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As Práticas das Igrejas Orgânicas – As 10 Principais Ameaças à Saúde das Igrejas Neotestamentárias – Parte 2

laboratorio-de-patologiaNesta segunda parte deste estudo, vamos tratar sobre mais duas ameaças à saúde espiritual, emocional e física das igrejas orgânicas.

Ameaça # 4 – Desconhecimento ou discordância nas doutrinas essenciais do Cristianismo

A antiguidade da Bíblia, a falta de acesso da maior parte da população às línguas originais com as quais ela foi escrita, além de outros fatores históricos e culturais, possibilitaram o surgimento de diferentes interpretações quanto aos diversos ensinamentos (doutrinas) nela constantes. Algumas dessas interpretações são erros não intencionais originados pela falta de estudo teológico/linguístico de pessoas que as conceberam. Outras surgiram devido às dificuldades textuais do próprio livro como literatura antiga. Outras foram originadas intencionalmente por pessoas que simplesmente não concordam com o que está escrito e criaram interpretações alternativas para impor o seu próprio pensamento.

O resultado das diferentes interpretações da Bíblia é o quadro complexo das diversas denominações e igrejas que se consideram cristãs atualmente – divididas entre si basicamente em função de doutrinas. Como já escrevemos antes em outro artigo[1], seria uma utopia pensar que há uma possibilidade de uniformidade entre todos os cristãos quanto ao conjunto das doutrinas bíblicas, nos dias atuais.

Mesmo dentro de um pequeno grupo de cristãos, como é uma igreja orgânica, é praticamente impossível que todos tenham o mesmo entendimento sobre todas as doutrinas bíblicas.

No entanto, mesmo sendo impossível obter a uniformidade de pensamento sobre todas as doutrinas, é possível e imprescindível buscar a uniformidade sobre as doutrinas essenciais: a Revelação de Deus (na natureza, na Bíblia e em Cristo), a Trindade Divina, a Divindade de Cristo e a sua Ressurreição, a Pecaminosidade inata do homem (pecado original), a Obra Expiatória de Jesus Cristo, a Salvação pela Graça, por meio da Fé em Jesus Cristo, a Igreja como Corpo de Cristo na Terra sob a liderança do Espírito Santo, o Estado da Alma Após a Morte, e o Retorno físico e real de Jesus Cristo à Terra Como Rei dos reis e Senhor dos senhores. Temos a opção e a obrigação de buscarmos a unidade nas “coisas essenciais”. É necessário que nos esforçemos “para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.” (Efésios 4.3).

A falta de uniformidade quanto às doutrinas essenciais ameaça a saúde de uma igreja orgânica, pois transforma a leitura ou o estudo bíblico em grupo num desagradável debate. Quando há uniformidade nas doutrinas essenciais, o compartilhar da Palavra e o estudo bíblico são uma bênção. Não havendo, tornam-se uma pedra de tropeço e uma fonte de inimizades.

Os líderes das igrejas orgânicas precisam combater este mal, estudando e ensinando as doutrinas essenciais, compartilhando e indicando material publicado de boa qualidade, buscando a uniformidade sobre elas e um acordo de paz entre os irmãos com relação às doutrinas periféricas. Para contribuir com os líderes cristãos neste sentido, criei um blog específico sobre as doutrinas essenciais do Cristanismo: o endereço é http://www.doutrinasessenciais.com/.

Ameaça # 5 – Influências Externas de Pessoas ou Grupos

As reuniões das igrejas nos lares são participativas e abertas a quem quiser se manifestar. Esta característica positiva, contudo, atrai pessoas que podem fazer mal ao grupo. Algumas dessas pessoas são visitantes adeptos de grupos que adotam doutrinas errôneas (heresias) e que veem nas reuniões abertas nos lares uma oportunidade de fazer proselitismo; e outras são cristãos, membros imaturos de outra igreja orgânica e que não compreendem que cada igreja (comunidade) possui a sua própria identidade, em termos de hábitos, práticas e relacionamentos.

Hoje em dia há muitos grupos se reunindo nos lares como igreja e que parecem cristãos autênticos, mas não são. E esses grupos possuem os seus “evangelistas”, os quais procuram entrar em contato com igrejas orgânicas não com o objetivo de ter comunhão, mas de compartilhar os seus ensinamentos errôneos. Muitos desses “evangelistas das heresias” não agem com más intenções; entram em contato com igrejas orgânicas em busca de comunhão, pois simplesmente pensam que estão corretos. Outros, entretanto, procuram as igrejas nos lares propositalmente com o objetivo de corromper os irmãos mais novos na fé.

Alguns desses grupos, no Brasil, são organizados; outros, não.

