Monthly Archives: janeiro 2014

As Práticas das Igrejas Orgânicas – As 10 Principais Ameaças à Saúde das Igrejas Neotestamentárias – Parte 1

DoutorAs comunidades cristãs orgânicas/neotestamentárias estão longe de serem perfeitas. Por reunirem pessoas imperfeitas, cada uma com a sua própria bagagem cultural e com suas ideias preconcebidas sobre o Cristianismo, alguns grupos vivenciam dificuldades com relação a relacionamentos, doutrinas, ameaças externas e até prática eclesial. Na sequência de artigos sobre as práticas das igrejas orgânicas no Brasil, desta vez vamos abordar sobre o que consideramos serem as principais dificuldades que essas comunidades enfrentam para se manterem funcionando saudavelmente. Dificilmente tal abordagem negativa é encontrada na literatura sobre o tema igreja orgânica, de modo que este artigo se reveste de uma característica original.

Mais uma vez ressaltamos que, não é nossa intenção dogmatizar sobre o assunto, e sim contribuir para o desenvolvimento de igrejas orgânicas, compartilhando a nossa experiência de seis anos convivendo e liderando uma igreja orgânica, bem como os nossos estudos sobre o tema. Alguns dos problemas aqui comentados foram vivenciados na igreja que se reunia conosco e que recentemente veio a quase se dissolver em função de alguns deles. Outros problemas nesta lista chegaram ao meu conhecimento por meio de líderes de algumas igrejas que conheço. Portanto, o conteúdo deste artigo não é apenas teórico, mas, bastante prático.

Este artigo foi dividido em três partes para não ficar muito extenso. Em cada parte serão abordadas três ou quatro doenças que ameaçam a saúde espiritual das igrejas orgânicas.

Ameaça # 1 – Ficar na religiosidade

As pessoas que chegaram às igrejas orgânicas com suas próprias bagagens religiosas prévias tendem a não compreender – ou a demorar bastante a compreender – que as igrejas neotestamentárias são comunidades de vida integral, e que não são apenas grupos religiosos pequenos e mais informais.

A maioria dos irmãos e irmãs que vieram de igrejas evangélicas institucionalizadas para as igrejas orgânicas normalmente tende a perceber uma igreja orgânica como um “pequeno grupo” ou como uma “igreja institucional num lar”, e suas reuniões como “cultos”, “reuniões de oração” ou apenas “reuniões”, dissociadas da vida. Tais pessoas se acostumaram a dicotomizar a vida espiritual, separando o dia de reuniões como “sagrado” e os outros seis dias como “seculares”.  Não conseguem compartilhar verdadeiramente as suas vidas. Não desenvolvem amizades profundas e sinceras com os irmãos do grupo. Não abrem os seus corações. Mais parecem ilhas em meio a um arquipélago, do que membros de um corpo.

Muito além de cantar, orar, estudar a Bíblia e ajudar aos necessitados juntos, uma igreja só é orgânica se os seus membros se apoiarem uns aos outros em suas necessidades diárias/semanais, divertirem-se juntos e, enfim, partilharem suas vidas como uma família. Sem relacionamentos, não há unidade. Sem amor, não existe igreja verdadeira. Algumas vezes eu tenho dito aos irmãos que fora da igreja há pessoas que gostam de mim, como profissional e como pessoa. Porém, na igreja, o relacionamento deve ser de amor e não de gosto. Estou na igreja para ser amado e para amar, não para ser apenas “gostado” e/ou para gostar. “Se não tiver amor, eu nada serei” (1 Cor. 13.2).

Não somente os evangélicos típicos que passam a se reunir em grupos orgânicos trazem dificuldades de adaptação. Os que se converteram e que antes eram adeptos do catolicismo romano ou do espiritismo também trazem uma bagagem religiosa que demora (às vezes muitos anos) para ser desconstruída. Esses, assim como os evangélicos tradicionais, também normalmente têm tendência à dicotomia “sagrado x secular” e também têm dificuldades para compartilhar verdadeiramente as suas vidas, desenvolver amizades profundas e sinceras com os irmãos do grupo – de abrir os seus corações. Além disto, tais irmãos, antes católicos ou espíritas, trazem consigo uma dificuldade de aceitar plenamente a graça incondicional de Deus, e continuam durante um bom tempo a valorizar as ajudas aos necessitados e/ou algumas disciplinas espirituais como meio de tentar agradar a Deus ou de acumular pontuação no “programa de pontos do Reino dos Céus”. Isto pode “contaminar” o grupo e torná-lo predominantemente um grupo religioso de caridade, faltoso da revigorante graça do Senhor. Um grupo sem graça — uma desgraça.

