Fé em Cristo, da Igreja como Corpo de Cristo na Terra sob a liderança do Espírito Santo, do Estado da Alma Após a Morte, e do Retorno de Jesus Cristo Encarnado à Terra Como Rei dos reis e Senhor dos senhores. Esses são os ensinamentos centrais do Cristianismo, e a descaracterização de qualquer dessas doutrinas transforma um grupo que a adota em não-cristão, ou herético. Ademais, a falta de acordo acerca das doutrinas essenciais fatalmente dividirá uma igreja local. 

Por outro lado, os entendimentos particulares sobre certas doutrinas não essenciais, tais como a forma do batismo em água (ou com água), detalhes na profecia escatológica bíblica etc., devem ser respeitados uns pelos outros. Não devem sequer ser padronizados pela igreja local, sob pena de prejuízo para o Corpo de Cristo, por provocar divisão de irmãos em função de doutrinas periféricas – típico da denominacionalização. 

E, em tudo, ou seja, tanto no ensino das doutrinas essenciais, quanto no respeito às posições pessoais no que tange às doutrinas secundárias, baseadas em passagens não muito claras da Bíblia, deve haver amor. O irmão que tem dificuldade de reconsiderar uma doutrina essencial merece todo o nosso esforço e carinho para ser ensinado na verdade. A verdade deve ser ensinada com firmeza, mas em amor (ver o exemplo de Jesus com relação a Nicodemos – João 3). E o irmão que diverge de nós quanto à doutrinas periféricas deve ser amado e respeitado como se fosse ele (ou ela) que tivesse razão. Nesses assuntos periféricos eu preciso considerar os outros superiores a mim mesmo. 

Esta é (e deve ser) a atitude e a prática das igrejas orgânicas no que tange à doutrina cristã. Unidade na essência. Liberdade e respeito quanto à interpretação das passagens duvidosas da Bíblia. “Concordem uns com os outros no que falam, para que não haja divisões entre vocês”. E amor, acima de tudo.
“Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” (João 17.20-21. NVI) 

“O Deus que concede perseverança e ânimo dê-lhes um espírito de unidade, segundo Cristo Jesus, para que com um só coração e uma só voz vocês glorifiquem ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Romanos 15.5-6. NVI).