Uma das doutrinas errôneas pregadas por pessoas que participam de alguns grupos que se consideram igreja e que se reúnem nos lares é a da “Perda do Reino”. Ela foi concebida inicialmente pelo respeitável irmão chinês Watchman Nee, que apesar de ter contribuído bastante para a igreja durante sua vida e ter deixado muitos livros bons, enganou-se na interpretação da escatologia dispensacionalista e desenvolveu esta doutrina, explicada no seu livro “O Dano da Segunda Morte – reflexões sobre o milênio”. Nee interpretou que a expressão “Reino de Deus” no Novo Testamento se refere invariavelmente ao milênio – os mil anos em que Jesus reinará na terra, mencionados literalmente no livro de Apocalipse e que possui possíveis referências em outros livros da Bíblia. Juntando diferentes referências bíblicas, ele teceu sua conclusão de que, embora a salvação seja obtida pela fé – sem sem a necessidade de obras – é possível que um cristão fique “fora do Reino” durante o milênio; que perca o Reino de Deus, se não praticar muitas boas obras. E pior: os cristãos que “ficarão de fora do Reino de Deus (milênio)”, além de perderem a oportunidade de serem reis e rainhas da terra, vassalos de Cristo, sofrerão o “dano da segunda morte”, ou seja, passarão mil anos no lago de fogo. Na doutrina de Nee, tal perda é um castigo de Deus para os cristãos não dedicados, aplicado como disciplina.

Embora, à primeira vista, pareça inofensiva, a doutrina da Perda do Reino é nociva pelos efeitos psicológicos/teológicos que produz. Os adeptos desta doutrina tornam-se doentiamente legalistas, além de verdadeiros “conquistadores do Reino de Deus”. Por crerem que o direito de participar do milênio deve ser conquistado duramente por meio de boas obras e de uma santificação forçada e, devido ao terror de irem para o lago de fogo, tornam-se obcecados pela “conquista do Reino”. Muitos adeptos da perda do Reino não percebem que se tornam parecidos com os fariseus – altamente legalistas, orgulhosos e exigentes com relação aos demais irmãos e sobretudo,  cegos quanto à graça incondicional de Deus. Além do mais, os seguidores desta doutrina desenvolveram uma visão equivocada do jejum. Praticam o jejum como sacrifício ou como uma espécie de greve de fome para forçar Deus a lhes dar certas bênçãos ou para “pontuar” na conquista do Reino. Inventaram, inclusive, jejuns pontuais (jejuns de apenas um ou dois alimentos) — o que não existe na Bíblia. Esta doutrina da Perda do Reino e suas consequências se constitui num outro evangelho, bem diferente do pregado por Paulo, João e os demais apóstolos do Novo Testamento. Seus adeptos são pessoas que, como disse Paulo aos Gálatas (5.4), decaíram da graça. Vivem um evangelho da des-graça.

Outra doutrina equivocada e danosa que pode ser mencionada aqui é a que está sendo chamada por alguns de “morte da igreja”. Esta crença/doutrina ensina que os irmãos não devem se reunir frequentemente/semanalmente como igreja, mas apenas aleatoriamente, em certos momentos, nos quais, por uma ação sobrenatural do Espírito Santo, ele tocar os irmãos de determinado bairro ou cidade e movê-los para se reunirem. O ensinamento é uma espécie de “cada um por si e o Espírito Santo por todos”. De acordo com esta doutrina, o Espírito Santo mudou o seu modo de agir nos dias atuais e as pessoas que se reúnem semanalmente como igreja estão fazendo isto sem o mover do Espírito. Não há necessidade de argumentar muito para que se perceba que a ausência de reuniões frequentes não possui fundamento bíblico. Basta citar Hebreus 10.25: “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajar-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia”. Neste verso, vê-se a recomendação bíblica para que continuemos a nos reunir como igreja, e percebe-se  que o objetivo maior das reuniões das comunidades cristãs é o encorajamento mútuo na fé. Os irmãos encorajam uns aos outros com seus testemunhos, cuidado mútuo e compartilhar de conhecimento bíblico. A falta de reuniões, ou a redução drástica da frequência e regularidade das reuniões, portanto, resulta em desencorajamento e enfraquecimento na fé.

Além da ameaça de grupos e pessoas que adotam doutrinas errôneas, há ainda a possibilidade de influência negativa de irmãos imaturos que se congregam em outras igrejas orgânicas (em outros bairros ou cidades) e que não compreenderam que cada comunidade possui a sua própria identidade como grupo. Às vezes, tais pessoas entram em contato com comunidades locais tentando imprimir nelas os seus próprios hábitos, crenças e práticas como se fossem regras. Para exemplificar, posso citar um irmão que nos visitou e ensinou que toda igreja orgânica tem que se dividir em, no máximo, um ano de existência. Ele ensinou isto como se fosse uma prática comum das igrejas orgânicas, inclusive argumentando que a permanência de um líder por mais de um ano em uma igreja é prejudicial. O mal dessa visita foi enorme para a igreja com a qual nos reuníamos. Alguns casais mais novos na fé consideraram que o irmão visitante tinha razão e que precisavam deixar a comunidade imediatamente e iniciar comunidades em seus próprios lares. Os que saíram, até hoje (depois de vários meses) nunca iniciaram uma nova igreja como pretendiam. Na verdade, parece até que se desviaram da fé.

A influência (negativa) de pessoas ou grupos externos à comunidade está relacionada aos males # 3 e 4. A falta de firmeza doutrinária e de reconhecimento da autoridade dos presbíteros de uma igreja local contribuem para aumentar a influência de pessoas e grupos externos à igreja. O remédio, portanto, além de muita oração, é fazer todo o esforço para que os irmãos estejam firmes quanto às doutrinas cristãs e formalizar o reconhecimento dos presbíteros de uma igreja.

Os dias são maus. Que o Senhor guarde a sua igreja – o seu povo.

Na próxima parte comentaremos sobre outras ameaças às igrejas orgânicas.