A religiosidade clássica prejudica não somente os relacionamentos; prejudica também a liberdade litúrgica das igrejas orgânicas – a livre atuação da comunidade durante as suas reuniões, sob o agir do Espírito Santo. Os “religiosos” dão ênfase e gosto pessoal a certas práticas litúrgicas e se sentem frustrados e culpados se o conjunto de suas práticas litúrgicas consagradas não acontecer numa reunião. Para alguns, por exemplo, se numa reunião da igreja não houver música cristã, orações, leitura ou estudo da Bíblia, não houve “adoração”; a reunião não “valeu”. Pessoas com tais características simplesmente não conseguem conceber que o Espírito Santo possa estar guiando o grupo naquele dia a simplesmente estarem juntos para uma refeição compartilhada ou para assistir a um filme edificante (ou simplesmente divertido), ou para fazerem uma caminhada juntos, para praticarem um esporte ou para visitarem um irmão enfermo, ou para outra atividade.

Por outro lado, não advogamos a anti-religiosidade excessiva ou total. Há grupos hoje em dia pregando uma aversão à religião, como se a igreja fosse dissociada da fé. Jesus é e sempre será a religação entre Deus e os homens e, neste sentido, o Cristianismo (ou o Jesus-Messianismo como alguns preferem) sempre será uma religião, uma fé. No entanto, a religiosidade que prejudica é aquela do dia sagrado, do sacerdote exclusivo, do lugar sagrado e da liturgia sagrada. Este padrão ainda é uma das principais ameaças ao cristianismo orgânico.

Cremos que o tratamento para esta patologia pode ser feito por meio de duas ações: (1) conscientizar os membros do grupo sobre o que é uma igreja orgânica — suas diferenças e semelhanças com relação à igreja institucionalizada. A conscientização deve ser feita por meio de uma série de reuniões específicas para estudos sobre o tema. Nessa conscientização, deve-se expor aos irmãos os efeitos nocivos da religiosidade típica sobre a igreja; (2) variar as ênfases das reuniões. Pode-se, a princípio, criar-se um calendário semestral de reuniões semanais onde cada reunião terá uma ênfase (inclusive lazer). Com o tempo, os velhos hábitos vão sendo abandonados, devido à conscientização e às novas práticas.

Ameaça # 2 – Falta de compromisso e visão de igreja

Há pessoas que enxergam as igrejas orgânicas simplesmente como grupos de amigos ou de pessoas com afinidades. É possível que certas pessoas venham a participar de uma igreja nos lares concebendo-a como um grupo tão informal que não exige delas nenhum tipo de compromisso com Deus ou com os demais, ou que as levem a rejeitar qualquer tipo de organização.

Longe de ser apenas um grupo de simpatizantes, a igreja é um organismo espiritual, composto pelos discípulos de Jesus. Ela já possui o seu próprio significado, essência e propósito. Os cristãos creem que o próprio Deus providenciou o Novo Testamento por meio dos apóstolos originais de Jesus e de seus companheiros/ajudantes (Lucas e Marcos), e que os princípios que devem nortear a vida da igreja até a volta do Senhor constam nessa coleção de livros. Não se deve “reinventar a roda” quando se trata de igreja, mas vivê-la conforme o Novo Testamento, observando o ensino de Jesus, as recomendações dos apóstolos e o exemplo dos primeiros cristãos.

Seguir a Jesus inclui participar ativamente de uma comunidade de discípulos, com compromisso e envolvimento pessoal. Não há Cristianismo sem igreja, pois Jesus é a cabeça e a igreja é o seu corpo na terra. Nela está o seu Espírito.

Há irmãos que simplesmente “desaparecem” durante algum tempo das reuniões e depois reaparecem como se nada tivesse acontecido. São pessoas que ainda não internalizaram o valor de se importar com o irmão, de procurar apoiar os conservos em Cristo em suas necessidades emocionais, espirituais e físicas. Pessoas que não valorizam o fato de que as suas companhias e experiências pessoais edificam os demais na fé. Pessoas que não sabem o que é compromisso e que não compreenderam ainda que, como já foi dito, uma igreja é uma comunidade e uma família.

Não há amor onde não há compromisso. Quem não é capaz de se comprometer não é capaz de amar. E quem não consegue se comprometer com um pequeno grupo de seguidores de Jesus não ama ao próprio Jesus. “Quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 João 4.20.b). Quando uma pessoa ou família se isola da comunhão com outros cristãos e, mesmo assim, continua afirmando que serve a Jesus Cristo, ela está demonstrando, com suas ações, o contrário.

Para combater este problema, os líderes das igrejas orgânicas precisam, de vez em quando, além de orar pelo grupo, ministrar para os irmãos os trechos do Novo Testamento que ensinam sobre a igreja – sua essência e funcionamento. Também precisam repreender (em particular) os negligentes descompromissados e, se, esses não quiserem mudar, afastá-los da comunhão (com o consentimento da igreja toda). Os bispos/presbíteros possuem uma nobre, porém, árdua função, de cuidar da igreja. Devem constantemente estar trazendo à mente dos irmãos os princípios norteadores da igreja segundo o Novo Testamento e assim manter a comunidade consciente do seu nobilíssimo significado e propósito.

Ameaça # 3 – Ausência de funções de liderança e autoridade reconhecidas

Uma das principais características das igrejas neotestamentárias é a livre participação de seus membros nas reuniões, pondo em prática, assim, a doutrina do sacerdócio de todos os crentes. No entanto, é possível confundir sacerdócio de todos com autoridade igual de todos na comunidade. Enquanto o primeiro é bíblico, o segundo é um erro humano que certamente levará a consequências negativas para uma comunidade.

Alguns autores sobre a igreja orgânica afirmam que a igreja de uma certa região (o conjunto das comunidades de irmãos que se reúnem nos lares de certa cidade, bairro, localidade etc.) deve ser dirigida diretamente por Jesus e que este faz isto dirigindo cada membro da igreja direta e individualmente. Postulam que a autoridade e a liderança na igreja é distribuída igualmente a todos, não importando se são anciãos, experientes na fé, novos convertidos (neófitos), crianças, jovens etc. — uma espécie de autoridade igual de todos; uma situação onde cada um age segundo o seu próprio entendimento. No entanto, não se vê isto no Novo Testamento. O padrão de autoridade e liderança para cada igreja encontrado no Novo Testamento é o exercício da liderança e da autoridade pelos presbíteros/bispos: pais de família mais maduros na fé, na idade e no conhecimento bíblico.

E vos exortamos, irmãos, que reconheçais os que se esforçam entre vós, que vos presidem no Senhor e vos aconselham. E os considerem da mais alta estima, com amor, por causa do trabalho deles. Vivei em paz entre vós. (1 Tess. 5:12-13. Tradução nossa, diretamente do texto grego da UBS, 4a ed. revisada, 1994).

Os presbíteros (anciãos) que presidem bem são dignos de dupla honra, especialmente aqueles que se afadigam na Palavra de Deus e no ensino. (1 Tim. 5:17. Tradução nossa, diretamente do texto grego da UBS, 4a ed. revisada, 1994).

 Eu vos admoesto irmãos: reconheçais que os da casa de Estéfanas foram o primeiro fruto da Acaia e que eles têm se dedicado ao serviço dos santos; e vos subordineis a eles e a todo o que coopera e se afadiga conosco. (1 Cor. 16:15-16. Tradução nossa, diretamente do texto grego da UBS, 4a ed. revisada, 1994).

Vê-se nesses dois primeiros versos que Paulo — o apóstolo — se refere aos presbíteros como aqueles que presidem as igrejas. No terceiro verso, percebe-se o princípio da subordinação à liderança por parte dos irmãos de uma comunidade/igreja. Como estudioso do grego bíblico, afirmo que o texto grego dessas referências é muito claro neste sentido. A palavra grega traduzida como “presidem” (proistamenous) significa supervisionar ou presidir. E o verbo grego aqui traduzido como “subordineis” (hypotásseste) significa sujeitai-vos, subordinai-vos. Interpretar esses termos de outra forma seria até desonesto. O melhor conhecimento que tenho hoje do grego koiné e a experiência de alguns anos em uma igreja orgânica me fez mudar minha opinião anterior quanto à autoridade na igreja (eu também pensava que a autoridade na igreja deveria ser exercida por todos, igualmente).

Jesus estabeleceu a falta de autoridade reconhecida na igreja?

Alguns autores usam o texto de Mateus 20.25-28 para afirmar que que Jesus estabeleceu ali a completa falta de autoridade reconhecida na igreja.

Mas Jesus os chamou e disse: Sabeis que os governantes das nações dominam sobre elas e os grandes exercem autoridade sobre elas. Não será assim entre vós, mas quem, dentre vós, intencionar se tornar grande, será vosso servo. E quem, dentre vós, quiser ser o primeiro, será vosso escravo, assim como o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (tradução nossa, diretamente do texto grego da UBS, 4a ed. revisada, 1994).

Contudo, uma análise desta passagem dentro do contexto amplo das Escrituras indica que Jesus não estava estabelecendo ali um padrão anárquico para a igreja. Ele estava revelando que, ao longo da história, os líderes das igrejas no mundo todo seriam bem diferentes dos governantes e políticos das nações em termos de origem, humildade, pureza de intenção, dedicação e desapego ao poder.  Na passagem, Jesus afirma que aqueles que viriam a ser os líderes das igrejas seriam pessoas sem nobre nascimento, homens humildes de coração e cuja intenção primária é servir os demais irmãos para a glória de Jesus. O verbo grego usado na passagem inteira (estai) significa “será” e não “deverá ser” como foi traduzido em algumas versões. A passagem é uma predição de Jesus, e, ao mesmo tempo, revela como ele quer que os líderes de sua igreja sejam. Esta seria (e efetivamente veio a ser) a marca dos verdadeiros líderes cristãos: a humildade, a mansidão e a grande dedicação no serviço ao povo de Deus. Os líderes da igreja que o Senhor Jesus tem levantado e mais usado na história não lideram pelo poder da força nem pela força do poder.

A passagem, no entanto, não tem a ver com determinação de ausência de autoridade reconhecida na igreja. Jesus, mais à frente (já ressurreto), chama pessoalmente a Pedro para pastorear o rebanho dele (João 21.15-17). E Pedro, em sua própria carta, exorta aos pastores/presbíteros como ele a não agirem “como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho” (1 Pe. 5.3). Isto acrescenta luz ao significado da passagem de Mateus 20.25-28. Vê-se, portanto, ao ler essas duas passagens e as outras aqui citadas, que a autoridade na igreja de uma região é exercida por meio de seus presbíteros. Esses, por sua vez, não podem nem devem ser como as autoridades político-administrativas dos povos, instituições e nações do mundo. As qualificações dos que exercem autoridade na igreja devem ser diferentes das qualificações dos governantes do mundo. Enquanto os governantes do mundo são chefes, escolhidos com base no critério “grandeza” (capacidade administrativa ou técnica, dinheiro, habilidade política, nobre nascimento, capacidade oratória), as autoridades da igreja são líderes, e devem ser escolhidos com base no critério “serviço” (servir humildemente aos irmãos, para a glória de Jesus). O que Jesus afirma na passagem e que é confirmado pelo ensino dos apóstolos, é que há autoridade na igreja, exercida por líderes-servos, não por governantes-chefes.

Contudo, é importante ressaltar que os presbíteros exercem autoridade, mas esta não é propriamente deles; ela vem de Deus. Os presbíteros/anciãos não possuem autoridade por si mesmos. As funções que os presbíteros exercem para com os seus irmãos, de orientar na palavra de Deus, aconselhá-los para que tomem decisões na vida com sabedoria, exortar os que erram etc. devem ser exercidas na autoridade de Deus, com base em sua Palavra e não em suas próprias opiniões. Se a opinião pessoal de um líder ou de um grupo de líderes diverge do que está nas Escrituras, esta não deve ser respeitada.E os anciãos devem ser seguidos na igreja por serem homens nas mãos do Senhor; não por possuírem títulos, diplomas ou cargos.

E quando vemos que o padrão no Novo Testamento é que cada igreja seja liderada e dirigida pelos seus presbíteros, concluímos que o próprio Senhor decidiu liderar e governar a sua igreja desse modo. Rejeitar a autoridade na igreja exercida pelos presbíteros, então, é rejeitar o tipo de autoridade estabelecido pelo próprio Senhor. E o vírus da rebeldia não passa impune. Ele causa sequelas. As comunidades que conheço que intencionaram ser igrejas orgânicas e que decidiram não se submeter a este princípio da liderança e autoridade por meio de presbíteros regionais têm tido muitos problemas em sua caminhada. Posso até arriscar-me a dizer que, as que hoje defendem a “autoridade igual de todos” mais cedo ou mais tarde, também enfrentarão grandes dificuldades, principalmente em termos de organização e de relacionamentos. Por outro lado, as que hoje reconhecem a autoridade presbiterial estão cada vez mais firmes e fortes (isto, quando os seus presbíteros são verdadeiramente homens nas mãos de Deus).

Além da autoridade por meio de anciãos ser um padrão neotestamentário, há outro motivo para a necessidade de existir autoridade reconhecida na igreja de uma região . É que o ser humano é pecador, mesmo depois de ter nascido de novo. Ele ainda possui um corpo não glorificado (até a volta do Senhor) e não conseguirá conviver em paz em comunidade, a menos que haja autoridade reconhecida. É tolice pensar o contrário.

A família, a quem a igreja é comparada como metáfora, possui sua autoridade maior no pai. Se um filho ou outro membro se rebelar contra o pai, toda a família sofrerá as consequências. Isto nos ensina também sobre a igreja.

É necessário haver um reconhecimento formal/público dos presbíteros de uma igreja?

É importante, então, que os presbíteros, além de possuírem as características bíblicas de um presbítero no que tange aos aspectos de testemunho, preparo e sabedoria, sejam reconhecidos pela congregação local. Paulo ordenou a Tito que constituísse presbíteros na igreja de Creta (Tito 1.5). O vocábulo grego neste verso traduzido como “constituísse” (katasteses) significa o estabelecimento formal/público de uma função de autoridade. Vê-se que o exercício do presbiterato não se trata de uma função apenas voluntária, vocacional. O presbítero deve ser constituído, o que implica em reconhecimento e aceitação pública de sua autoridade por parte da comunidade. Em Creta, por alguma razão, houve a necessidade de constituição de presbíteros por iniciativa de um ajudante de apóstolo, alguém externo à comunidade. Porém, nas demais igrejas no Novo Testamento, o padrão era que a própria comunidade apontasse e reconhecesse os seus líderes, como se vê em Atos 6.1-6 quando da escolha de diáconos em Jerusalém.

Quantos presbíteros devem existir numa igreja?

A autoridade na igreja, segundo o Novo Testamento, deve ser exercida por meio de um conselho/concílio local, formado por pelo menos dois presbíteros. No entanto, a formação de presbíteros leva tempo. Às vezes, nos primeiros meses ou anos das comunidades cristãs de certa região, elas contam com apenas um presbítero e, depois de alguns anos, aos poucos, outros irmãos adquirem as qualificações de um presbítero e então aquelas comunidades passam a também contar com os seus serviços. Enquanto houver apenas um presbítero, a autoridade de Deus na igreja local será exercida por meio dele. Com o tempo surgirão outros presbíteros e então a autoridade será exercida por meio do conselho de presbíteros/bispos. É importante que se destaque que depois que já há um conselho de presbíteros numa igreja (com pelo menos dois), não deve existir um “presbítero-presidente”. Não se vê isto no Novo Testamento. A liderança dos presbíteros é plural e equivalente — os presbíteros são iguais entre si — e as decisões do conselho devem ser, de preferência, unânimes, ou, senão, por maioria. A figura do pastor-presidente ou do presidente do conselho/concílio numa região é uma invenção humana, influenciada pelo padrão hierárquico de autoridade que há no mundo pagão. Isto não se encontra no Novo Testamento. Por outro lado, não há um número máximo de presbíteros estabelecido para cada igreja. Como o pastoreio é um dom e um ministério, até numa comunidade que se reúne num lar podem existir vários pastores/presbíteros.

Em alguns casos, a igreja começa com um obreiro (evangelista) que nem é presbítero. Às vezes é um jovem evangelista, como foi o caso de Timóteo. Em tais situações, a autoridade nessa igreja deve ser o obreiro, até surgirem os seus presbíteros (1 Cor. 16:15-16).

Qualificações dos líderes

Todas as características de um presbítero descritas em 1 Timóteo e em Tito são importantes, mas, se pudéssemos destacar duas como essenciais para a função, em nossa opinião, seriam: (1) a maturidade na fé, ou seja, não ser neófito; (2) o conhecimento bíblico aliado à capacidade de ensinar. Não adianta um irmão ter cabelos brancos, ser bem casado, ter bom testemunho e outras características descritas nos textos das cartas a Timóteo e Tito, se ele não tiver vários anos de caminhada na igreja, nem experiências de fé com Jesus nem possuir um ótimo conhecimento bíblico e capacidade de transmiti-lo. Sem isso ele não conseguirá liderar a comunidade e orientá-la sabiamente no caminho do Senhor.

Há muito mais a dizer sobre liderança e autoridade na igreja, porém, para o propósito deste ponto do artigo, o principal é que a falta de autoridade reconhecida em uma igreja ou a autoridade exercida por outros métodos e formas que não são aquela que o próprio Senhor estabeleceu (por meio de um conselho/concílio local de anciãos ou presbíteros), é uma grande ameaça à saúde funcional, emocional e espiritual de uma comunidade cristã.

O tratamento para esta “doença” é óbvio. Cada comunidade deve reconhecer, respeitar e honrar os seus presbíteros (ou o obreiro, se ainda não houver nenhum presbítero).

Nas próximas partes deste artigo, comentaremos sobre outras ameaças à saúde das igrejas orgânicas.

——————–

Autor: Marcio S. da Rocha.

Artigo revisado e atualizado em 07/02/2015.